MPF aponta ligação entre desvio de R$ 55,5 milhões da saúde no Paraná e tráfico internacional de cocaína
Denúncia contra cinco pessoas revela suspeita de lavagem de dinheiro do narcotráfico por meio de estrutura utilizada para movimentar verbas públicas; ação penal teve novas movimentações na Justiça Federal de Curitiba em outubro
Uma organização criminosa suspeita de desviar R$ 55,5 milhões destinados à saúde pública no Paraná e em outros estados também teria utilizado sua estrutura financeira para lavar dinheiro proveniente do tráfico internacional de cocaína para a Europa. A conexão foi apontada pelo Ministério Público Federal (MPF) na Operação Mens Scitus, que resultou em denúncia contra cinco pessoas por crimes relacionados à apropriação de recursos públicos, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades tributárias.
O caso tramita na 13ª Vara Federal de Curitiba e teve novas movimentações processuais em outubro de 2026. A investigação envolve os institutos Corpore e Civitas, organizações que firmaram parcerias com prefeituras para a execução de serviços públicos, especialmente na área da saúde. Segundo o MPF, dirigentes das entidades teriam utilizado empresas que simulavam serviços de consultoria e assessoria para retirar dinheiro dos contratos e ocultar sua destinação.
A denúncia foi recebida pela Justiça Federal em março deste ano. O Ministério Público calcula um prejuízo de aproximadamente R$ 55,5 milhões aos cofres públicos e aponta, separadamente, suspeitas de sonegação de R$ 98,1 milhões em tributos e contribuições previdenciárias. Os fatos ainda são objeto de processo criminal, sem condenação definitiva dos denunciados nesta ação penal.
Conexão com a cocaína
A suspeita de lavagem de dinheiro do narcotráfico é um dos elementos mais graves da investigação. Em comunicado oficial divulgado em 11 de março, o MPF informou que a organização teria utilizado as mesmas contas bancárias para movimentar tanto recursos desviados da saúde pública quanto valores provenientes do tráfico de cocaína destinada à Europa.
Segundo a Procuradoria, o apontado mentor intelectual do grupo já havia sido condenado a 31 anos de prisão no âmbito da Operação Narcobroker, relacionada ao tráfico internacional de drogas. Na data da divulgação, essa condenação estava em fase de recurso na segunda instância.
A acusação não significa que o dinheiro retirado dos contratos de saúde tenha sido utilizado para financiar o tráfico. A conexão descrita pelo MPF é outra: a suspeita de que a estrutura financeira empregada para ocultar os desvios também recebia e movimentava valores originados do narcotráfico.
A divulgação oficial do Ministério Público atribui expressamente essa conexão à denúncia criminal. Entretanto, a íntegra dos elementos probatórios relativos ao tráfico não foi examinada pela Gazeta nesta etapa da apuração, razão pela qual as informações são apresentadas como acusações do MPF, e não como fatos definitivamente comprovados.
Como funcionaria o esquema
A investigação aponta que o grupo utilizava duas Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscips), o Instituto Corpore e o Instituto Civitas, para receber verbas de contratos e parcerias celebrados com administrações municipais.
As entidades atuavam na execução de serviços de interesse público, incluindo atividades ligadas à saúde. Entre 2014 e 2022, segundo o MPF, integrantes da organização teriam estruturado um mecanismo de transferências financeiras para retirar recursos dessas instituições por meio de pagamentos a empresas que aparentavam prestar serviços.
A Procuradoria afirma que quatro empresas eram utilizadas para simular consultorias. A investigação identificou aproximadamente R$ 25,3 milhões transferidos a essas pessoas jurídicas sem a correspondente prestação de serviços. Outros R$ 14,8 milhões teriam sido destinados diretamente a dirigentes das entidades, enquanto R$ 15,3 milhões foram movimentados em nome de terceiros.
A utilização de intermediários, conforme a acusação, teria dificultado a identificação dos beneficiários finais dos recursos. O Ministério Público também aponta a aquisição de imóveis de alto padrão e veículos importados, entre eles uma BMW 428i, com valores suspeitos de terem sido retirados dos contratos públicos.
Os montantes divulgados representam as conclusões da investigação e ainda dependem de apreciação judicial. O recebimento da denúncia significa que a Justiça identificou elementos suficientes para iniciar a ação penal, não que tenha reconhecido a culpa dos acusados.
Municípios do Paraná
A atuação das entidades investigadas alcançou diferentes regiões do Paraná. Levantamentos sobre contratos e termos de parceria apontam vínculos com administrações municipais de Assaí, Bela Vista do Paraíso, Curiúva, Farol, Figueira, Foz do Iguaçu, Goioerê, Peabiru e Reserva.
Também existem registros históricos de parcerias envolvendo o Instituto Corpore em Rio Branco do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, e Corumbataí do Sul, no Centro-Oeste paranaense. Esses contratos foram objeto de questionamentos e fiscalizações em procedimentos anteriores à atual ação penal.
Em Bela Vista do Paraíso, por exemplo, o Tribunal de Contas da União examinou transferências realizadas ao Instituto Corpore em 2013 e 2014, que somaram aproximadamente R$ 5,5 milhões. Parte desses recursos tinha origem federal, e a fiscalização levantou questionamentos sobre despesas administrativas e prestação de contas.
Em Corumbataí do Sul, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná analisou uma parceria de 2008 e determinou, em decisão divulgada em 2020, a restituição de valores considerados irregulares. Rio Branco do Sul também foi objeto de procedimentos de fiscalização envolvendo repasses ao instituto.
Esses episódios demonstram que a atuação das entidades já havia despertado a atenção de órgãos de controle antes da Operação Mens Scitus. Entretanto, os contratos históricos não podem ser automaticamente incluídos no prejuízo de R$ 55,5 milhões apontado pelo MPF, porque envolvem períodos e procedimentos distintos.
A existência de parceria entre uma prefeitura e os institutos também não representa, por si só, indício de participação de agentes municipais nos crimes investigados. Para estabelecer essa relação, seria necessário identificar os contratos individualmente abrangidos pela denúncia e as responsabilidades atribuídas a cada envolvido.
Cinco denunciados
A ação penal nº 5066046-09.2025.4.04.7000 identifica cinco pessoas denunciadas pelo Ministério Público Federal: André Luis Ulrich, Crys Angélica Ribeiro de Carvalho, Rodrigo Reis Cirino, James Lopes e Célia Maria Ulrich.
André Luis Ulrich e Crys Angélica são apontados na acusação como integrantes centrais da estrutura de administração das entidades e das movimentações financeiras investigadas. Rodrigo Reis Cirino e James Lopes também aparecem relacionados à atuação administrativa e às operações atribuídas ao grupo.
A denúncia individualiza as condutas e os crimes atribuídos a cada acusado. Entre as imputações estão peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa e, para parte dos denunciados, delitos tributários e previdenciários.
A Justiça determinou o desmembramento da ação em relação a Célia Maria Ulrich, considerando circunstâncias pessoais e de saúde. O procedimento busca assegurar as condições necessárias ao exercício do direito de defesa.
Outras duas pessoas que haviam sido investigadas não foram incluídas na denúncia, após arquivamento dos procedimentos em relação a elas.
Empresas investigadas
A denúncia também identifica empresas que teriam sido utilizadas para movimentar os valores retirados dos institutos. Entre as pessoas jurídicas mencionadas estão R. O. Pedroso Eireli, L. M. M. Assessoria, MB Treinamentos Ltda. e AP Amorim Papelaria.
Segundo o MPF, as empresas apresentavam operações comerciais e prestações de serviços que, na avaliação dos investigadores, serviam para justificar transferências financeiras sem atividade econômica correspondente.
A apuração envolve notas fiscais, registros bancários, documentos societários e informações sobre os beneficiários das movimentações. Parte do material foi obtida por meio de diligências da Polícia Federal e compartilhamento de dados fiscais.
As relações entre dirigentes e empresas também aparecem em documentos de fiscalizações anteriores. A investigação criminal, entretanto, precisa demonstrar a participação individual de cada acusado e a origem ilícita dos valores movimentados, questões que permanecem submetidas ao contraditório.
Suspeita de sonegação
Além do suposto desvio de dinheiro público, a investigação identificou possíveis irregularidades tributárias relacionadas ao funcionamento das entidades.
O MPF atribui ao grupo a supressão de aproximadamente R$ 98,1 milhões em tributos federais e contribuições previdenciárias. A acusação envolve a utilização indevida de condições tributárias aplicáveis a entidades sem fins lucrativos.
Os valores tributários não integram automaticamente o cálculo de R$ 55,5 milhões em supostos desvios. Trata-se de acusações diferentes, embora relacionadas à mesma estrutura investigada.
A denúncia foi precedida por apurações da Receita Federal e por levantamentos sobre a movimentação financeira dos institutos. Também foram utilizados documentos produzidos por órgãos de controle que já haviam examinado contratos e prestações de contas das entidades.
Movimentações em outubro
A ação penal continua em andamento na Justiça Federal de Curitiba. Documentos processuais examinados pela Gazeta mostram que, em 14 de outubro de 2026, houve determinação relacionada à disponibilização de relatórios bancários utilizados como fontes de prova.
A providência envolve o acesso das defesas à documentação financeira produzida durante a investigação. O objetivo é permitir que os acusados conheçam integralmente os elementos utilizados contra eles e possam apresentar manifestações complementares.
O extrato processual consultado também registra movimentações posteriores, incluindo juntada de petições em 29 de outubro. A movimentação mais recente identificada no documento obtido pela reportagem é de 30 de outubro de 2026.
O conteúdo integral das petições mais recentes não estava disponível no extrato analisado. Assim, não é possível afirmar que tenham apresentado novas provas ou alterado o alcance das acusações. A movimentação demonstra a continuidade do processo, mas não constitui uma nova decisão sobre a responsabilidade dos réus.
O que pede o MPF
Na denúncia, o Ministério Público Federal solicita a condenação dos envolvidos pelos crimes atribuídos individualmente a cada um. Também pede o perdimento de bens relacionados às supostas práticas criminosas e o pagamento de indenização por danos morais coletivos.
A acusação reúne suspeitas de desvio de verbas da saúde, utilização de empresas para ocultação de recursos, irregularidades tributárias e lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de cocaína. A investigação alcança contratos municipais de diferentes estados e movimentações financeiras que, segundo a Procuradoria, teriam beneficiado integrantes da organização e terceiros.
O processo ainda deverá passar pela análise das provas e das manifestações das defesas. Até a última movimentação examinada pela reportagem, não havia registro de sentença condenatória na ação penal da Operação Mens Scitus.
A investigação coloca sob análise judicial o destino de recursos destinados ao atendimento da população e a suspeita de que parte da estrutura financeira utilizada nesses contratos também tenha servido para ocultar dinheiro do narcotráfico internacional. A confirmação das responsabilidades dependerá do julgamento das acusações pela Justiça Federal.
Matérias relacionadas
Golpe do falso advogado: Polícia Civil faz novo alerta após caso de quase R$ 2 milhões no Paraná
Wagner Moura e Chico César serão ministros de Lula? Veja o que se sabe sobre os nomes cotados para a Cultura em 2027
Prospera MEI: lançado na reta final da eleição, programa de Lula provoca debate político e levanta dúvidas sobre custos e benefícios
Bonde de R$ 6 milhões do governo Ratinho Junior encerra testes e levanta questionamentos sobre custo-benefício
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.