Ratinho Junior venceu em 2022. Seu grupo perdeu o Paraná em 2026. Onde foi parar a força do governador?
Sandro Alex recebeu 2,66 milhões de votos a menos que Ratinho Junior quatro anos antes. O candidato governista venceu em apenas 99 municípios, enquanto Moro conquistou 287. Resultado revela os limites da influência eleitoral do governador e expõe o enfraquecimento de sua base na disputa pelo Executivo
Em quatro anos, o grupo político de Ratinho Junior passou de uma vitória esmagadora a uma derrota que redesenhou o mapa eleitoral do Paraná. Em 2022, o governador conquistou a reeleição com 69,76% dos votos válidos e 4,24 milhões de votos. Em 2026, seu escolhido para a sucessão, Sandro Alex, recebeu 25,37% e 1,58 milhão de votos. A diferença de 44,39 pontos percentuais revela o tamanho da perda de força eleitoral da candidatura governista, mas também expõe uma contradição: o governador que dominou as urnas não conseguiu convencer a maioria dos paranaenses a manter seu grupo no Palácio Iguaçu.
O contraste ganha contornos ainda mais expressivos quando observado territorialmente. Sergio Moro, eleito governador no primeiro turno, venceu em 287 dos 399 municípios paranaenses. Sandro Alex conquistou a primeira colocação em apenas 99 cidades, enquanto Requião Filho liderou em outras 13. O candidato de Ratinho Junior terminou a disputa com menos da metade dos votos de Moro, apesar de representar um governo que havia construído uma ampla rede de alianças municipais ao longo de oito anos.
A derrota coloca em discussão não apenas a capacidade de transferência de votos de Ratinho Junior, mas a própria consistência de sua influência política no interior do estado. O apoio de prefeitos, deputados e lideranças regionais, frequentemente apresentado como um dos principais ativos do governo, não foi suficiente para assegurar a continuidade administrativa.
A máquina não garantiu a vitória
Sandro Alex não era um candidato estranho à administração estadual. Ex-secretário de Infraestrutura e Logística, participou diretamente de uma das áreas de maior visibilidade do governo, responsável por obras e investimentos que alcançam municípios de todas as regiões do Paraná. Sua candidatura foi construída em torno da continuidade desse projeto e contou com o apoio do governador e de aliados que haviam participado da sustentação política de Ratinho Junior.
O resultado mostrou, porém, que a presença administrativa não se converte automaticamente em preferência eleitoral. A execução de obras, a liberação de recursos e a proximidade com prefeitos podem fortalecer relações institucionais, mas não garantem que o eleitor acompanhe a orientação política das lideranças municipais.
O problema se tornou particularmente evidente nas maiores cidades do estado. Em Curitiba, Sandro Alex recebeu 24,12% dos votos válidos. Em Londrina, apenas 16,60%. Maringá registrou 14,62%, Cascavel, 16,80%, e Foz do Iguaçu, 17,01%. São percentuais inferiores ao desempenho estadual do candidato governista, justamente em centros urbanos que concentram parcela expressiva do eleitorado paranaense.
O desempenho também revela que a derrota não se limitou à capital ou a uma região politicamente adversária. A candidatura de continuidade encontrou dificuldades em diferentes polos econômicos e populacionais, inclusive no Oeste, região estratégica para a política estadual.
O Oeste deu força à vitória de Moro
O desempenho de Sergio Moro no Oeste do Paraná ajuda a compreender a dimensão da mudança eleitoral. Na mesorregião, o candidato do PL recebeu 57,19% dos votos válidos, um dos seus resultados regionais mais expressivos. No Norte Central, alcançou 55,12%. Foram justamente essas duas mesorregiões que mais contribuíram para consolidar sua vitória no primeiro turno.
O dado tem significado político porque o Oeste reúne municípios com forte presença de lideranças conservadoras, cooperativas, setores empresariais e uma rede de articulação municipal historicamente relevante para os governos estaduais. A vitória de Moro nesse território demonstra que a disputa não se resumiu à oposição entre direita e esquerda. O eleitorado também escolheu entre projetos políticos que disputavam espaços semelhantes.
Sandro Alex conseguiu resistir em algumas localidades. Em Sengés, recebeu aproximadamente 64,5% dos votos válidos. Em Altamira do Paraná, chegou a 63,5%. Os resultados mostram que a candidatura governista manteve bases importantes, mas elas foram insuficientes diante da vantagem construída por Moro nas maiores concentrações eleitorais.
Essa distribuição territorial também indica uma fragilidade estratégica: vencer municípios menores não necessariamente compensa desempenhos fracos em cidades populosas. Para transformar apoio político em vitória estadual, não basta reunir prefeitos e lideranças. É preciso conquistar votos onde se concentra o eleitorado.

O eleitor conservador não seguiu o governador
Um dos aspectos mais relevantes da eleição é que a derrota de Sandro Alex ocorreu diante de outro candidato identificado com a direita. Moro construiu sua campanha associado ao bolsonarismo e conseguiu disputar diretamente um eleitorado que também havia contribuído para a vitória de Ratinho Junior em 2022.
Essa circunstância enfraquece explicações que atribuam a derrota governista exclusivamente a uma mudança ideológica do eleitorado. O Paraná não necessariamente abandonou posições conservadoras. O que mudou foi a preferência entre lideranças e projetos políticos que disputavam parte dessa mesma base.
A vitória de Moro sugere que a identificação com Ratinho Junior não foi suficiente para manter unido o eleitorado que havia sustentado sua reeleição. O governador conservou influência partidária e institucional, mas não conseguiu transferir ao sucessor o capital eleitoral acumulado durante seus dois mandatos.
Há uma diferença importante entre aprovação administrativa, identificação pessoal e disposição de votar no candidato indicado por um governante. As urnas de 2026 demonstraram que esses três fatores não caminham obrigatoriamente juntos.
Os prefeitos também saíram menores?
A dimensão municipal da derrota abre uma questão particularmente incômoda para a base governista: até que ponto os prefeitos e dirigentes locais conseguiram transferir votos para Sandro Alex?
O resultado estadual mostra que a ampla articulação política não garantiu a eleição do sucessor. Entretanto, para medir a força de cada liderança municipal, é necessário identificar quais prefeitos apoiaram publicamente a candidatura governista e comparar esse posicionamento com o desempenho de Sandro Alex em suas respectivas cidades.
Essa análise pode revelar situações distintas. Em alguns municípios, o candidato governista venceu e demonstrou capacidade de mobilização. Em outros, lideranças próximas ao Palácio Iguaçu podem ter assistido à vitória de Moro apesar do apoio declarado a Sandro Alex.
A derrota estadual, portanto, não significa que todos os prefeitos aliados tenham perdido influência. Mas torna inevitável uma reavaliação da capacidade de mobilização política de uma base que, durante anos, esteve associada à força do governo Ratinho Junior.
O poder que permanece e o poder que desaparece
A derrota de Sandro Alex não representa o desaparecimento político do grupo de Ratinho Junior. O PSD conquistou uma das maiores bancadas da Assembleia Legislativa, preservando representação parlamentar e capacidade de negociação. O partido também mantém uma rede de lideranças municipais construída ao longo dos últimos anos.
O que mudou foi o centro do poder estadual. A partir de 2027, a estrutura administrativa, a condução das políticas públicas e a articulação com os municípios passarão ao governo Moro. Prefeitos e deputados que durante oito anos mantiveram relações políticas com Ratinho Junior terão de decidir como se posicionar diante da nova administração.
Essa mudança tende a provocar rearranjos nas alianças partidárias e nas relações entre Executivo e Legislativo. O grupo derrotado continuará presente na política estadual, mas já não terá o controle do Palácio Iguaçu como principal instrumento de articulação.
A derrota tem endereço, mas não mede sozinha a rejeição
A comparação entre os 69,76% de Ratinho Junior em 2022 e os 25,37% de Sandro Alex em 2026 não permite afirmar que o governador tenha perdido pessoalmente 44,39 pontos percentuais de apoio. Foram eleições distintas, com candidatos e circunstâncias diferentes. Parte dos eleitores pode continuar aprovando Ratinho Junior e, ao mesmo tempo, ter preferido Moro para sucedê-lo.
O que os números demonstram é mais específico e politicamente relevante: o governador não conseguiu reproduzir sua força eleitoral por meio do candidato que escolheu. A influência institucional, a estrutura partidária e a rede de alianças municipais não bastaram para garantir a sucessão.
O mapa de 2026 também mostra que a derrota não foi uniforme. Sandro Alex manteve redutos eleitorais, mas sofreu resultados particularmente fracos em cidades importantes e foi superado por Moro na grande maioria dos municípios.
Ratinho Junior encerra seu segundo mandato com uma estrutura política ainda relevante, mas diante de uma constatação difícil de contornar: a força que o reelegeu em 2022 não foi suficiente para manter seu grupo no comando do Paraná.
O governador venceu sua própria eleição com quase 70% dos votos. Quatro anos depois, descobriu que esse patrimônio eleitoral não era automaticamente transferível.
Matérias relacionadas
Últimos dias: inscrições para o Vestibular UTFPR 2027 terminam em 13 de outubro
MP das bets: Congresso recebe propostas para manter apostas esportivas
Gabriel Galípolo diz à PF que “esgotou palavrões” ao cobrar servidores sobre o Master
TRE-PR mantém multa de R$ 10 mil contra Zeca Dirceu por propaganda contra Moro
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.