🗳️ Eleições 2026: acompanhe a apuração em tempo real Acompanhar →
Pref corbelia alto
Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Cidinha Marcon Cidinha Marcon Cidinha Marcon Julia Maraschi Julia Maraschi Julia Maraschi Marcos Formighieri Marcos Formighieri Marcos Formighieri Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Roberto Veloso Roberto Veloso Roberto Veloso Sergio Ricardo Sergio Ricardo Sergio Ricardo

Prefeitura vende terrenos por R$ 750 mil e deposita R$ 1 milhão para retomá-los; MP investiga

Negócio realizado em Santa Tereza do Oeste envolve três imóveis públicos, um leilão com apenas uma participante e avaliações divergentes; empresa compradora reivindica R$ 1,7 milhão na Justiça

Gazeta do Paraná · · 7 min de leitura
Prefeitura vende terrenos por R$ 750 mil e deposita R$ 1 milhão para retomá-los; MP investiga

A Prefeitura de Santa Tereza do Oeste, no Oeste do Paraná, vendeu três terrenos públicos por R$ 750 mil em setembro de 2024 e, menos de um ano depois, depositou judicialmente R$ 1,005 milhão para retomar a posse dos mesmos imóveis. A operação, que atravessou duas administrações municipais e envolveu avaliações imobiliárias divergentes, passou a ser investigada pelo Ministério Público do Paraná (MPPR), diante de suspeitas de subfaturamento na venda e superfaturamento na posterior desapropriação.

A diferença entre o valor da alienação e o depósito judicial chega a R$ 255 mil, o equivalente a 34% do preço de venda. O montante pode aumentar caso prospere a pretensão da empresa compradora, PV Supermercados Ltda., que reivindica uma indenização de aproximadamente R$ 1,71 milhão pelos três terrenos.

O caso é investigado pela 7ª Promotoria de Justiça de Cascavel, no Inquérito Civil nº MPPR-0030.25.002822-9, sob responsabilidade do promotor Sérgio Ricardo Cezaro Machado. O procedimento busca esclarecer possíveis atos de improbidade administrativa relacionados à operação.

Os imóveis envolvidos são os lotes 08, 09 e 10 da quadra 22, com 525 metros quadrados cada, totalizando 1.575 metros quadrados. A venda ocorreu durante a gestão do ex-prefeito Elio Marciniak. A desapropriação foi iniciada em 2025, já na administração de Amarildo Rigolin, sob a justificativa de construir um Centro de Convivência do Idoso.

 

Um leilão, uma empresa e uma avaliação esquecida

Os documentos do Leilão Público nº 004/2024 revelam circunstâncias que ajudam a explicar por que o negócio passou a despertar questionamentos.

Realizado em 24 de setembro de 2024, o certame contou com apenas uma empresa interessada: a PV Supermercados, representada por Saimon Alves Dreher.

O edital estabelecia preço mínimo de R$ 202.125 para cada terreno, totalizando R$ 606.375. Sem concorrentes, a empresa apresentou ofertas pelos valores mínimos previstos.

Entretanto, depois da sessão, o responsável pelo leilão constatou a existência de uma avaliação imobiliária atualizada que não havia sido considerada nos preços anunciados.

Uma ata complementar registra que o representante da compradora foi informado da necessidade de acrescentar R$ 143.625 ao valor inicialmente apurado ou aceitar o cancelamento do procedimento. A empresa concordou com a complementação.

Com isso, o preço final chegou a R$ 750 mil, correspondente a R$ 250 mil por lote. O extrato do contrato foi publicado no Diário Oficial do Município em 26 de setembro de 2024.

O episódio também foi objeto de parecer jurídico que tratou da correção da ata em razão de erro formal.

A existência de uma avaliação não considerada inicialmente levanta questionamentos sobre a preparação do edital e os controles administrativos adotados na alienação dos imóveis.

 

Avaliação tinha um ano

Outro ponto identificado pelo Ministério Público é a data da avaliação utilizada como referência para a venda.

Embora o leilão tenha ocorrido em setembro de 2024, o documento que estabelecia o valor de R$ 250 mil por terreno havia sido elaborado em setembro de 2023, aproximadamente um ano antes.

Segundo o Ministério Público, a avaliação não recebeu atualização monetária até a realização do certame.

A circunstância passou a integrar a investigação, que pretende esclarecer se os valores utilizados refletiam adequadamente as condições do mercado imobiliário no momento da venda.

A Promotoria também requisitou a íntegra do procedimento de leilão e todas as avaliações relacionadas aos imóveis.

 

Nova gestão decidiu recuperar os terrenos

Poucos meses depois da alienação, já sob uma nova administração, a Prefeitura decidiu recuperar os três lotes.

Em 12 de fevereiro de 2025, o prefeito Amarildo Rigolin editou o Decreto nº 038/2025, declarando os imóveis de utilidade pública para a construção de um Centro de Convivência do Idoso.

No dia 28 daquele mês, foi aprovada a Lei Municipal nº 2.401/2025, autorizando a desapropriação.

A avaliação apresentada inicialmente pelo município atribuiu a cada terreno o valor de R$ 252.509,25, totalizando R$ 757.527,75.

Em abril de 2025, a Prefeitura ajuizou a ação de desapropriação nº 0019001-13.2025.8.16.0021, perante a Vara da Fazenda Pública de Cascavel.

A diferença entre a avaliação municipal para desapropriação e o preço de arrematação era relativamente pequena. O cenário mudou, porém, quando a Justiça determinou uma avaliação independente.

 

Justiça elevou avaliação para R$ 1 milhão

O avaliador judicial atribuiu aos três terrenos o valor conjunto de R$ 1.005.000, equivalente a R$ 335 mil por lote.

A avaliação ficou R$ 255 mil acima do preço pelo qual os imóveis haviam sido vendidos em setembro de 2024.

Em 7 de maio de 2025, a Justiça autorizou a imissão provisória da Prefeitura na posse dos terrenos, condicionada ao depósito do valor indicado pelo avaliador judicial.

O município questionou a avaliação, mas posteriormente informou nos autos que havia realizado o depósito judicial. Em agosto de 2025, o processo registrou o cumprimento do mandado de imissão na posse.

Assim, a Prefeitura conseguiu retomar provisoriamente a posse dos terrenos, enquanto a discussão sobre o valor definitivo da indenização continuou na Justiça.

O depósito judicial não significa, necessariamente, que toda a quantia tenha sido levantada pela empresa ou que a indenização definitiva esteja estabelecida.

 

Empresa quer R$ 1,7 milhão

A PV Supermercados contestou o valor atribuído aos imóveis pela avaliação judicial.

Em manifestação apresentada no processo, a empresa sustentou que cada terreno deveria ser avaliado em R$ 571.950,75, o que elevaria a indenização total para R$ 1.715.852,25.

O valor reivindicado é aproximadamente 129% superior aos R$ 750 mil pelos quais a empresa adquiriu os três terrenos. A diferença chega a R$ 965.852,25.

A pretensão da empresa, contudo, não corresponde a uma indenização definitivamente reconhecida pela Justiça. Trata-se de um valor em disputa no processo de desapropriação.

A Prefeitura, por sua vez, sustentou nos autos que a controvérsia apresentada pela compradora dizia respeito ao preço dos imóveis, e não à possibilidade de desapropriação.

 

MP investiga possível improbidade

As diferenças entre os valores da venda e da desapropriação motivaram a atuação da 7ª Promotoria de Justiça de Cascavel.

O procedimento preparatório foi convertido em inquérito civil em agosto de 2026, com a finalidade de aprofundar a investigação sobre possíveis atos de improbidade administrativa.

A Promotoria determinou a coleta de documentos e a realização de oitivas para esclarecer as circunstâncias da alienação e da posterior desapropriação.

Entre as pessoas chamadas a prestar esclarecimentos estão o prefeito Amarildo Rigolin, Jhonath Reinold Hoff, responsável pela representação que deu origem à apuração, e Elvio Lapazzini, que conduziu o leilão de 2024.

O Ministério Público também requisitou à Prefeitura cópias de todas as avaliações imobiliárias e a íntegra do procedimento de venda.

Em ofício expedido em julho, a Promotoria registrou que uma requisição anterior, encaminhada em janeiro de 2026, ainda não havia sido respondida.

A apuração busca esclarecer se houve irregularidades nas avaliações, no procedimento de alienação ou na operação posterior de desapropriação.

Até o momento, os documentos examinados não demonstram a existência de superfaturamento, subfaturamento deliberado ou responsabilidade individual por eventual prejuízo. Esses pontos constituem justamente o objeto da investigação.

 

A conta que precisa ser explicada

O caso apresenta uma sequência de decisões administrativas que merece esclarecimento.

Em setembro de 2024, o município considerou conveniente vender os três terrenos por R$ 750 mil. Em fevereiro de 2025, a administração seguinte declarou os mesmos imóveis de utilidade pública, justificando sua recuperação para a construção de um equipamento destinado à população idosa.

Em maio, a avaliação judicial elevou o valor conjunto dos imóveis para R$ 1,005 milhão. Posteriormente, a compradora passou a reivindicar mais de R$ 1,7 milhão.

A mudança de finalidade dos terrenos e a existência de avaliações distintas não caracterizam, por si só, irregularidade. Entretanto, a sucessão dos atos levanta questões sobre o planejamento patrimonial do município, os critérios adotados nas avaliações e os custos da operação para os cofres públicos.

A investigação do Ministério Público deverá esclarecer se a venda e a desapropriação observaram os parâmetros legais e se alguma das decisões administrativas resultou em prejuízo ao patrimônio municipal.

Compartilhar: f X W T

Comentários (0)

  • Seja o primeiro a comentar.