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PL se divide sobre apoio a Hugo Motta e deputado ameaça candidatura própria à presidência da Câmara

Com a maior bancada eleita, partido negocia espaços nas comissões e mira comando do Senado; reunião nesta terça-feira (3) deve discutir estratégia para 2027

Ana Zimermann · · 8 min de leitura
Hugo Motta articula apoio para permanecer na presidência da Câmara em 2027, enquanto o PL discute candidatura própria e negocia participação no comando do Congresso.
Hugo Motta articula apoio para permanecer na presidência da Câmara em 2027, enquanto o PL discute candidatura própria e negocia participação no comando do Congresso. — Crédito: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

A disputa pela presidência da Câmara dos Deputados ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (2), com uma divergência pública dentro do Partido Liberal (PL). Enquanto dirigentes da legenda negociam a possibilidade de apoiar a recondução do atual presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), o deputado federal Zé Trovão (PL-SC) anunciou que pretende apresentar uma candidatura própria caso o partido não escolha um representante para concorrer ao cargo. A manifestação ocorre às vésperas de uma reunião da bancada do PL, marcada para terça-feira (3), às 18h, para discutir o posicionamento da legenda nas eleições internas do Congresso Nacional, previstas para fevereiro de 2027.

O impasse envolve mais do que a escolha de quem presidirá a Câmara nos próximos dois anos. Com 121 deputados federais eleitos, o PL terá a maior bancada individual da Casa, mas precisará negociar com outras siglas para transformar essa representação em influência sobre a tramitação de projetos, a distribuição das comissões e a composição da Mesa Diretora. Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil, a direção partidária avalia apoiar Motta em troca de participação nos espaços de comando da Câmara e de uma articulação que também contemple os interesses do PL na disputa pela presidência do Senado.

Zé Trovão contraria articulação da direção do PL

A possibilidade de um acordo com Hugo Motta enfrenta resistência de parlamentares que defendem uma postura de oposição ao quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em vídeo divulgado nas redes sociais, Zé Trovão afirmou que não concorda com a aproximação do PL com o atual presidente da Câmara e declarou estar disposto a disputar o cargo mesmo sem o apoio oficial da legenda. "Se o PL não lançar candidato a presidente da Câmara dos Deputados, eu serei o candidato", afirmou o parlamentar. O deputado também criticou a possibilidade de apoiar um nome que esteve alinhado politicamente ao presidente Lula durante as eleições presidenciais. Até esta segunda-feira, entretanto, a iniciativa representa uma posição individual. Não há anúncio oficial da direção partidária confirmando o lançamento de uma candidatura à presidência da Câmara.

Por que o PL considera apoiar Hugo Motta?

A resistência de parte da bancada contrasta com a avaliação de dirigentes próximos ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que defendem uma negociação com Motta para preservar espaços institucionais na próxima legislatura. O cálculo envolve a distribuição das presidências das comissões permanentes, responsáveis por examinar projetos de lei, realizar audiências públicas e fiscalizar atividades do governo federal. Na Câmara, a proporcionalidade partidária e a formação dos blocos parlamentares influenciam a divisão desses espaços. Assim, embora o PL tenha eleito mais deputados do que qualquer outra legenda, a formação de um bloco reunindo diversos partidos pode alterar a ordem de escolha das comissões.

 Uma das principais disputas envolve a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), considerada estratégica porque examina a constitucionalidade de propostas legislativas. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) é apontado como interessado em presidir o colegiado. Entretanto, a participação do partido na distribuição das comissões dependerá das negociações entre as bancadas e da composição dos blocos no início da legislatura. A direção do PL avalia que um acordo com Motta poderia preservar a participação da legenda nesses espaços. Já os parlamentares contrários à aproximação defendem que o tamanho da bancada justifica a apresentação de um candidato próprio.

Apoio do PT acrescenta dificuldade às negociações

Outro elemento da disputa é o posicionamento da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, que anunciou oficialmente, em 27 de outubro, apoio à recondução de Hugo Motta. Com a adesão das três legendas, o grupo de apoio ao atual presidente passou a reunir 15 partidos. As bancadas dessas siglas somam mais da metade dos 513 deputados eleitos, embora o apoio das direções partidárias não signifique que todos os parlamentares votarão necessariamente no mesmo candidato. A aproximação entre Motta e o PT também produz um impasse nas negociações com o PL. Segundo informações publicadas pela imprensa nacional, dirigentes petistas resistem à possibilidade de dividir o mesmo bloco parlamentar com o partido de Flávio Bolsonaro e com o Novo. Integrantes da federação defendem que o acordo com Motta também assegure espaços para a base do governo nas comissões. Isso significa que a entrada do PL em uma composição mais ampla dependeria de negociações capazes de conciliar interesses políticos divergentes.

Senado entra nas negociações e amplia o impasse

A disputa pela Câmara também está relacionada à tentativa do PL de conquistar a presidência do Senado Federal. A legenda terá 28 dos 81 senadores a partir de fevereiro de 2027 e pretende apresentar o nome de Rogério Marinho (PL-RN), atual líder da oposição na Casa. A articulação enfrenta os planos do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que busca permanecer no cargo e negocia apoio de outras legendas. A direção do PL considera a possibilidade de apoiar Hugo Motta na Câmara enquanto concentra esforços na candidatura de Marinho ao Senado. O entendimento, porém, não é consensual. Para uma parte da bancada, apoiar Motta significaria abrir mão de disputar a presidência da Câmara justamente no momento em que o partido conquistou sua maior representação parlamentar. Antes de avançarem as negociações, os nomes de Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido, e Altineu Côrtes (PL-RJ), atual vice-presidente da Câmara, chegaram a ser avaliados como possíveis candidatos da legenda.

Como funciona a eleição para presidente da Câmara?

A escolha do presidente da Câmara ocorre no início da legislatura, em fevereiro de 2027, depois da posse dos deputados federais eleitos em outubro. A eleição é realizada pelos próprios parlamentares, por votação secreta. O presidente eleito terá mandato de dois anos, até 2029. Para vencer no primeiro turno, o candidato precisa obter maioria absoluta dos votos, respeitado o quórum exigido. Com os 513 deputados presentes e votando validamente, isso corresponde a pelo menos 257 votos. Caso nenhum candidato alcance a maioria necessária, há um segundo turno entre os dois mais votados, decidido por maioria simples.

O Regimento Interno também permite candidaturas avulsas, mesmo quando o partido ou bloco parlamentar indica outro nome. É essa possibilidade que Zé Trovão pretende utilizar caso a direção do PL não apresente um candidato próprio. O presidente da Câmara tem atribuições que vão além da condução das sessões. Cabe a ele dirigir os trabalhos legislativos, exercer funções administrativas, representar institucionalmente a Casa e desempenhar papel central na organização da pauta de votações. A presidência também participa da articulação das prioridades legislativas e das negociações entre governo, oposição e demais partidos. Por isso, a eleição interfere diretamente no andamento de projetos relacionados à economia, segurança pública, políticas sociais e fiscalização do Executivo.

As regras estão disponíveis no Regimento Interno da Câmara dos Deputados, atualizado em 2026.

O que está em jogo para o Paraná?

A definição das alianças nacionais também terá consequências para os deputados federais do Paraná que assumirão seus mandatos em fevereiro. Embora a eleição para a presidência da Câmara seja uma disputa nacional, a composição dos blocos e a distribuição das comissões influenciam os espaços que poderão ser ocupados por representantes paranaenses. As comissões permanentes analisam propostas antes de sua votação em plenário e podem realizar audiências públicas, convocar autoridades e acompanhar a execução de políticas públicas. A presença de parlamentares do estado em colegiados como a Comissão de Constituição e Justiça, a Comissão de Finanças e Tributação e a Comissão de Agricultura pode ampliar sua participação na análise de projetos de interesse regional. No entanto, o tamanho das bancadas estaduais, isoladamente, não define essa distribuição. Os acordos entre partidos, a proporcionalidade dos blocos e as indicações das lideranças são determinantes para a ocupação dos cargos. Assim, a decisão do PL sobre apoiar ou não Hugo Motta também poderá influenciar os espaços disponíveis aos seus deputados eleitos pelo Paraná.

Reunião de terça-feira pode definir os próximos passos

A reunião da bancada do PL, prevista para esta terça-feira (3), será o próximo momento importante da articulação partidária. Os parlamentares deverão discutir se a legenda apresentará uma candidatura própria à presidência da Câmara, apoiará a recondução de Hugo Motta ou manterá as negociações abertas em busca de um acordo mais amplo. Também estará em discussão a participação do partido na distribuição das comissões e a estratégia para a disputa pelo Senado.

A manifestação de Zé Trovão acrescenta uma dificuldade à negociação conduzida pela direção partidária: mesmo que a cúpula anuncie apoio a Motta, integrantes da bancada poderão apresentar candidaturas independentes. Até o momento, não há acordo definitivo anunciado pelo PL para a eleição da Câmara, nem confirmação de que Zé Trovão efetivamente registrará sua candidatura. O resultado da reunião poderá esclarecer se a legenda pretende utilizar sua bancada de 121 deputados para disputar diretamente a presidência da Casa ou negociar participação na estrutura de comando do Congresso.

 

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