Após morte de policial, vídeo de tenente expõe tensão interna na PM e levanta críticas à gestão da segurança no Paraná
Oficial afirma que vive perseguição por denunciar problemas e relaciona morte de cabo rodoviário a déficit de efetivo, fechamento de postos e sobrecarga nas rodovias estaduais
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Reprodução Instagram
A morte de um policial militar rodoviário após o capotamento de uma viatura na PR-323, no norte do Paraná, abriu uma fissura pública dentro da própria Polícia Militar. Horas após a confirmação do óbito, um tenente da corporação publicou um vídeo em tom incomum para a tradição hierárquica da PM: direto, emocional e carregado de acusações.
Na gravação, o oficial afirma que já foi punido por críticas internas e diz que continuará falando, mesmo sob risco disciplinar. “Transferiram, já me puniram e eu tenho certeza que vão continuar me perseguindo politicamente”, declara. Em seguida, ele afirma que prefere ser excluído da corporação a permanecer em silêncio: “Se eu precisar ser excluído da polícia, vou ser excluído com honra”.
O vídeo foi publicado no mesmo dia em que morreu o cabo Jean Patrick Niquetti, policial rodoviário estadual que não resistiu aos ferimentos após o capotamento da viatura durante serviço.
Uma ruptura rara no discurso interno
Manifestações públicas de oficiais criticando a estrutura da corporação são incomuns na Polícia Militar, historicamente marcada por disciplina rígida e canais internos de contestação.
No vídeo, o tenente rompe esse padrão ao afirmar que há um “período de caos” na instituição e que o problema é sistêmico. Ele diz que decidiu se pronunciar após receber dezenas de mensagens de policiais pedindo que tornasse públicas as denúncias após a morte do colega.
A escolha de palavras chama atenção pelo peso simbólico. Em determinado momento, ele afirma que a rotina dos policiais rodoviários se tornou um “suicídio forçado” — expressão que sugere não apenas desgaste operacional, mas responsabilização direta da estrutura administrativa.
A morte como catalisador
O vídeo associa explicitamente o acidente fatal a condições de trabalho. “Hoje nós perdemos uma vida. Um pai de família deixou o seu lar e morreu. Mas tudo isso é culpa da própria administração pública”, afirma o oficial.
Embora a causa formal do acidente ainda dependa de investigação técnica, a narrativa apresentada no vídeo desloca o debate do evento isolado para o contexto estrutural — falta de efetivo, extensão territorial e modelo de policiamento rodoviário.
Esse tipo de enquadramento não é incomum após mortes em serviço, mas raramente parte de um oficial da ativa em tom frontal e nominalmente crítico.
Denúncias sobre sobrecarga operacional
A parte mais detalhada do vídeo trata da estrutura da Polícia Rodoviária Estadual, com foco na região de Maringá. Segundo o tenente, a 4ª Companhia teria que cobrir milhares de quilômetros com efetivo reduzido.
Ele afirma que há policiais percorrendo mais de mil quilômetros por dia para atender ocorrências, fiscalizações e boletins. Também menciona o fechamento de postos rodoviários ao longo dos anos, o que teria concentrado ainda mais a demanda.
“Só na região de Maringá nós temos mais de 3 mil quilômetros atendidos pela companhia”, diz. Em outro trecho, afirma que há momentos em que apenas duas viaturas estariam disponíveis para cobrir essa área.
Se confirmados, os números indicariam um cenário de baixa densidade operacional — fator frequentemente associado a maior tempo de resposta, fadiga de equipes e aumento de risco em deslocamentos.
Críticas ao modelo atual
Além das denúncias operacionais, o vídeo traz uma crítica mais ampla ao desenho institucional da polícia rodoviária estadual. Em tom de indignação, o tenente questiona a lógica de manter o batalhão sem reforço estrutural.
“Se não querem contratar policiais, é simples: fecha o batalhão”, afirma, sugerindo que os policiais fossem realocados para batalhões urbanos e que acidentes rodoviários fossem atendidos por unidades locais.
A fala não representa uma proposta formal, mas revela o grau de insatisfação exposto publicamente — algo raro em corporações de natureza militar.
Repercussões internas e externas
Até o momento, não havia posicionamento público do comando da Polícia Militar nem do governo estadual sobre as declarações do tenente. Em casos semelhantes, a reação institucional costuma ocorrer por meio de sindicâncias ou notas reforçando a cadeia de comando.
O silêncio inicial amplia o alcance do vídeo, que rapidamente passou a circular em grupos de policiais e redes sociais, alimentando debates sobre efetivo, escalas e condições de trabalho.
Nos bastidores da segurança pública, o episódio tende a gerar dois movimentos paralelos: pressão por respostas institucionais e tentativa de conter a exposição pública de conflitos internos.
Um debate recorrente, agora mais exposto
Discussões sobre déficit de efetivo, jornadas extensas e reestruturação da Polícia Rodoviária Estadual não são novas no Paraná. Relatórios de associações de classe e manifestações de policiais já apontaram dificuldades semelhantes nos últimos anos, sobretudo após mudanças na distribuição territorial e fechamento de postos.
A diferença, neste caso, está no grau de exposição. A morte de um policial em serviço e a fala aberta de um oficial criam uma combinação que desloca o debate do campo corporativo para a arena pública.
Ao vincular diretamente a tragédia a decisões administrativas, o vídeo amplia a pressão por transparência sobre dados como efetivo disponível, cobertura territorial e critérios de alocação de viaturas.
Créditos: Redação
