Mais votos, menos cadeiras: 33 candidatos superaram eleitos e ficaram sem mandato no Paraná
Levantamento das eleições de 2026 revela que 17 candidatos a deputado federal e 16 a deputado estadual receberam mais votos que os parlamentares menos votados eleitos para cada Casa. Entre os derrotados estão ex-governadores, deputados com mandato e nomes que chegaram a figurar entre os mais votados do estado.
Nas eleições de 2026, ter mais votos que um adversário não foi garantia de conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados ou na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Um levantamento sobre os resultados do primeiro turno, realizado em 4 de outubro, revela que 33 candidatos ficaram sem mandato mesmo recebendo mais votos que parlamentares eleitos para as mesmas Casas legislativas.
A diferença é expressiva. Na disputa pela Câmara Federal, Luisa Canziani (União Brasil) conquistou 80.485 votos e terminou na 22ª posição da classificação nominal entre os candidatos paranaenses. Apesar disso, ficou de fora da lista dos 30 eleitos. Paulo Martins (Novo), por sua vez, recebeu 44.029 votos, terminou na 46ª colocação geral e garantiu uma cadeira em Brasília.
Na Assembleia Legislativa, o contraste foi ainda maior. Professora Angela (PSOL) conquistou 65.776 votos, a 15ª maior votação entre os candidatos estaduais, mas não foi eleita. Dr. Antenor (PT), com 30.467 votos, conquistou uma das 54 vagas disponíveis, apesar de receber menos da metade dos votos da candidata do PSOL.
Os números expõem uma característica do sistema proporcional brasileiro: diferentemente das eleições para prefeito, governador, presidente e senador, nas disputas para deputado a votação individual não é o único fator determinante. A quantidade de cadeiras conquistadas depende também do desempenho dos partidos e federações, considerados os votos nominais, os votos de legenda e as regras de distribuição de vagas.
Dezessete ficaram pelo caminho em Brasília
Na disputa federal, a referência adotada pelo levantamento foi a votação de Paulo Martins, candidato eleito com o menor número de votos entre os 30 representantes paranaenses. Com 44.029 votos, ele ficou atrás de 17 candidatos que não conquistaram mandato.
Entre os derrotados aparecem figuras conhecidas da política estadual, como o ex-governador Roberto Requião (PDT), com 79.921 votos, e Beto Richa (PSDB), com 58.946. Também ficaram de fora os deputados federais Luisa Canziani, Luciano Ducci, Luiz Nishimori, Dilceu Sperafico, Diego Garcia e Tadeu Veneri, apesar de superarem a votação de Martins.
Entre os derrotados aparecem figuras conhecidas da política estadual, como o ex-governador Roberto Requião (PDT), com 79.921 votos, e Beto Richa (PSDB), com 58.946.
Outro caso emblemático é o de Marcelo Rangel (PSD). Irmão do candidato derrotado ao governo estadual, Sandro Alex, Rangel recebeu 62.686 votos na disputa federal, número suficiente para superar a votação nominal de vários eleitos, mas não para assegurar sua própria cadeira.
A situação também atingiu diferentes campos ideológicos. Candidatos do PL, PT, União Brasil e outras legendas receberam mais votos que o último eleito, demonstrando que o fenômeno não ficou restrito a um único grupo político.
Na Assembleia, a 15ª mais votada não entrou
Na Alep, o levantamento utiliza como referência os 30.467 votos de Dr. Antenor, eleito pelo PT por meio da distribuição de vagas por média. Acima dessa marca ficaram 16 candidatos que não conseguiram uma cadeira.
Professora Angela é o exemplo mais contundente. Seus 65.776 votos representam 35.309 a mais que os obtidos por Antenor. Mesmo assim, a votação não foi suficiente para assegurar uma vaga à federação formada por PSOL e Rede Sustentabilidade.
Professora Angela é o exemplo mais contundente. Seus 65.776 votos representam 35.309 a mais que os obtidos por Antenor.
O PSOL recebeu 75.111 votos no Paraná, considerando os votos nominais e de legenda registrados para a sigla, e não conquistou nenhuma cadeira. Já o PT integrou uma federação com PCdoB e PV, cuja votação conjunta contribuiu para a distribuição de vagas entre seus candidatos.
Também ficaram sem mandato nomes como Secretária Márcia (PSD), com 45.833 votos; Cantora Mara Lima (Republicanos), com 41.133; Dr. Leônidas (PP), com 40.899; e Junior Weiller (MDB), com 39.210.
O levantamento evidencia que a posição no ranking geral de votos não corresponde necessariamente à posição na distribuição de cadeiras. A disputa é definida primeiro pelo desempenho coletivo dos partidos e federações e, posteriormente, pela classificação dos candidatos dentro dessas organizações.
O peso das legendas
O sistema proporcional busca distribuir a representação parlamentar conforme a força eleitoral dos partidos e federações, e não apenas de seus candidatos individualmente.
Para isso, a Justiça Eleitoral calcula o quociente eleitoral, obtido pela divisão dos votos válidos pelo número de cadeiras em disputa. Depois, aplica as regras de distribuição das vagas entre partidos e federações, incluindo o cálculo das sobras.
Na prática, um candidato muito votado pode ficar sem mandato se sua legenda não conquistar vagas suficientes. Por outro lado, um candidato com votação individual menor pode ser eleito porque integra um partido ou federação que obteve cadeiras e porque atende às exigências legais para ocupá-las.
Na prática, um candidato muito votado pode ficar sem mandato se sua legenda não conquistar vagas suficientes.
Isso não significa que os votos dos derrotados tenham sido descartados. Nas eleições proporcionais, os votos nominais também contribuem para o desempenho eleitoral da respectiva legenda ou federação, ainda que não resultem na eleição do candidato escolhido pelo eleitor.
O resultado de 2026 recoloca em discussão um aspecto pouco compreendido do processo eleitoral: o voto individual ajuda a definir a força coletiva dos partidos, mas não garante que o candidato escolhido ocupará uma cadeira.
Para os 33 candidatos paranaenses que superaram a votação de pelo menos um eleito e ficaram sem mandato, essa diferença entre desempenho pessoal e resultado partidário foi decisiva.
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