Escolas do campo na berlinda no Paraná expõem engrenagem nacional de fechamento
Lista de unidades sob risco, dossiês com suspeitas de ilegalidades, pressão sindical e reação na Alep colocam o governo Ratinho Junior no centro de uma disputa que ecoa um dado maior: o Brasil perdeu mais de 110 mil escolas rurais em 24 anos
Por Gazeta do Paraná
Créditos: APP Francisco Beltrão
O caso começa no interior do Paraná, com endereço e testemunhas. Na comunidade de Palmital do 43, em Roncador, a agricultora Tatiane Loch Cequinel foi até a escola local para formalizar o encerramento da associação de pais. O gesto, burocrático, carregava peso simbólico. Ela relatou sinais claros de esvaziamento e resumiu o sentimento que ecoa em outras regiões: o medo de ver desaparecer a escola onde os filhos cresceram.
O episódio é apenas a face mais visível de uma disputa que ganhou corpo em 2025, quando comunidades rurais passaram a reagir à possibilidade de fechamento de escolas estaduais do campo. Protestos, assembleias e atos simbólicos se multiplicaram enquanto a Secretaria de Estado da Educação (Seed) sustentava que qualquer decisão dependeria de análise técnica e planejamento da rede.
O mapa das escolas e os primeiros conflitos
A controvérsia ganhou escala após assembleias conduzidas por Núcleos Regionais de Educação. Em São Jorge do Oeste, a Escola do Campo Iolópolis virou símbolo da resistência. A diretora Solênia Terezinha Siega afirmou que o episódio não era inédito:
“Essa é a quinta vez, em dez anos, que tentam fechar a escola.”
Relatos de assembleias apontam tensão crescente. O representante da Assesoar, Eder Borba, criticou o horário das reuniões convocadas para discutir encerramentos:
“Um horário de difícil presença para os pais.”
A lista de escolas citadas em mobilizações inclui unidades distribuídas por várias regionais, como Palmital do 43 (Roncador), Iolópolis (São Jorge do Oeste), Barra Bonita (Três Barras do Paraná), Vila União (Rosário do Ivaí) e outras instituições espalhadas pelo interior.
Em muitas comunidades, consolidou-se a percepção de um padrão: redução gradual de matrículas, perda de recursos e, ao final, o argumento de inviabilidade pedagógica.
A versão oficial: critérios técnicos e reorganização
A Secretaria da Educação afirma que não há decisão generalizada de fechamento e que eventuais mudanças seguem critérios técnicos, baseados em indicadores como número de matrículas e qualidade pedagógica.
Em manifestações públicas, a pasta sustenta que reorganizações visam melhorar o aproveitamento da rede e garantir condições adequadas de ensino. O discurso se ancora na lógica de planejamento anual e racionalização administrativa.
Mas o embate deixou de ser apenas técnico.
Dossiê aponta ilegalidades e amplia crise
Em novembro de 2025, um dossiê elaborado por entidades da educação do campo levou o conflito a outro patamar. O documento apontou possíveis irregularidades em processos de fechamento, incluindo ausência de consulta prévia às comunidades, uso de dados considerados defasados e falta de fundamentação técnica.
A análise também destacou impactos diretos em centenas de famílias rurais, citando dificuldades logísticas e mudanças profundas na rotina agrícola.
O defensor público Fernando Redede Rodrigues, citado nas discussões, defendeu maior cautela:
“É necessário um tempo para ouvir a comunidade antes de qualquer parecer definitivo.”
A Seed respondeu que analisaria os apontamentos e reiterou a busca por transparência.
APP-Sindicato entra no debate e fala em “pesadelo”
A disputa ganhou novo peso com a entrada da APP-Sindicato, que passou a tratar os fechamentos como parte de um problema estrutural da política educacional estadual. Em nota, a entidade classificou a situação como um “pesadelo para comunidades rurais”.
Em assembleias relatadas pelo sindicato, o tom das falas foi mais contundente:
“Fechar escola é a morte da comunidade”, resumiu uma avaliação recorrente em reuniões com pais e professores.
A APP sustenta que o fechamento de escolas do campo se repete ao longo dos anos e menciona episódios anteriores em que mobilizações comunitárias ou decisões judiciais impediram encerramentos específicos, especialmente no oeste do estado.
Para o sindicato, o padrão revela uma política contínua de enxugamento da rede, tese rejeitada pelo governo.
O tema chega à Assembleia Legislativa
A pressão extrapolou as comunidades e chegou ao Legislativo. Deputados do bloco PT-PDT, entre eles Ana Júlia, Luciana Rafagnin, Goura e Professor Lemos, protocolaram requerimento pedindo a suspensão de processos de fechamento e a apresentação de uma lista oficial de escolas afetadas.
Rafagnin classificou a medida como retrocesso social, enquanto Professor Lemos defendeu que escolas pequenas também podem oferecer ensino de qualidade e papel estratégico para o desenvolvimento local.
O requerimento cita normas que exigem consulta prévia às comunidades e alerta para riscos de violação ao direito à educação.
Paraná dentro de um fenômeno nacional
O que parecia um conflito localizado ganha outra dimensão quando se observam os números nacionais. Dados baseados no Censo Escolar indicam que o Brasil perdeu mais de 110 mil escolas do campo entre 2000 e 2024, dentro de um total de cerca de 163 mil escolas públicas fechadas no período.
No mesmo intervalo, o Paraná aparece entre os estados com retração significativa da rede rural, com milhares de unidades encerradas ao longo das últimas décadas.
Só em 2024, o país teria fechado mais de três mil escolas públicas, sendo cerca de metade delas rurais — um indicador que reforça a tendência de encolhimento estrutural da educação no campo.
O ponto central: custo ou território?
A disputa revela duas leituras distintas sobre o mesmo fenômeno. Para o governo, trata-se de reorganizar a rede diante de mudanças demográficas e pedagógicas. Para comunidades, sindicatos e movimentos rurais, o fechamento de escolas representa o desmonte de uma política territorial.
No campo, a escola é mais do que um espaço de ensino. Funciona como centro comunitário, ponto de encontro e elemento de permanência das famílias na terra. Quando ela fecha, dizem moradores, o impacto não se limita à sala de aula.
“Sem escola, o jovem vai embora. E quando o jovem vai embora, a comunidade desaparece”, relatou uma liderança rural durante mobilizações no interior.
Um conflito que deve crescer
A soma de fatores — mobilização comunitária, dossiês técnicos, pressão sindical e questionamentos parlamentares — indica que o debate sobre escolas do campo deve permanecer no centro da agenda educacional paranaense em 2026.
Mais do que uma disputa regional, o caso revela um dilema nacional: como equilibrar eficiência administrativa e direito à educação em territórios historicamente vulneráveis.
Enquanto comunidades tentam manter abertas as portas de escolas espalhadas pelo interior, o Brasil segue fechando unidades em ritmo histórico — e o Paraná se transforma em um dos retratos mais nítidos dessa encruzilhada.
Créditos: Redação
