Mortalidade materna segue acima do índice de 2022 e supera em 20% a meta do governo do Paraná
Apesar da redução comemorada pela Secretaria da Saúde na Assembleia Legislativa, indicador de 2026 permanece pior que o registrado há quatro anos; hemorragias e complicações hipertensivas estão entre as principais causas de mortes de gestantes e puérperas
A mortalidade materna no Paraná voltou a cair, mas os números apresentados pelo governo estadual nesta terça-feira (20) revelam que o Estado ainda não conseguiu recuperar os indicadores registrados há quatro anos. A razão de mortalidade materna chegou a 45,1 mortes por 100 mil nascidos vivos em 2026, resultado 20,3% superior à meta de 37,5 estabelecida pela própria Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Apesar da melhora em relação aos últimos anos, o índice permanece acima do registrado em 2022, quando estava em 42 mortes por 100 mil nascidos vivos.
Os dados foram apresentados pelo secretário estadual da Saúde, César Neves, durante audiência pública na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), destinada à prestação de contas do segundo quadrimestre de 2026. A apresentação marcou a última prestação de contas do ciclo de oito anos da gestão Ratinho Junior e foi acompanhada por manifestações de reconhecimento dos parlamentares ao trabalho desenvolvido pela Secretaria.
A redução da mortalidade materna foi apresentada como uma das principais conquistas da administração estadual. Entretanto, a comparação histórica mostra que o Paraná ainda não conseguiu retornar ao patamar de 2022, tampouco alcançar o objetivo estabelecido em seu planejamento de saúde.
"Conseguimos nesse último trimestre a relação de mortes maternas para 100 mil nascidos vivos para 45,1", afirmou César Neves, ao destacar que a redução confirmou a tendência observada na prestação de contas anterior. O secretário reconheceu a gravidade do problema e ressaltou que a redução dos óbitos exige acompanhamento permanente. "Estou falando de perda de mães e perda de crianças", declarou.
A razão de mortalidade materna é um dos principais indicadores utilizados para avaliar as condições de assistência à saúde das mulheres. Ela considera as mortes relacionadas à gravidez ou agravadas por ela, ocorridas durante a gestação ou até 42 dias após seu término, excluídas as causas acidentais ou incidentais. O indicador permite avaliar não apenas a assistência durante o parto, mas também o acompanhamento pré-natal, a identificação de complicações e a capacidade da rede hospitalar de oferecer atendimento oportuno.
Indicador chegou a 61,8 em 2024
A evolução da mortalidade materna no Paraná revela oscilações importantes nos últimos anos. Em 2022, a razão era de 42 mortes por 100 mil nascidos vivos. O índice subiu para 45,7 em 2023 e atingiu 61,8 em 2024, antes de recuar para 48,4 em 2025 e chegar aos atuais 45,1 apresentados pela Secretaria da Saúde.
A comparação mostra que, embora tenha ocorrido uma redução de aproximadamente 27% em relação a 2024, o indicador de 2026 ainda está 7,4% acima daquele registrado em 2022. Os números mais recentes, entretanto, estão sujeitos a atualização, uma vez que o ano ainda não foi encerrado.
Durante a audiência, César Neves afirmou que a reversão da tendência de crescimento exigiu a mobilização das equipes de saúde, das regionais e dos municípios paranaenses.
"Nós conseguimos, finalmente, estancar aquele viés de subida que nós tínhamos de forma muito preocupante, tanto na mortalidade materna quanto na mortalidade infantil", declarou.
A melhora foi comemorada pela administração estadual, mas os dados evidenciam que a redução precisa ser sustentada para que o Paraná consiga alcançar os parâmetros definidos no Plano Estadual de Saúde.
Hemorragias e hipertensão estão entre as principais causas
Dados epidemiológicos divulgados pela Secretaria da Saúde apontam que hemorragias e transtornos hipertensivos figuram entre as principais causas obstétricas diretas de mortalidade materna no Paraná.
No levantamento referente a 2025, cada um desses grupos respondeu por 26,1% das mortes classificadas como decorrentes de causas obstétricas diretas. Entre as causas indiretas, apareceram doenças dos aparelhos circulatório e respiratório, que podem agravar o quadro clínico das gestantes.
As hemorragias obstétricas representam uma das complicações mais graves da gravidez e do parto, especialmente quando não são identificadas e tratadas rapidamente. Já os transtornos hipertensivos incluem condições como a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia, capazes de provocar complicações severas e colocar em risco a vida da mulher e do bebê.
Parte dessas mortes pode ser evitada por meio do acompanhamento adequado da gestação, da identificação precoce dos fatores de risco e da assistência especializada durante o parto e o período pós-parto.
Os dados reforçam que a redução da mortalidade materna não depende exclusivamente da quantidade de consultas realizadas, mas também da qualidade do atendimento, da disponibilidade de profissionais especializados e da capacidade da rede hospitalar de responder rapidamente às emergências obstétricas.
Cascavel e Foz apresentaram indicadores preocupantes
Um levantamento parcial da Sesa, atualizado em maio de 2026, apontava 18 mortes maternas no Paraná, sobre um total de 42.256 nascidos vivos. Naquele momento, a razão de mortalidade materna era de 42,6 óbitos por 100 mil nascidos vivos. Os dados são anteriores à audiência de outubro e não representam o total acumulado do ano.
Na distribuição regional, Maringá contabilizava quatro mortes maternas, com razão de 127,2 óbitos por 100 mil nascidos vivos. Foz do Iguaçu registrava duas mortes e indicador de 126,8, enquanto a Regional de Cascavel apresentava duas mortes e razão de 77,1. Os resultados estavam acima da média estadual naquele levantamento, mas exigem cautela porque pequenas variações no número de óbitos podem provocar grandes oscilações nas taxas regionais.
A Secretaria da Saúde mantém levantamentos epidemiológicos por município e regional, incluindo atualizações referentes a setembro de 2026. Entretanto, na audiência desta terça-feira, o governo apresentou a razão estadual de 45,1 sem informar o número absoluto de mulheres que morreram no período correspondente. Essa ausência impede identificar, apenas pelos dados apresentados aos deputados, quantas mortes compõem o indicador mais recente e onde elas se concentram.
O detalhamento regional é particularmente importante porque a mortalidade materna não depende exclusivamente do acompanhamento realizado durante a gravidez. A distância até maternidades de referência, a disponibilidade de atendimento especializado e a rapidez no encaminhamento de pacientes com complicações podem influenciar os resultados, especialmente em regiões onde os serviços de maior complexidade estão concentrados em poucos municípios.
Pré-natal supera meta, mas não impede mortes
Entre os resultados positivos apresentados pelo governo está a ampliação do acompanhamento das gestantes. Segundo a Sesa, 89,4% das mulheres grávidas realizaram sete ou mais consultas de pré-natal, superando a meta estadual de 89%. O índice foi destacado pelo secretário César Neves e pela deputada Márcia Huçulak como um avanço da rede de atendimento.
O resultado demonstra a expansão do acompanhamento, mas também expõe uma questão importante: o cumprimento da meta de consultas não foi acompanhado pelo alcance do objetivo de redução da mortalidade materna. Isso porque o número de atendimentos, isoladamente, não permite avaliar se complicações foram identificadas a tempo, se as gestantes conseguiram acesso a especialistas ou se receberam assistência adequada durante o parto e o pós-parto.
Durante a audiência, Márcia Huçulak chamou a atenção para mudanças no perfil das gestações, especialmente o aumento da idade das mulheres que decidem ter filhos. "As mulheres estão optando por ter filhos mais tarde e isso impacta no aumento da gravidez de risco", afirmou a parlamentar.
A deputada também mencionou a resistência à vacinação e alterações no estilo de vida como desafios para os serviços de saúde. Não foram apresentados, entretanto, dados que permitissem dimensionar a influência desses fatores sobre as mortes maternas registradas no Paraná.
Ao comentar os resultados, Márcia lembrou que o Estado enfrentou indicadores muito mais elevados durante a pandemia de Covid-19. "Terminamos a pandemia com um indicador absurdo que atingiu as gestantes de 132 e termina 2026 com 45, uma redução importante", declarou.
A comparação evidencia uma recuperação expressiva em relação ao período de emergência sanitária, mas o patamar excepcional registrado durante a pandemia não elimina a necessidade de avaliar os resultados atuais em relação às metas estaduais e aos indicadores anteriores.
Governo reconhece que mortes podem ser evitadas
Em maio deste ano, durante uma ação voltada à capacitação de profissionais de saúde, a própria Secretaria estadual reconheceu que grande parte das mortes maternas pode ser evitada com diagnóstico oportuno e atendimento adequado. "A maioria das mortes maternas pode ser evitada se houver uma identificação rápida e uma conduta precisa", afirmou César Neves na ocasião, ao defender a qualificação das equipes de hospitais e maternidades.
A declaração ganha relevância diante dos dados sobre as principais causas de mortalidade materna no Estado. A Sesa informou que, em 2025, 80% dos casos classificados como morbidade materna grave, também chamados de near miss materno, estavam associados a síndromes hipertensivas e hemorragias. O termo é utilizado para descrever situações em que a mulher enfrenta complicações potencialmente fatais, mas sobrevive.
A Secretaria também aderiu à Rede Alyne, estratégia nacional do Ministério da Saúde destinada a ampliar e qualificar a assistência durante a gestação, o parto e o puerpério. A iniciativa prevê a integração dos serviços e atenção especial às mulheres em situação de maior vulnerabilidade.
A implementação dessas medidas integra os esforços para reduzir as mortes evitáveis, mas os indicadores apresentados na Alep mostram que o Estado ainda precisa avançar para alcançar os resultados estabelecidos em seu planejamento.
Mortalidade infantil também está acima da meta
A dificuldade para alcançar os indicadores de saúde materno-infantil não se limita às mortes de gestantes e puérperas. Segundo os dados apresentados pela Sesa, a mortalidade infantil chegou a 10 mortes de crianças menores de um ano para cada mil nascidos vivos, diante de uma meta estadual de 9,1.
O resultado está aproximadamente 9,9% acima do objetivo estabelecido para 2026. Assim como na mortalidade materna, o governo destacou a reversão da tendência de crescimento, mas reconheceu a necessidade de manter as ações de prevenção e assistência.
Entre os indicadores positivos, a Secretaria informou que 95,9% dos nascidos vivos realizaram os quatro testes de triagem neonatal, superando a meta de 95%. Os exames permitem identificar precocemente determinadas condições que podem comprometer a saúde e o desenvolvimento das crianças.
A coexistência de avanços na cobertura dos serviços com indicadores de mortalidade ainda superiores às metas reforça a importância de avaliar não apenas a quantidade de procedimentos realizados, mas também os resultados da assistência prestada à população.
Desafio permanece para a próxima gestão
A audiência desta terça-feira foi apresentada por César Neves como a última prestação de contas do ciclo de oito anos da administração Ratinho Junior. O secretário agradeceu às equipes da Sesa, aos municípios e aos parlamentares pelo acompanhamento das políticas públicas durante o período.
A redução da mortalidade materna e infantil foi apontada como uma das conquistas da gestão. Entretanto, a comparação histórica revela que, apesar da recuperação em relação aos piores indicadores, o Paraná ainda não conseguiu alcançar a meta estabelecida para 2026 nem retornar ao patamar de mortalidade materna registrado em 2022.
O cenário também coloca desafios para a próxima administração estadual, que assumirá em janeiro de 2027. Entre eles estão a continuidade das políticas de atenção materno-infantil, a identificação das regiões com maiores riscos e o fortalecimento da assistência especializada às gestantes.
Mais do que manter a trajetória de queda, o desafio será transformar a ampliação do acesso aos serviços de saúde em uma redução sustentada das mortes de mulheres e crianças. Afinal, os próprios dados do governo mostram que, embora os indicadores tenham melhorado, os objetivos de redução da mortalidade materna e infantil continuam sem ser alcançados.
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