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Lula publica mais, Flávio ganha seguidores mais rápido: o que os números revelam sobre a disputa digital no segundo turno

Levantamentos mostram estratégias distintas nas redes sociais após o primeiro turno: presidente amplia frequência de publicações e registra salto nas interações, enquanto senador apresenta crescimento mais acelerado de audiência. Dados, porém, não permitem medir impacto nas urnas.

Ana Zimermann · · 8 min de leitura
Lula publica mais, Flávio ganha seguidores mais rápido: o que os números revelam sobre a disputa digital no segundo turno
— Crédito: Divulgação

A disputa pelo Palácio do Planalto também se intensificou nas telas dos celulares. Na primeira semana após o primeiro turno das eleições de 2026, as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ampliaram a mobilização digital, mas os indicadores disponíveis revelam comportamentos diferentes: enquanto o presidente apostou em um volume maior de publicações e registrou crescimento expressivo nas interações, o senador conquistou novos seguidores em ritmo mais acelerado. Levantamentos divulgados entre 7 e 9 de outubro por empresas especializadas em monitoramento de redes sociais ajudam a dimensionar essa movimentação. Os números mostram, entretanto, que publicar mais, conquistar seguidores e gerar engajamento são resultados distintos — e nenhum deles pode ser automaticamente convertido em intenção de voto.

A Gazeta do Paraná reuniu os dados disponíveis sobre Instagram, Facebook, TikTok, YouTube e X, além de informações sobre a mobilização de influenciadores, parlamentares e grupos de WhatsApp. A análise considera os primeiros dias após a votação de 4 de outubro, respeitando os diferentes períodos de coleta de cada pesquisa.

Lula publicou cerca de cinco vezes mais, mas Flávio teve maior média de interações

Um levantamento da Agência Bites, divulgado pelo Poder360 em 7 de outubro, identificou aproximadamente 70 publicações de Lula e 13 de Flávio Bolsonaro no período analisado após o primeiro turno. Nesse intervalo, os conteúdos do presidente acumularam cerca de 7,2 milhões de interações, contra 5,8 milhões registrados pelo senador. A diferença aparece quando os números são divididos pela quantidade de publicações. Lula alcançou uma média aproximada de 102 mil interações por postagem, enquanto Flávio registrou cerca de 448 mil — aproximadamente 4,4 vezes mais.

O resultado, contudo, não significa necessariamente que o senador tenha alcançado mais pessoas. As interações contabilizam diferentes formas de participação do público, e uma mesma pessoa pode interagir com diversas publicações.Também é importante observar que o levantamento foi divulgado em 7 de outubro e não representa a totalidade das postagens realizadas até o dia 10.

Flávio ganha 1,7 milhão de seguidores; Lula, 958 mil

A diferença no crescimento das audiências também chamou a atenção. Segundo atualização da Agência Bites divulgada pela CNN Brasil em 9 de outubro, Flávio Bolsonaro conquistou aproximadamente 1,74 milhão de novos seguidores entre 4 e 8 de outubro. No mesmo intervalo, Lula registrou crescimento de cerca de 958,4 mil seguidores. Isso significa que o senador incorporou aproximadamente 1,8 vez o número de novos seguidores registrado pelo presidente no período.

O indicador, entretanto, apresenta limitações. O crescimento de seguidores não informa quantas pessoas efetivamente visualizaram as publicações, quantas são eleitores brasileiros ou qual parcela passou a acompanhar os perfis por apoio, curiosidade ou discordância. Além disso, a soma de seguidores em diferentes plataformas não corresponde necessariamente ao número de pessoas únicas, já que um mesmo usuário pode acompanhar o candidato em várias redes.

Engajamento de Lula dispara e vídeo ultrapassa 26 milhões de visualizações

Se Flávio apresentou crescimento mais acelerado no número de seguidores, outro levantamento identificou uma forte expansão das interações com os conteúdos de Lula. Dados do Projeto Brief, divulgados pela Folha de S.Paulo em 9 de outubro, apontaram que o presidente registrou aproximadamente 4,8 milhões de interações em 6 de outubro. No dia seguinte, o número chegou a 9,9 milhões. O crescimento foi superior a 100% em apenas um dia.

Uma das publicações de maior repercussão foi um vídeo gravado pelo próprio presidente, em formato de selfie, convocando apoiadores a participar da campanha e conversar com eleitores. Na coleta divulgada, o conteúdo acumulava aproximadamente 26,9 milhões de visualizações e mais de 3,1 milhões de interações no Instagram. A publicação se distancia do formato tradicional de propaganda eleitoral, utilizando uma linguagem mais direta e pessoal. O desempenho também evidencia a importância do Instagram na comunicação das candidaturas. Segundo o Projeto Brief, a plataforma concentrou 86% das interações contabilizadas para Lula e 94% das registradas para Flávio no levantamento. Esses percentuais representam a distribuição das interações observadas, não a participação de cada rede no eleitorado.

Do primeiro ao segundo turno: o que mudou na comunicação

Além dos indicadores quantitativos, as publicações e iniciativas documentadas nos primeiros dias após a votação mostram adaptações na comunicação dos candidatos. Na campanha de Lula, ganharam espaço conteúdos de convocação direta dos apoiadores, incentivo à participação nas ruas e questionamentos sobre as consequências de propostas econômicas defendidas pelo adversário. O vídeo gravado pelo presidente com a câmera frontal do celular é um exemplo dessa comunicação mais pessoal, que busca estimular a participação do público além das plataformas digitais.

Na campanha de Flávio Bolsonaro, destacaram-se a mobilização de apoiadores e as respostas a acusações relacionadas às propostas econômicas da candidatura. Em transmissão realizada em 8 de outubro, o senador afirmou ser alvo de montagens e informações falsas e incentivou seguidores a acompanhar seu canal no WhatsApp. A campanha também passou a divulgar esclarecimentos sobre programas como Bolsa Família, Pé-de-Meia e Farmácia Popular, diante de questionamentos sobre possíveis mudanças nessas políticas.

Esses episódios indicam alterações de ênfase e formato, mas ainda não permitem afirmar qual proporção de todas as publicações foi dedicada a cada tema. Para isso, seria necessária uma classificação individual dos conteúdos publicados pelas duas candidaturas.

Influenciadores e parlamentares ampliam a disputa para além dos perfis oficiais

A movimentação digital do segundo turno não ficou restrita às contas dos candidatos. Parlamentares, influenciadores e comunicadores passaram a ocupar papel relevante na distribuição de conteúdos, mobilização de apoiadores e reação às mensagens adversárias.

Entre os aliados de Lula, o deputado federal André Janones ganhou destaque com a criação do canal denominado "Exército do Lula". Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a audiência do canal cresceu de aproximadamente 50 mil para 3 milhões de seguidores após o primeiro turno. Outros nomes ligados ao campo político do presidente, como Guilherme Boulos, Erika Hilton, Sâmia Bomfim, Tabata Amaral e João Campos, também integram redes de comunicação com audiências expressivas.

No campo político de Flávio Bolsonaro, parlamentares e influenciadores ligados ao PL, entre eles Nikolas Ferreira, compõem uma rede de divulgação com milhões de seguidores. Levantamento da Agência Bites atribuiu ao deputado aproximadamente 52 milhões de seguidores somados em diferentes plataformas. Esses números demonstram o tamanho potencial das audiências, mas não significam que todos os seguidores tenham recebido conteúdos de campanha ou participado ativamente da mobilização eleitoral.

WhatsApp amplia alcance potencial, mas dificulta fiscalização dos números

Uma das características da disputa digital é a importância dos aplicativos de mensagens, especialmente o WhatsApp. Diferentemente das redes sociais abertas, nas quais curtidas, comentários e visualizações podem ser consultados publicamente em parte das publicações, as conversas privadas não permitem monitoramento completo da circulação de mensagens. Por isso, o crescimento de canais ligados às campanhas não pode ser confundido com a quantidade de conteúdos efetivamente compartilhados entre usuários. Também não é possível determinar, apenas com os dados públicos disponíveis, quantas mensagens alcançaram eleitores indecisos ou provocaram mudanças de opinião. A dificuldade de mensuração exige cautela diante de afirmações sobre o suposto domínio de uma candidatura nos aplicativos de mensagens.

Mais seguidores significam mais votos?

A resposta é: não necessariamente. Embora as redes sociais tenham se consolidado como instrumentos importantes da comunicação eleitoral, indicadores digitais não substituem pesquisas de intenção de voto nem demonstram, isoladamente, mudanças no comportamento do eleitorado.

Um vídeo pode alcançar milhões de visualizações porque foi assistido repetidamente, compartilhado por apoiadores ou difundido entre pessoas que discordam de seu conteúdo. Da mesma forma, uma publicação com muitas interações pode alcançar um público concentrado entre eleitores que já apoiavam determinada candidatura. A quantidade de seguidores também não equivale ao número de eleitores, especialmente quando são somadas as audiências de diferentes plataformas. Portanto, os levantamentos disponíveis permitem avaliar aspectos da circulação e da repercussão das mensagens, mas não estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre desempenho digital e resultado eleitoral.

O que os dados da primeira semana efetivamente mostram

Os levantamentos consultados apontam três movimentos: Lula apresentou maior frequência de publicações no recorte inicial monitorado pela Bites; Flávio Bolsonaro registrou crescimento mais acelerado de seguidores entre 4 e 8 de outubro; e o presidente alcançou uma expansão expressiva nas interações diárias identificadas pelo Projeto Brief em 6 e 7 de outubro. As diferenças não representam necessariamente contradições entre as pesquisas. Cada levantamento utiliza períodos, plataformas e indicadores específicos.

A análise também tem uma limitação temporal: os dados públicos identificados não oferecem uma contagem integral de todas as publicações, visualizações e compartilhamentos realizados entre 5 e 10 de outubro. Assim, não é possível estabelecer, com rigor, o desempenho acumulado de cada candidatura durante todos os seis dias.

O que já se pode observar é que a disputa presidencial avançou para além dos perfis oficiais, envolvendo redes de parlamentares, influenciadores e canais de mensagens. A intensidade dessa mobilização é mensurável em parte. Seu impacto efetivo sobre a decisão dos eleitores, entretanto, permanece uma questão que os números das plataformas, sozinhos, não conseguem responder.

 

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