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Falta de saneamento custa caro à saúde: expansão do esgoto pode ter evitado 4 mil internações no Paraná

Estudo do Ipardes estima que ampliação da rede de coleta desde 2019 reduziu hospitalizações por doenças associadas ao saneamento inadequado e gerou economia de R$ 4,79 milhões em despesas hospitalares

Gazeta do Paraná · · 5 min de leitura
Suspenso pregão  limpeza de tratamento de esgoto
Suspenso pregão limpeza de tratamento de esgoto — Crédito: Divulgação

A ampliação da rede de coleta de esgoto no Paraná pode ter evitado 3.988 internações hospitalares por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado desde 2019. A estimativa faz parte de um estudo do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), que também calculou uma economia de aproximadamente R$ 4,79 milhões em despesas hospitalares diretas no período.

O levantamento relaciona a expansão da infraestrutura de esgotamento sanitário à redução de hospitalizações provocadas por enfermidades como diarreia, hepatite A e leptospirose. Essas doenças estão associadas, entre outros fatores, ao contato com água ou ambientes contaminados.

Segundo o Ipardes, uma ampliação de um ponto percentual na cobertura da rede de esgoto pode evitar aproximadamente 476 internações. O resultado é uma estimativa estatística e não significa que tenha sido possível identificar individualmente os pacientes que deixaram de ser hospitalizados.

Os números mostram que os investimentos em saneamento produzem efeitos que vão além do abastecimento de água e da destinação adequada dos resíduos. A melhoria da infraestrutura também pode reduzir a pressão sobre hospitais, liberar recursos da saúde pública e diminuir afastamentos do trabalho.

 

Cobertura avançou oito pontos percentuais

Nas cidades atendidas pela Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), o índice de atendimento com rede coletora de esgoto passou de 74,22%, em dezembro de 2019, para 82,6%, conforme os dados apresentados no estudo divulgado em maio de 2026.

O avanço foi de aproximadamente 8,4 pontos percentuais. Ainda assim, os indicadores demonstram que parte da população continua sem acesso à rede coletora.

A Sanepar é responsável pelos serviços de saneamento em 344 dos 399 municípios paranaenses. Segundo a companhia, todo o esgoto coletado em sua área de atuação recebe tratamento dentro dos parâmetros ambientais aplicáveis.

A meta da empresa é alcançar 90% de cobertura da coleta de esgoto até 2029, antecipando o prazo nacional estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento, que prevê a universalização até 2033.

A existência de tratamento para todo o esgoto coletado, entretanto, não significa que todos os imóveis estejam conectados à rede. A ampliação do atendimento depende de obras de infraestrutura e das ligações dos imóveis aos sistemas disponíveis.

 

Doenças atingem principalmente populações vulneráveis

A falta de coleta e tratamento adequado de esgoto aumenta a exposição da população a agentes causadores de doenças.

Entre as enfermidades consideradas nos estudos sobre saneamento ambiental inadequado estão infecções intestinais, hepatite A e leptospirose. A transmissão ocorre por diferentes mecanismos, incluindo ingestão de água ou alimentos contaminados e contato com ambientes expostos a agentes infecciosos.

Crianças, idosos e pessoas com condições de saúde que aumentam a vulnerabilidade a infecções podem sofrer consequências mais graves.

Além dos riscos individuais, essas doenças representam custos para o sistema de saúde, com atendimentos de urgência, internações, exames e tratamentos.

Por isso, a expansão da infraestrutura de saneamento é considerada uma medida de prevenção em saúde pública, capaz de reduzir a exposição a determinados fatores de risco antes que o atendimento hospitalar seja necessário.

 

Economia vai além dos hospitais

O Ipardes estimou que a ampliação da rede de esgoto gerou uma economia de R$ 4,79 milhões em despesas hospitalares diretas nos últimos anos.

O estudo também relacionou a redução das doenças associadas ao saneamento inadequado a ganhos econômicos decorrentes de menos afastamentos do trabalho.

Segundo o instituto, a diminuição das perdas de produtividade pode representar um impacto positivo estimado em R$ 2,68 milhões para a economia paranaense.

Os valores são projeções produzidas a partir do modelo utilizado pelos pesquisadores. Não correspondem necessariamente a recursos que tenham sido retirados dos orçamentos públicos ou transferidos para outras despesas.

O resultado indica, contudo, que os benefícios potenciais dos investimentos em saneamento podem alcançar diferentes áreas, como saúde, trabalho e desenvolvimento econômico.

 

Almirante Tamandaré ilustra expansão da rede

Um dos municípios destacados no levantamento é Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba.

A cobertura de coleta e tratamento de esgoto na cidade passou de 41%, em janeiro de 2019, para 71%, segundo os dados apresentados pela Sanepar em maio de 2026.

Entre 2019 e 2025, a companhia investiu aproximadamente R$ 77 milhões no município. Desse total, cerca de R$ 47 milhões foram destinados ao sistema de esgotamento sanitário e R$ 29 milhões ao abastecimento de água.

A ampliação da rede contribuiu para reduzir a exposição de moradores a esgoto a céu aberto, mau cheiro e condições favoráveis à presença de insetos e roedores.

O exemplo demonstra como as obras podem alterar as condições sanitárias dos bairros, embora os resultados locais não possam ser automaticamente generalizados para todos os municípios paranaenses.

 

Desafio é alcançar quem ainda está fora da rede

O Paraná apresenta indicadores de cobertura de esgoto superiores à média nacional, mas ainda enfrenta o desafio de ampliar o atendimento, especialmente em áreas que dependem de novos investimentos.

A expansão exige planejamento, execução de obras e conexão efetiva das residências à infraestrutura instalada.

O estudo do Ipardes reforça que a avaliação desses investimentos não deve considerar apenas o custo das obras. Também é necessário observar os possíveis benefícios para a saúde, a produtividade e a qualidade de vida da população.

Ao estimar quase quatro mil internações evitadas, o levantamento dimensiona uma consequência frequentemente menos visível da falta de saneamento: a pressão adicional sobre os serviços de saúde.

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