Setembro/2026

Após apoiar Moro, prefeito deixa PSD e expõe fissura na reta final de Sandro Alex

Loreno Tolardo esteve em junho no encontro de prefeitos em apoio ao candidato de Ratinho Junior; mudança ocorre após meses de denúncias de pressão sobre gestores municipais para adesão ao projeto governista

Por Gazeta do Paraná

Após apoiar Moro, prefeito deixa PSD e expõe fissura na reta final de Sandro Alex Créditos: Reprodução redes sociais

O prefeito de Quatro Barras, Loreno Tolardo, anunciou sua saída do PSD depois de 16 anos na legenda, poucas horas após vir a público seu apoio a Sergio Moro (PL) na disputa pelo Governo do Paraná. A decisão chama atenção porque, há menos de quatro meses, Tolardo estava entre os prefeitos da Região Metropolitana de Curitiba reunidos em um evento de apoio à pré-candidatura de Sandro Alex.

Agora, a uma semana do primeiro turno, o prefeito está do outro lado.

No sábado (26), Tolardo participou de um encontro com empresários ao lado de Edson Vasconcelos, candidato a vice-governador na chapa de Moro. O apoio ao senador foi confirmado e, depois da repercussão, o prefeito publicou em suas redes sociais uma “Nota de Agradecimento e Desfiliação”, comunicando oficialmente que estava deixando o PSD.

Tolardo não explicou o motivo da mudança de posição eleitoral nem relacionou a desfiliação à candidatura de Moro. A nota é, na verdade, uma despedida cordial da legenda.

O prefeito afirma que ingressou no PSD em 2010, que esteve entre os primeiros gestores municipais do Paraná a integrar o partido e que participou da construção da sigla e da composição do Diretório Estadual. Também lembra que foi reeleito pelo partido em 2012, 2020 e 2024.

“Encerro este ciclo com o coração cheio de respeito e profunda gratidão por tudo o que construímos juntos”, escreveu.

Não há qualquer crítica a Sandro Alex, ao governador Ratinho Junior ou à direção estadual do PSD. Também não há, na manifestação, uma explicação sobre o que aconteceu entre junho e setembro para que o prefeito passasse do grupo de gestores reunidos em torno de Sandro para o apoio declarado a Moro.

 

Em junho, estava no ato de apoio a Sandro

No dia 2 de junho, Tolardo participou de um encontro realizado em Colombo que reuniu cerca de 25 prefeitos da Região Metropolitana de Curitiba em torno da pré-candidatura de Sandro Alex.

Estavam presentes Ratinho Junior, Sandro e o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Alexandre Curi. Organizado pelo prefeito de Colombo e presidente da Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Curitiba, Helder Lazarotto, o evento foi divulgado como uma demonstração da adesão das lideranças municipais ao projeto eleitoral governista.

O nome de Tolardo apareceu entre os prefeitos presentes. Naquela ocasião, gestores municipais também ressaltaram investimentos, obras e convênios mantidos com o Governo do Estado. Poucos dias depois, justamente a relação entre apoio político, recursos estaduais e prefeitos entraria no centro de uma controvérsia na Assembleia Legislativa.

 

Denúncias de pressão sobre prefeitos

Em 15 de junho, o deputado estadual Delegado Jacovós (PL) subiu à tribuna da Assembleia e afirmou que prefeitos, vereadores e outras lideranças políticas estavam procurando seu gabinete para relatar pressões relacionadas à eleição estadual.

Segundo Jacovós, prefeitos estariam sendo cobrados a gravar vídeos declarando apoio a Sandro Alex. O deputado chegou a resumir a denúncia com a expressão “grava o vídeo ou perde o convênio”, ao afirmar que gestores temiam consequências sobre obras e recursos estaduais caso não aderissem ao candidato governista.

As acusações foram feitas publicamente pelo parlamentar, mas não significam que Tolardo tenha sido alvo de qualquer ameaça ou pressão. Não há, até agora, declaração do prefeito de Quatro Barras nesse sentido, tampouco elemento que permita relacionar sua presença no encontro de junho às situações denunciadas por Jacovós.

O episódio, entretanto, integra o contexto político no qual os apoios de prefeitos passaram a ocupar papel importante na disputa pelo Palácio Iguaçu.

As reclamações não ficaram restritas ao início da pré-campanha. Já em setembro, uma reunião fechada do governador Ratinho Junior com mais de 30 prefeitos do Oeste voltou a colocar o assunto em evidência.

Segundo relatos de três prefeitos presentes publicados pelo Blog Politicamente, houve cobrança por maior participação dos gestores na campanha de Sandro Alex. A reportagem afirmou que Ratinho mencionou as ajudas recentes do Estado aos municípios e que o prefeito de Assis Chateaubriand, Marcel Micheletto, fez uma cobrança mais enfática pelo engajamento eleitoral.

Também neste caso, os relatos não demonstram que recursos tenham sido efetivamente condicionados a apoio político. São acusações e relatos que precisam ser tratados como tais. O episódio, porém, mostra que o comportamento eleitoral dos prefeitos continuava sendo objeto de disputa dentro da base governista às vésperas da votação.

 

PSD fechou questão com Sandro

A própria direção estadual do PSD adotou medidas para impedir dissidências.

Por meio da Resolução nº 55/2026, o partido fechou questão em torno da candidatura de Sandro Alex e estabeleceu que seus filiados deveriam respeitar a decisão partidária. Prefeitos, vereadores, deputados e demais integrantes da legenda ficaram impedidos de participar de atos, reuniões, gravações ou manifestações de apoio às candidaturas adversárias, sob possibilidade de sanções internas.

A regra ajuda a compreender a dimensão da decisão tomada agora por Tolardo. Permanecer no PSD enquanto fazia campanha publicamente para Moro colocaria o prefeito em confronto com uma determinação expressa da própria legenda.

Tolardo escolheu sair. A nota publicada pelo prefeito, porém, não esclarece se a resolução partidária foi determinante para sua desfiliação.

Relação com Moro vem de antes

A aproximação entre Tolardo e Moro não começou nesta campanha. O prefeito já havia apoiado o então candidato ao Senado em 2022.

Nas últimas semanas, a relação voltou a aparecer publicamente. Aliados da administração municipal participaram da passagem da campanha de Moro por Quatro Barras e, agora, Tolardo esteve em um encontro com Edson Vasconcelos e empresários do município.

A reunião teve como temas infraestrutura, logística, desenvolvimento econômico, geração de empregos e atração de investimentos. Foi depois desse encontro que o apoio de Tolardo à chapa de Moro se tornou público.

O movimento ganha peso porque ocorre justamente na reta final de uma campanha em que a disputa pelo apoio de prefeitos e lideranças municipais se transformou em uma frente importante para os principais candidatos.


Duas fotos e uma mudança

A trajetória de Tolardo nesta eleição pode ser resumida por duas imagens separadas por menos de quatro meses.

Na primeira, em junho, ele integrava o grupo de prefeitos reunidos em torno de Sandro Alex. Na segunda, em setembro, aparece ao lado de Edson Vasconcelos fazendo o sinal utilizado pela campanha de Moro.

Entre uma fotografia e outra, surgiram denúncias públicas de pressão sobre prefeitos, cobranças por engajamento eleitoral dentro da base governista e uma resolução do PSD determinando apoio dos filiados a Sandro Alex.

Nenhum desses fatos permite concluir que Tolardo tenha sido pressionado a apoiar Sandro em junho. Também não é possível afirmar que tenha decidido apoiar Moro porque eventualmente se sentiu livre para fazê-lo. O prefeito não apresentou essa versão.

O que pode ser afirmado é a sequência dos acontecimentos. Tolardo participou do movimento de prefeitos apresentado como apoio a Sandro, declarou apoio ao principal adversário do candidato do PSD na reta final e, logo depois, encerrou uma relação partidária de 16 anos.

A mudança transforma em fato concreto aquilo que durante meses apareceu principalmente em denúncias de adversários e relatos de bastidores: a unidade dos prefeitos em torno da candidatura governista não chegou intacta à última semana antes das urnas.

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