Globo descarta checagem ao vivo na tv, mas agências anunciam força-tarefa para debate entre Lula e Flávio
Verificações serão realizadas pelo G1, Folha, Agência Lupa e entidades jornalísticas durante o confronto desta sexta-feira; mobilização por correções na transmissão já ultrapassa 1,1 milhão de assinaturas
A TV Globo não fará checagem de fatos diretamente na transmissão televisiva do debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), marcado para esta sexta-feira (23), dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais. A decisão foi divulgada na tarde desta quinta-feira (22), após a pressão da campanha petista e uma mobilização pública que reuniu mais de um milhão de assinaturas. Apesar disso, diferentes organizações jornalísticas confirmaram operações de verificação em tempo real, que permitirão aos eleitores acompanhar análises das declarações dos dois candidatos em plataformas digitais.
A definição da emissora representa uma atualização em relação ao cenário apresentado pela Gazeta do Paraná na manhã desta quinta-feira, quando ainda não havia confirmação sobre a incorporação de mecanismos de checagem ao debate. Agora, a Globo informou que as verificações serão realizadas pelo projeto Fato ou Fake, do portal g1, em parceria com os jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, além da Rádio CBN. Segundo informações divulgadas no início da tarde, o trabalho começará durante o confronto e continuará pela madrugada. As correções, portanto, estarão disponíveis ao público na internet, mas não serão incorporadas à transmissão da TV aberta como intervenções para contestar as declarações dos candidatos.
Folha e Agência Lupa mobilizam 20 profissionais
Outra novidade anunciada nesta quinta-feira é uma operação conjunta entre a Folha de S.Paulo e a Agência Lupa para acompanhar o debate presidencial. A iniciativa contará com 20 jornalistas e especialistas responsáveis por analisar informações apresentadas pelos dois candidatos. As declarações selecionadas receberão classificações como: verdadeiras, falsas, exageradas ou carentes de contexto. Cada resultado será acompanhado por uma explicação resumida e referência à apuração detalhada. A parceria também prevê cinco transmissões ao vivo no Instagram, nos perfis da Folha e da Agência Lupa. Durante os intervalos do debate, jornalistas apresentarão as principais verificações realizadas até aquele momento. A última transmissão será dedicada a um balanço do confronto. As campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro foram informadas sobre a iniciativa e poderão encaminhar ponderações às equipes de checagem.
Entidades jornalísticas terão transmissão independente
Uma terceira frente de verificação será organizada por entidades ligadas ao jornalismo, à pesquisa acadêmica e ao enfrentamento da desinformação. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD), a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) estão entre as instituições participantes. A mobilização também contará com a AletheiaFact.org, a Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (Alcar), a Socicom, a COAR Notícias e o Coletivo Bereia.
Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil nesta quinta-feira, os profissionais trabalharão em uma sala virtual de checagem para analisar as afirmações feitas durante o confronto. Os resultados serão transmitidos ao vivo nos canais da Fenaj e da RNCD no YouTube, independentemente da programação da Globo. A iniciativa pretende aproximar a divulgação das verificações do momento em que as declarações chegam aos eleitores, sem depender de uma alteração no formato do debate televisivo.
Mobilização supera 1,1 milhão de assinaturas
A discussão sobre a checagem ganhou força depois do debate promovido pela Band, no domingo (18), quando Lula e Flávio trocaram acusações e apresentaram uma série de dados que, posteriormente, foram contestados por organizações jornalísticas. As verificações abrangeram declarações de ambos os presidenciáveis, com diferentes graus de imprecisão ou ausência de contexto. A repercussão provocou uma mobilização nas redes sociais. Um abaixo-assinado ultrapassou 1,1 milhão de assinaturas até o início da tarde desta quinta-feira.
Outra petição, organizada por professores, alunos e ex-alunos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), reuniu mais de 12,5 mil assinaturas. O documento defende que candidatos sejam advertidos pela mediação quando apresentarem informações comprovadamente falsas e que possam perder tempo de fala em caso de reincidência. Nenhuma dessas propostas de intervenção foi incorporada à transmissão televisiva anunciada pela Globo.
Checagens anteriores da Gazeta identificaram problemas nas falas dos dois candidatos
Na reportagem publicada pela manhã, a Gazeta do Paraná mostrou que o histórico de verificações da campanha inclui declarações sem comprovação suficiente de ambos os candidatos. Entre os episódios examinados estão: acusações feitas por Lula envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, além de afirmações do senador sobre supostos repasses financeiros ligados ao presidente. As verificações também identificaram problemas na utilização de indicadores econômicos e informações apresentadas sem o contexto necessário.
O trabalho realizado por diferentes veículos reforça a necessidade de aplicar os mesmos critérios jornalísticos aos dois candidatos, sem presumir a veracidade das declarações em razão de sua origem política. Também é importante distinguir afirmações comprovadamente falsas daquelas que permanecem sem comprovação. A ausência de evidências suficientes para confirmar uma denúncia não significa, necessariamente, que ela tenha sido demonstrada como falsa.
Eleitores terão diferentes canais para acompanhar as verificações
A existência dessas diferentes frentes não significa que todas as declarações serão verificadas no instante em que forem pronunciadas. Informações que dependam de documentos adicionais, cruzamento de dados ou esclarecimentos das campanhas poderão ser analisadas e publicadas posteriormente. O cenário, porém, já está definido em seu principal aspecto: a Globo manterá a checagem fora da transmissão televisiva, enquanto organizações independentes e veículos jornalísticos ampliarão o acompanhamento das afirmações feitas pelos presidenciáveis.
O último debate antes da votação de domingo (25) será, assim, acompanhado por uma operação de verificação que se estenderá além do estúdio e da transmissão da emissora, permitindo que os eleitores confrontem parte das declarações dos candidatos com dados oficiais antes de comparecer às urnas.
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