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Bonde de R$ 6 milhões do governo Ratinho Junior encerra testes e levanta questionamentos sobre custo-benefício

Após dez meses de operação, veículo chinês percorreu 6,4 mil quilômetros e transportou 10,8 mil passageiros; governo destaca aprovação dos usuários, mas implantação definitiva ainda é incerta

Julia Maraschi · · 3 min de leitura
Bonde Urbano Digital (BUD) encerrou período experimental entre Pinhais e Piraquara após contrato de R$ 6,07 milhões; implantação definitiva do sistema ainda depende de avaliações técnicas.
Bonde Urbano Digital (BUD) encerrou período experimental entre Pinhais e Piraquara após contrato de R$ 6,07 milhões; implantação definitiva do sistema ainda depende de avaliações técnicas. — Crédito: Geraldo Bubniak/AEN

O Bonde Urbano Digital (BUD), apresentado pelo governo Ratinho Junior como uma alternativa inovadora para o transporte público do Paraná, encerrou seu período de testes na Região Metropolitana de Curitiba após uma contratação de R$ 6,07 milhões. Durante dez meses, o veículo de tecnologia chinesa realizou 633 viagens, percorreu 6.433 quilômetros e transportou 10.879 passageiros entre Pinhais e Piraquara.

Os números, divulgados pela Agência de Assuntos Metropolitanos do Paraná (Amep) em 28 de outubro, levantam questionamentos sobre o custo-benefício da experiência, especialmente porque o projeto ainda não tem previsão de implantação definitiva.

Dividindo o valor contratado pela distância percorrida, chega-se a aproximadamente R$ 943,83 por quilômetro. Em relação aos passageiros transportados, o resultado é de cerca de R$ 558 por usuário.

Esses valores, entretanto, não representam o custo operacional do bonde, pois o contrato inclui pesquisa, desenvolvimento, materiais, mão de obra especializada e disponibilização temporária do veículo. Além disso, o montante contratado não corresponde necessariamente ao valor efetivamente pago pelo governo.

Operação limitada e baixa ocupação

Fabricado pela empresa chinesa CRRC Nanjing Puzhen, o BUD é elétrico, utiliza pneus e segue uma trajetória orientada por sensores e marcadores magnéticos, dispensando trilhos convencionais.

Segundo a Amep, a tecnologia poderia reduzir em aproximadamente 70% os custos de implantação em comparação com sistemas tradicionais de veículos leves sobre trilhos (VLTs).

O modelo testado possui capacidade para até 280 passageiros, mas registrou média de aproximadamente 17 usuários por viagem durante a experiência.

A operação começou em dezembro de 2025 e teve programação reduzida, com quatro horários diários, incluindo viagens fora dos períodos de maior movimento do transporte coletivo.

Essas condições levantam dúvidas sobre a capacidade de avaliar o desempenho do veículo em uma operação regular, especialmente nos horários de pico.

Comparação com ônibus convencionais

O custo do BUD também tem sido comparado ao dos ônibus biarticulados de Curitiba. Entretanto, a comparação exige cautela, pois o valor do projeto experimental inclui investimentos em pesquisa e desenvolvimento, enquanto os custos dos ônibus consideram a operação de um sistema já implantado.

Para avaliar qual tecnologia seria economicamente mais vantajosa, seria necessário considerar despesas de implantação, manutenção, energia, infraestrutura, vida útil dos veículos e quantidade de passageiros transportados.

Governo destaca aprovação de 93,1%

Apesar dos questionamentos financeiros, o governo estadual considera positiva a experiência. Segundo a Amep, uma pesquisa realizada com usuários apontou aprovação de 93,1%, com nota média de 8,78 em uma escala de zero a dez.

A agência informou que os testes avaliaram aspectos como segurança, climatização, consumo de energia, ruídos e desempenho do veículo. Os resultados deverão subsidiar estudos sobre alternativas para o transporte público metropolitano.

Futuro indefinido e questionamentos sobre o investimento

Com o encerramento dos testes, o BUD deverá ser devolvido à fabricante chinesa, conforme previsto no contrato. Uma eventual implantação definitiva dependerá de novos estudos e investimentos em infraestrutura, ainda sem valores divulgados.

O encerramento da experiência deixa questões importantes sobre o uso dos recursos públicos. Entre elas estão o montante efetivamente desembolsado, os custos adicionais de adaptação das vias e os benefícios concretos obtidos com os testes.

Embora projetos experimentais sejam importantes para avaliar novas tecnologias, a aplicação de recursos públicos exige transparência e demonstração dos resultados alcançados.

A aprovação dos passageiros é um indicador positivo, mas não substitui a análise econômica. Sem a divulgação dos relatórios técnicos completos e dos dados financeiros, permanece em aberto se o investimento de R$ 6,07 milhões trouxe resultados proporcionais ao seu custo e se a tecnologia representa uma alternativa viável para o transporte público do Paraná.

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