Flávio Bolsonaro teria participado de festa com prostitutas organizada por empresários da Covaxin durante a pandemia
Reportagem da revista piauí relata encontro em lancha, em Brasília, com empresários ligados a contrato de R$ 1,6 bilhão; documentos oficiais da CPI da Covid, da CGU e do TCU revelam irregularidades na negociação da vacina, mas não comprovam participação do senador nas fraudes
Uma reportagem publicada pela revista piauí em 21 de outubro de 2026 trouxe novas informações sobre a relação do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) com empresários envolvidos na negociação da vacina Covaxin durante o governo de Jair Bolsonaro. Segundo a publicação, o parlamentar teria participado, em julho de 2020, de uma festa em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, organizada por representantes da Precisa Medicamentos, empresa que, meses depois, intermediaria um contrato de aproximadamente R$ 1,6 bilhão com o Ministério da Saúde. O encontro teria reunido os empresários Francisco Maximiano e Danilo Berndt Trento, além de três garotas de programa levadas de São Paulo para Brasília. Conforme a investigação jornalística, Flávio compareceu acompanhado de Alexandre Santini, então seu amigo e sócio, e teria recebido de Trento um relógio Rolex de luxo ao final do passeio. A reportagem também afirma que o senador teria descido à cabine da embarcação acompanhado de uma das mulheres. O episódio ganhou repercussão nesta quinta-feira (22) por envolver empresários que, posteriormente, seriam investigados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia e por órgãos de controle. A Folha de S.Paulo também repercutiu as revelações, destacando a suposta aproximação entre os empresários e o filho do então presidente da República.
Negociação da Covaxin começou ainda em 2020
A cronologia dos documentos oficiais é um dos pontos relevantes do caso. Segundo relatório da Controladoria-Geral da União (CGU), as tratativas para aquisição da Covaxin começaram no fim de 2020 e resultaram na assinatura do Contrato nº 29/2021, em 25 de fevereiro de 2021. O governo federal contratou 20 milhões de doses da vacina desenvolvida pela farmacêutica indiana Bharat Biotech, por aproximadamente R$ 1,614 bilhão, ao preço de US$ 15 por dose. A Precisa Medicamentos atuou como representante da fabricante nas negociações com o Ministério da Saúde.
O relatório da CGU identificou problemas nos documentos apresentados para a contratação, incluindo documento considerado forjado, outros com montagens e uma tradução indevida. A própria fabricante indiana reconheceu a falsidade de um dos documentos, conforme registrado pela Controladoria. Essas irregularidades dizem respeito à atuação das empresas no procedimento de contratação. O documento consultado não demonstra que Flávio Bolsonaro tenha participado da elaboração dos documentos ou das irregularidades identificadas.
CPI da Covid investigou empresários e citou Flávio Bolsonaro
Em 2021, a CPI da Pandemia do Senado investigou as circunstâncias da contratação da Covaxin, incluindo o preço do imunizante, a documentação apresentada ao Ministério da Saúde e a atuação dos representantes da Precisa Medicamentos. O relatório final, aprovado em 26 de outubro de 2021, recomendou o indiciamento de Francisco Maximiano por suspeitas relacionadas a falsidade ideológica, uso de documento falso e fraude contratual. Danilo Trento também apareceu entre os empresários cujo indiciamento foi recomendado, por suspeita de fraude em contrato. Flávio Bolsonaro também constou do relatório, mas por uma imputação diferente: a CPI recomendou seu indiciamento por incitação ao crime, no contexto de manifestações relacionadas à pandemia. Isso não equivale a um indiciamento do senador por fraude na compra da Covaxin nem representa condenação judicial.
Durante os trabalhos da comissão, Flávio se manifestou em defesa da Precisa Medicamentos e elogiou a atuação de Emanuela Medrades, diretora executiva da companhia, conforme registros e reportagens sobre as sessões da CPI.
Tribunal de Contas identificou tratamento privilegiado na contratação
A análise do caso também avançou no Tribunal de Contas da União (TCU). No Acórdão 1.179/2025, o plenário examinou irregularidades na compra da Covaxin e apontou tratamento privilegiado na contratação do imunizante. Entre os problemas identificados estavam a rapidez das negociações, a tramitação de documentos classificados como urgentes e a tentativa de ampliar a contratação antes mesmo da entrega do primeiro lote. O tribunal também examinou a aceitação de uma fatura que indicava como beneficiária de pagamentos a empresa Madison Biotech, que não integrava originalmente a relação contratual com o Ministério da Saúde. O TCU considerou que o procedimento de aceitação dessa documentação apresentava irregularidades e indícios de fraude. A decisão integra as apurações oficiais sobre a negociação da vacina, mas não estabelece ligação direta entre Flávio Bolsonaro e as irregularidades contratuais.
CGU aplicou multa à Precisa Medicamentos
A responsabilização administrativa da empresa também resultou em sanções. Documentos da CGU registram multa de R$ 3.879.251,35 à Precisa Medicamentos, posteriormente denominada OVS Importadora de Medicamentos. O processo administrativo de responsabilização nº 00190.107232/2021-31 examinou a apresentação de documentos inidôneos, incluindo uma procuração considerada falsa, no procedimento de contratação da vacina. A conclusão administrativa reforça que houve irregularidades documentais efetivamente apuradas pelo poder público. Entretanto, não comprova que o suposto encontro na lancha tenha sido utilizado para negociar vantagens ilícitas ou que o senador tenha recebido valores provenientes do contrato.
Relação com empresário teria continuado após a festa
Outro ponto da reportagem da piauí envolve a suposta atuação de Flávio Bolsonaro para facilitar o acesso de Francisco Maximiano a autoridades federais. Segundo a revista, em outubro de 2020, aproximadamente três meses depois do encontro na lancha, o senador teria contribuído para viabilizar uma reunião entre Maximiano e Gustavo Montezano, então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O encontro teria como objetivo discutir financiamento para um empreendimento no setor de telecomunicações, e não diretamente a compra da Covaxin. A informação, caso confirmada por registros oficiais da reunião, acrescentaria um elemento à cronologia dos contatos entre o parlamentar e o empresário. A ocorrência de uma reunião, por si só, não constitui irregularidade. À época da divulgação de informações sobre sua relação com Maximiano, Flávio declarou que não mantinha vínculos comerciais ou financeiros com o empresário.
O que permanece sem comprovação
A investigação jornalística divulgada nesta semana reúne relatos sobre a suposta festa e sua organização, mas há diferenças importantes entre as informações publicadas e as conclusões dos órgãos oficiais. A documentação examinada confirma a existência do contrato da Covaxin, a participação dos empresários nas negociações e a identificação de irregularidades pelas autoridades brasileiras. Já a presença das garotas de programa, a suposta entrega do Rolex e os detalhes da participação do senador no passeio são informações atribuídas à revista piauí. Não foram localizadas, nesta apuração, decisões judiciais ou conclusões oficiais que confirmem esses episódios ou demonstrem que os acontecimentos tenham resultado em favorecimento contratual. Também não há comprovação, nos documentos oficiais examinados, de que Flávio Bolsonaro tenha recebido pagamentos relacionados à negociação da Covaxin. O contrato de aproximadamente R$ 1,6 bilhão não deve ser confundido com dinheiro efetivamente desembolsado. A aquisição foi cancelada, sem pagamento pelas doses contratadas, conforme a documentação administrativa e os registros do caso.
Candidato não comentou as novas acusações
Até a repercussão da reportagem nesta quinta-feira (22), Flávio Bolsonaro não havia apresentado manifestação pública específica sobre o episódio relatado pela revista piauí. Segundo informações divulgadas pelo UOL, integrantes da campanha questionaram a existência de provas e adotaram a posição de não comentar a publicação. Francisco Maximiano e Danilo Trento também não haviam se manifestado sobre as novas revelações até o fechamento das reportagens consultadas.
O caso volta ao debate público na reta final do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, ao relacionar episódios narrados pela imprensa com uma contratação pública cuja tramitação já havia sido objeto de investigações oficiais. A existência de irregularidades na compra da Covaxin está documentada. A eventual relação entre essas irregularidades, o encontro relatado pela revista e a atuação pessoal de Flávio Bolsonaro, entretanto, depende de comprovação adicional.
Matérias relacionadas
Sob gestão de Roni Miranda, Seed já sabia de câmeras em banheiros antes do caso de Cambé
Ministro do TCU diz que Brasil pode não ter dinheiro para aposentadorias
Meio ambiente: veja o que Lula e Flávio Bolsonaro prometem e o que já existe
Lula e Flávio acertam quebra de sigilos; entenda o caso e veja a cronologia
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.