Estados do Sul contratam estudo para mudar concessão da Malha Sul
PR, SC e RS querem apresentar alternativa ao modelo do governo federal, que prevê dividir a ferrovia em três corredores
Os estados do Sul decidiram contratar um estudo técnico próprio para apresentar uma alternativa ao modelo proposto pelo governo federal para a nova concessão da Malha Sul. O trabalho será conduzido pelo Codesul, em parceria com o BRDE, e pretende avaliar uma estrutura diferente para a ferrovia.
A proposta da União divide a Malha Sul em três corredores: Paraná-Santa Catarina, Mercosul e Rio Grande. O modelo está em discussão na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Os governos estaduais defendem uma análise mais ampla da infraestrutura e querem avaliar a possibilidade de integração da malha.
O estudo contratado pelo BRDE terá até dez meses para ser concluído. A expectativa é que um primeiro diagnóstico sobre a infraestrutura e a demanda dos setores produtivos seja apresentado ainda neste ano.
O que os estados querem avaliar
A análise deverá considerar a demanda potencial da ferrovia a partir da matriz produtiva dos estados. O levantamento também poderá incluir trechos que não aparecem na proposta federal por não terem atualmente oferta de transporte ferroviário.
A avaliação dos governos estaduais é que esses segmentos podem apresentar demanda no futuro por causa de projetos previstos para a região.
O trabalho também vai estudar a estrutura financeira da futura concessão. Entre os pontos estão diferentes mecanismos de financiamento e a possibilidade de participação dos estados.
Outro objetivo será comparar modelos para a organização da malha. A concessão integrada é uma das possibilidades que deverão ser analisadas.
Os aspectos jurídicos e regulatórios também estarão no estudo. A intenção dos estados é produzir informações técnicas que possam sustentar alterações na modelagem apresentada pelo governo federal.
Estados já haviam contestado proposta
A contratação ocorre depois de uma série de manifestações contrárias ao modelo federal. Em julho, o Codesul reafirmou sua posição contra a divisão da Malha Sul em três corredores independentes e defendeu uma alternativa para a concessão.
Em maio, os governadores Ratinho Junior (PR), Jorginho Mello (SC), Eduardo Leite (RS) e Eduardo Riedel (MS) haviam encaminhado ao Ministério dos Transportes uma contestação ao projeto.
Os estados apontaram falta de diálogo na construção da proposta e questionaram se o formato dos futuros leilões seria suficiente para recuperar o transporte ferroviário na região. A possibilidade de fragmentação da malha também foi alvo de críticas.
Durante as audiências públicas realizadas pela ANTT em julho, representantes dos estados voltaram a pedir mais tempo para discutir a concessão e apresentar alternativas ao modelo.
Leilão segue sem definição
A discussão acontece enquanto o governo federal estrutura a nova concessão da Malha Sul. A ANTT abriu em junho a audiência pública para os três corredores, que somam cerca de 4,25 mil quilômetros de ferrovia.
O cronograma da concessão, porém, avançou mais lentamente do que o previsto. O processo chegou a ser projetado para um leilão ainda em 2026, mas as discussões sobre a modelagem aumentaram a incerteza sobre a data.
O contrato atual tem término previsto para 2027. A Rumo é responsável pela operação da Malha Sul desde a concessão da antiga rede ferroviária.
A ANTT recebeu contribuições para a nova concessão até 30 de setembro. O processo prevê os corredores Mercosul, Rio Grande e Paraná-Santa Catarina.
A resistência dos estados faz parte de uma discussão mais ampla sobre concessões de infraestrutura na região. Santa Catarina também enfrenta questionamentos sobre a concessão de rodovias estaduais. No Rio Grande do Sul, um bloco de rodovias não chegou a ser levado a leilão após pressão de parlamentares. No Paraná, o modelo de concessão das Rodovias Integradas do Paraná também enfrentou resistência durante sua discussão, em 2023.
Para Leonardo Bruno Pereira de Moraes, doutor em Direito do Estado pela USP e sócio do escritório Bornhausen & Zimmer Advogados, a divisão da ferrovia pode trazer ganhos caso exista integração entre os corredores.
Segundo ele, esse formato pode melhorar a distribuição de riscos, ampliar a concorrência e facilitar a análise da viabilidade econômica de cada projeto, desde que os corredores funcionem de maneira integrada.
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