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Vorcaro é apontado como sócio oculto de rede de prostituição que recrutava refugiadas

Diálogos atribuídos ao ex-banqueiro revelam referências a refugiadas ucranianas e uma estrutura milionária de agenciamento de mulheres; PF apura possíveis crimes

Julia Maraschi · · 5 min de leitura
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, durante evento empresarial.
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, durante evento empresarial. — Crédito: Divulgação

O vazamento de mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro aponta a participação do empresário na estruturação e no financiamento de uma rede internacional de prostituição desde 2023. De acordo com a reportagem publicada pelo UOL nessa terça-feira (13), o dono do Banco Master atuava como sócio oculto do esquema e investiu em torno de R$ 4,3 milhões. As investigações feitas pela Polícia Federal e as próprias mensagens indicam que o acusado trabalhava em conjunto com empresários e agenciadores, que recrutavam jovens brasileiras e estrangeiras em uma casa noturna de São Paulo. A PF investiga possíveis crimes de exploração sexual e tráfico internacional de pessoas.

O material foi obtido no contexto das investigações envolvendo Vorcaro no escândalo do Banco Master, que, até então, é a maior fraude financeira já registrada no sistema bancário brasileiro. Desde então, passou a embasar suspeitas relativas a possíveis crimes sexuais.

O inquérito foi aberto em maio de 2026 para apurar a participação de garotas de programa estrangeiras e possíveis irregularidades nas contratações de serviços.

A prostituição, por si só, não é crime no Brasil. Entretanto, a exploração sexual de terceiros, o favorecimento da prostituição em determinadas circunstâncias e a manutenção de estabelecimentos destinados à exploração sexual podem configurar crimes previstos no Código Penal.

No caso em investigação, a Polícia Federal apura suspeitas de que uma estrutura de agenciamento de mulheres estrangeiras, incluindo refugiadas em situação de vulnerabilidade, teria sido utilizada para organizar encontros sexuais remunerados, com a possível participação de intermediários e financiadores. A investigação busca esclarecer as condições em que essas mulheres foram recrutadas, transportadas e contratadas, além de verificar se houve exploração sexual, abuso de vulnerabilidade ou tráfico de pessoas.

O vazamento das mensagens

De acordo com a investigação, as mensagens não mostram apenas a contratação de um serviço, mas indicam a participação de Vorcaro nas decisões envolvendo seleção de mulheres, pagamentos, viagens e organização dos encontros. O material também apresenta interlocutores que discutiam a permanência das mulheres no grupo e sua participação em diferentes eventos.

Em 2023, o ex-banqueiro recebeu uma proposta de contrato para adquirir 50% de uma agência de modelos, a Allure Eventos, pertencente ao empresário Felipe Nisti Cataldo. O documento previa o pagamento de R$ 1,5 milhão pela participação no negócio. Havia também uma cláusula estabelecendo a contratação de duas pessoas para projetos de interesse comum e a criação de uma estrutura para receber novas modelos.

Em janeiro de 2024, o promotor de eventos Diogo Batista informou que os dois haviam assinado o contrato e, então, escreveu em mensagem para Daniel: “Assim estamos blindados!”. Há registros também do pagamento de uma parcela de R$ 500 mil via Pix, identificado no celular do banqueiro.

As mensagens também indicam que Diogo Batista receberia R$ 120 mil mensais de Vorcaro pela atuação na organização dos eventos. Além da Allure Eventos, a investigação menciona empresas como SL Consulting, Moriah Asset, Prime You e Super Empreendimentos, que aparecem relacionadas à intermediação de pagamentos e à logística de viagens e encontros. Segundo o UOL, foram identificadas 21 faturas da SL Consulting, emitidas entre abril de 2024 e março de 2025, que somam aproximadamente US$ 70 milhões. Os documentos incluem despesas com eventos, hospedagens, serviços de hospitalidade e fretamentos. No entanto, não há comprovação de que a totalidade desses valores tenha sido destinada ao agenciamento de mulheres ou à exploração sexual.

Contratação de mulheres estrangeiras

As mensagens divulgadas pelo UOL também revelam o recrutamento de mulheres estrangeiras, principalmente da Ucrânia, Rússia, Venezuela, Argentina e Polônia. Entre elas, estavam jovens refugiadas que haviam deixado seus países em meio a conflitos e dificuldades econômicas. As conversas chamam atenção pela situação de vulnerabilidade de algumas dessas mulheres e pela maneira como eram tratadas pelos organizadores dos encontros.

Nos diálogos, Daniel Vorcaro e o promotor de eventos Diogo Batista utilizavam expressões depreciativas para se referir às mulheres, como “escravas” e “kengas”. As mais jovens eram apelidadas de “creche”. Em uma das conversas, Batista utilizou a expressão “escravinha doutrinada” e afirmou que iria “escravizar” uma mulher para fazê-la trabalhar para o grupo. Vorcaro, por sua vez, escreveu: “Nossa creche me consumiu semana toda”. Em outra troca de mensagens, ao saber da presença de três refugiadas ucranianas, o ex-banqueiro teria comentado: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”.

Um dos episódios mais delicados envolve uma refugiada ucraniana de 19 anos, apresentada ao grupo durante uma festa de Halloween, em outubro de 2023. No mês seguinte, Batista informou a Vorcaro que a jovem não poderia retornar à Ucrânia devido à guerra. Em dezembro, relatou que a cidade de origem dela estava sendo bombardeada e que a jovem não tinha para onde ir. Em outra conversa, afirmou ter convencido a refugiada a permanecer no grupo quando ela cogitava procurar abrigo na Itália.

O que diz Daniel Vorcaro

Em nota divulgada na terça-feira (13), Daniel Vorcaro negou qualquer envolvimento em práticas de exploração sexual e afirmou jamais ter explorado ou desrespeitado mulheres. O ex-banqueiro também questionou a autenticidade, a autoria e o contexto das mensagens divulgadas, alegando que conversas privadas foram apresentadas de maneira descontextualizada, o que classificou como uma “manipulação criminosa”.

Vorcaro criticou ainda o vazamento de informações de caráter pessoal, afirmando que a exposição indevida atingiu sua privacidade e a de seus familiares. Segundo ele, a divulgação do material teria ocorrido de forma seletiva, sem considerar o contexto integral das conversas.

O ex-controlador do Banco Master informou que pretende adotar medidas judiciais para buscar a responsabilização civil e criminal dos envolvidos nos vazamentos que considera ilícitos. Por fim, declarou estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as investigações pelos meios legais.

 

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