Golpe do falso advogado: Polícia Civil faz novo alerta após caso de quase R$ 2 milhões no Paraná
Criminosos usam dados verdadeiros de processos judiciais, nomes de advogados e falsas cobranças para enganar vítimas; OAB Paraná registrou 3,6 mil relatos até setembro de 2026
A Polícia Civil do Paraná (PCPR) divulgou um novo alerta sobre o golpe do falso advogado, modalidade de fraude em que criminosos utilizam nomes de profissionais da advocacia, informações verdadeiras de processos judiciais e mensagens por aplicativos para convencer vítimas a realizar transferências bancárias. A orientação, publicada na última sexta-feira (30), ocorre em meio ao avanço dos registros desse tipo de crime no estado e semanas depois de uma operação que investigou um prejuízo de quase R$ 2 milhões contra uma idosa de Curitiba.
O esquema geralmente começa com uma notícia aparentemente positiva: a pessoa recebe uma mensagem informando que venceu uma ação judicial e tem dinheiro disponível para receber. Para liberar o suposto pagamento, porém, seria necessário quitar antecipadamente taxas, impostos ou despesas processuais, muitas vezes por Pix. Segundo a Polícia Civil, os criminosos costumam utilizar fotografias, nomes e informações reais de advogados e escritórios. Em determinadas situações, apresentam números de processos e outros dados judiciais verdadeiros, aumentando a aparência de legitimidade da abordagem.
O delegado Fernando Garbelini, da PCPR, recomenda que qualquer solicitação desse tipo seja confirmada diretamente com o profissional responsável pelo processo. “Nesses casos, a vítima pode entrar de imediato em contato com o seu advogado. Ligue ou vá até o escritório para verificar a procedência das informações que foram passadas por aplicativo de mensagens”, orienta. A polícia também alerta para mensagens que exigem pagamentos imediatos, estabelecem prazos curtos ou ameaçam a perda de valores judiciais caso a transferência não seja realizada.
Alerta oficial da Polícia Civil do Paraná, de 30 de outubro.
Golpe já provocou prejuízo milionário em Curitiba
O novo alerta ocorre menos de um mês depois de uma operação da Polícia Civil que investigou um esquema responsável por causar prejuízo de aproximadamente R$ 2 milhões a uma viúva de 80 anos, em Curitiba. Conforme noticiado pela Gazeta do Paraná, em 8 de outubro, a investigação levou à expedição de 32 mandados judiciais contra suspeitos de integrar o grupo criminoso. A operação foi realizada nas cidades de Fortaleza, Maracanaú e Eusébio, no Ceará. Foram expedidos 15 mandados de prisão temporária e 17 de busca e apreensão. No balanço divulgado no mesmo dia, dez pessoas haviam sido presas. A Justiça também autorizou o bloqueio de até R$ 2,09 milhões em contas e aplicações financeiras vinculadas aos investigados.
A vítima teria sido convencida de que poderia receber um crédito judicial de R$ 7 milhões relacionado ao marido falecido. Para isso, precisaria realizar pagamentos antecipados. Segundo a investigação, os criminosos se apresentavam como advogados e representantes de instituições financeiras e públicas, incluindo o Banco Central e a Caixa Econômica Federal. A abordagem envolveu mensagens por WhatsApp e chamadas de vídeo. A Polícia Civil também identificou movimentações bancárias destinadas a dificultar o rastreamento dos valores. Em um dos episódios, R$ 30,6 mil transferidos pela vítima foram enviados integralmente para outra conta investigada no mesmo dia.
No dia 19 de outubro, a Gazeta informou que o Ministério Público do Paraná (MPPR) havia denunciado 15 pessoas por suspeita de participação no esquema. O prejuízo apontado na denúncia foi de R$ 1.971.826. O Ministério Público também requisitou a abertura de uma nova investigação para identificar possíveis responsáveis pela organização e execução direta do golpe. A denúncia ainda depende de análise judicial, e os investigados têm direito à ampla defesa e ao contraditório. Não foi identificada, nas fontes consultadas, confirmação de uma decisão definitiva sobre as acusações.
As reportagens anteriores podem ser consultadas no portal:
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PCPR cumpre 32 mandados contra grupo suspeito de golpe do falso advogado — 8 de outubro
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MPPR denuncia 15 pessoas por golpe que causou prejuízo de quase R$ 2 milhões — 19 de outubro
OAB Paraná registrou 3,6 mil relatos em 2026
O problema não se limita ao caso investigado em Curitiba. Segundo dados divulgados pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Paraná (OAB-PR), em 21 de setembro, o estado havia registrado aproximadamente 3,6 mil relatos do golpe do falso advogado desde o início de 2026. O volume já superava em mais de 70% todos os registros contabilizados ao longo de 2025, segundo a entidade. Os números mostram que a maior parte das tentativas relatadas não resultou em perda financeira. Ainda assim, mais de um em cada cinco registros de 2026 envolveu prejuízo para a vítima. A OAB Paraná mantém uma comissão específica para o enfrentamento desse tipo de fraude e informou ter ampliado a interlocução com a Polícia Civil, o Ministério Público, instituições financeiras e plataformas digitais. As ações de prevenção também alcançaram cidades do interior, incluindo Cascavel, Foz do Iguaçu, Umuarama, Francisco Beltrão, Laranjeiras do Sul, Maringá e Ponta Grossa.
Como os criminosos conseguem informações verdadeiras dos processos?
Uma das principais características do golpe é o uso de informações reais para criar uma falsa sensação de segurança. Isso acontece porque determinados processos judiciais possuem informações que podem ser consultadas publicamente. Nomes das partes, números dos processos e outros detalhes podem ser utilizados por criminosos para tornar as mensagens mais convincentes. O fato de uma pessoa conhecer detalhes de uma ação judicial, portanto, não comprova que ela seja o advogado responsável pelo caso.
A OAB Paraná também alerta para novas formas de abordagem, incluindo documentos com logotipos de tribunais, falsas audiências por videochamada e até áudios que imitam a voz de advogados por meio de inteligência artificial. Nessas situações, a recomendação é encerrar a conversa e procurar o profissional por um telefone previamente conhecido, sem utilizar os números ou links enviados na mensagem suspeita. A entidade disponibiliza ainda o sistema ConfirmADV, que permite verificar a identidade profissional informada no contato. Outra ferramenta é o Cadastro Nacional dos Advogados, utilizado para consultar a situação da inscrição de profissionais. A consulta ao cadastro, entretanto, não substitui a confirmação de que a pessoa que enviou a mensagem é realmente o advogado. Um criminoso também pode utilizar dados de um profissional regularmente inscrito.
Caiu no golpe? Saiba como tentar recuperar o dinheiro
Quem realizou uma transferência após receber uma mensagem fraudulenta deve procurar imediatamente a instituição financeira e comunicar o ocorrido. Nos pagamentos realizados por Pix, existe um procedimento chamado Mecanismo Especial de Devolução (MED), criado pelo Banco Central para facilitar a recuperação de valores em situações de fraude. O pedido deve ser apresentado ao banco em até 80 dias após a transação. No entanto, a recomendação é agir assim que o golpe for identificado, porque a recuperação depende da análise do caso e da existência de recursos que possam ser bloqueados ou recuperados.
O MED não garante a devolução integral do dinheiro. Além de comunicar o banco, a vítima deve registrar boletim de ocorrência, preservar comprovantes de pagamentos, capturas de tela das conversas, números utilizados pelos suspeitos e eventuais documentos encaminhados pelos criminosos. No Paraná, o boletim pode ser registrado pela internet, na opção de estelionato, ou presencialmente em uma delegacia da Polícia Civil. A OAB Paraná também disponibiliza um canal específico para denúncias, inclusive quando a tentativa de fraude não resultou em prejuízo financeiro. Essas informações podem auxiliar na identificação de padrões e na investigação de grupos criminosos.
Os serviços estão disponíveis nos seguintes endereços:
Como identificar uma tentativa de golpe
A Polícia Civil e a OAB Paraná recomendam atenção especial quando o contato apresenta algumas características: mensagens de números desconhecidos que utilizam nomes de advogados, pedidos de Pix para liberar indenizações, cobranças urgentes, mudanças inesperadas nos telefones dos escritórios e solicitações de documentos, senhas ou códigos de verificação. Também é necessário desconfiar de convites inesperados para audiências por vídeo ou solicitações para compartilhar a tela do celular. Mesmo quando a mensagem apresenta informações corretas sobre o processo, a orientação é não realizar pagamentos antes de confirmar diretamente com o advogado. O alerta da Polícia Civil é simples: diante de qualquer dúvida sobre a origem da cobrança, a transferência não deve ser realizada.
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