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Eleições nos EUA podem limitar poder de Trump e mudar relações comerciais com o Brasil e o mundo

Americanos vão às urnas nesta terça-feira (3) para renovar o Congresso; resultado por fortalecer ou enfraquecer o governo republicano e influenciar tarifas de importação, investimentos, dólar e comércio internacional

Ana Zimermann · · 12 min de leitura
Congresso dos Estados Unidos, em Washington, nesta segunda-feira (2), véspera das eleições que definirão o controle da Câmara dos Representantes e do Senado durante os dois últimos anos do mandato de Donald Trump.
Congresso dos Estados Unidos, em Washington, nesta segunda-feira (2), véspera das eleições que definirão o controle da Câmara dos Representantes e do Senado durante os dois últimos anos do mandato de Donald Trump. — Crédito: J. Scott Applewhite/Associated Press (AP)

Os Estados Unidos realizam, nesta terça-feira (3), uma eleição que pode redefinir o equilíbrio de poder em Washington e produzir consequências econômicas muito além das fronteiras americanas. Embora o presidente Donald Trump não esteja na disputa, o resultado das chamadas midterm elections, as eleições de meio de mandato, determinará se o republicano continuará governando com o apoio da maioria do Congresso ou se terá de enfrentar uma oposição com maior capacidade de bloquear propostas, investigar decisões do Executivo e influenciar os rumos da política econômica. A votação ocorre na metade do segundo mandato de Trump e em meio a debates sobre o custo de vida, as tarifas de importação, a imigração e a atuação internacional dos Estados Unidos. Os republicanos tentam preservar o controle das duas casas legislativas, enquanto os democratas buscam recuperar espaço e impor limites à agenda presidencial.

A disputa interessa diretamente a países como: Brasil, China, México, Canadá e aos integrantes da União Europeia, que mantêm relações comerciais estratégicas com os Estados Unidos. Uma mudança no Congresso pode alterar as condições políticas para negociações tarifárias, acordos comerciais, investimentos e decisões sobre gastos públicos, com reflexos potenciais sobre o dólar e os preços de produtos comercializados internacionalmente. A Câmara dos Representantes é considerada particularmente vulnerável a uma mudança de maioria, enquanto o controle do Senado depende de disputas competitivas em diferentes estados.

Como funcionam as eleições americanas?

Diferentemente do Brasil, onde as eleições gerais são realizadas a cada quatro anos, os Estados Unidos renovam parte de seu Congresso a cada dois anos. Quando a votação acontece na metade do mandato presidencial, recebe o nome de eleição de meio de mandato. O Congresso americano é dividido em duas casas: a Câmara dos Representantes, equivalente à Câmara dos Deputados brasileira, e o Senado. Nesta terça-feira, estarão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara e 35 das 100 vagas do Senado, sendo 33 eleições regulares e duas especiais.

Na Câmara, os parlamentares cumprem mandatos de dois anos. Cada um representa um distrito eleitoral, cuja população influencia a distribuição das cadeiras entre os estados. No Senado, cada estado possui dois representantes, independentemente do número de habitantes. Os senadores exercem mandatos de seis anos, mas as eleições são escalonadas, de maneira que aproximadamente um terço das cadeiras seja renovado a cada dois anos. Os eleitores também escolherão governadores, legisladores estaduais e autoridades locais em diferentes regiões do país. Os novos integrantes do Congresso assumirão em 3 de janeiro de 2027.

O processo eleitoral também apresenta diferenças importantes em relação ao brasileiro. Nos Estados Unidos, não existe uma autoridade federal única equivalente ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) responsável pela administração de todas as eleições. A organização da votação cabe principalmente aos estados e às autoridades locais, que estabelecem regras sobre registro de eleitores, votação antecipada, voto pelo correio e apuração. Na maior parte das disputas legislativas, vence o candidato que recebe mais votos, sem necessidade de segundo turno. Há, porém, exceções previstas nas legislações estaduais. A descentralização significa que os resultados podem ser divulgados em momentos diferentes. Em disputas apertadas, a contagem dos votos enviados pelo correio e eventuais questionamentos judiciais podem prolongar a definição dos vencedores.

O que Donald Trump pode ganhar ou perder?

O Partido Republicano chega às eleições controlando a Câmara e o Senado. Essa maioria oferece ao presidente uma vantagem importante para negociar projetos, aprovar medidas fiscais e sustentar parte de sua agenda política. Caso os republicanos mantenham o controle das duas casas, Trump poderá continuar contando com uma estrutura legislativa relativamente favorável durante os dois últimos anos de seu mandato. A manutenção da maioria também fortaleceria politicamente seus aliados, inclusive aqueles que pretendem disputar a sucessão presidencial em 2028. Uma vitória democrata, entretanto, mudaria esse cenário.

Se conquistar a Câmara dos Representantes, a oposição poderá ampliar investigações sobre o governo, convocar autoridades para prestar esclarecimentos e exercer maior influência sobre a aprovação de despesas públicas. O controle do Senado teria consequências adicionais, especialmente porque a Casa é responsável por confirmar nomeações presidenciais para cargos importantes, incluindo integrantes do governo e juízes federais. Isso não significa, porém, que Trump perderia automaticamente o poder ou ficaria impedido de governar. O presidente americano possui competências próprias e pode adotar determinadas medidas administrativas sem depender de uma nova lei do Congresso.

Além disso, projetos aprovados pelos parlamentares podem ser vetados pelo presidente. Para derrubar um veto, são necessários votos de dois terços em cada casa legislativa, uma exigência que torna difícil a reversão de medidas presidenciais sem amplo apoio político. O resultado, portanto, determinará principalmente a capacidade de negociação e fiscalização entre os poderes. Para os republicanos, a eleição é uma oportunidade de demonstrar apoio à continuidade do governo. Para os democratas, representa a possibilidade de transformar o Congresso em um contrapeso mais efetivo à Casa Branca.

Tarifas comerciais estão entre os principais pontos de disputa

Um dos temas com maior repercussão internacional é a política comercial de Donald Trump. O presidente tem utilizado tarifas sobre produtos importados como instrumento de proteção à indústria americana e de pressão nas negociações com outros países. Essas tarifas são impostos cobrados na entrada de mercadorias estrangeiras nos Estados Unidos. Embora sejam pagas inicialmente pelos importadores americanos, seus custos podem ser repassados a empresas e consumidores, afetando preços, cadeias produtivas e decisões de investimento. A possibilidade de mudança na composição do Congresso levanta dúvidas sobre a continuidade dessa estratégia. Uma reportagem da Reuters publicada no domingo (1º) aponta que uma eventual vitória democrata poderia aumentar a fiscalização das medidas comerciais e estimular propostas para revogar determinadas tarifas. Entretanto, especialistas ouvidos pela agência ressaltam que a oposição enfrentaria obstáculos jurídicos e políticos, especialmente o poder de veto presidencial. 

Em outras palavras, uma vitória democrata não representaria necessariamente o fim das tarifas. O Congresso pode pressionar o governo, exigir explicações, propor mudanças legislativas e interferir em aspectos da política comercial. Mas o presidente continua dispondo de instrumentos legais que permitem a adoção de determinadas restrições às importações. O efeito econômico das eleições dependerá, portanto, não apenas do partido vencedor, mas também das decisões efetivamente tomadas nos meses seguintes.

Brasil pode enfrentar mudanças nas negociações comerciais

Para o Brasil, o resultado americano tem importância especial porque os Estados Unidos estão entre os principais destinos das exportações brasileiras e representam um mercado estratégico para produtos industrializados. Setores como siderurgia, máquinas, equipamentos, produtos químicos e segmentos do agronegócio acompanham as decisões comerciais de Washington, uma vez que tarifas adicionais podem reduzir a competitividade das mercadorias brasileiras. O cenário também envolve negociações sobre minerais críticos e terras raras, recursos utilizados na produção de equipamentos eletrônicos, baterias, tecnologias de energia e produtos de defesa.

Em reportagem publicada em outubro, a Reuters destacou que Brasil e Estados Unidos estabeleceram um grupo de trabalho para discutir tarifas e uma estrutura comercial bilateral mais ampla, incluindo o acesso americano a minerais estratégicos brasileiros. A questão ganhou relevância diante da disputa entre Estados Unidos e China pelo controle de cadeias produtivas consideradas essenciais para a economia e a segurança nacional. Para o governo brasileiro, o desafio é preservar mercados de exportação, atrair investimentos e negociar condições comerciais sem comprometer interesses estratégicos nacionais. Uma eventual mudança no Congresso americano poderia criar novas oportunidades de diálogo, mas não garantiria a revisão de tarifas já existentes.

E quais seriam os reflexos para o Paraná?

No Paraná, os possíveis efeitos alcançam especialmente empresas e cooperativas com atividades ligadas ao comércio exterior. A economia estadual reúne setores como agronegócio, indústria de alimentos, papel e celulose, madeira, máquinas e equipamentos, que podem ser afetados direta ou indiretamente por alterações nas condições de comércio internacional. Empresas que exportam para os Estados Unidos podem enfrentar mudanças de competitividade conforme as tarifas aplicadas a seus produtos. Ao mesmo tempo, companhias que dependem de máquinas, componentes e insumos importados podem ser afetadas pelas oscilações do dólar. É importante observar que esses impactos não são automáticos. A intensidade dependerá da exposição de cada setor ao mercado americano, das condições cambiais e das medidas efetivamente adotadas após a eleição.

China, México, Canadá e Europa também acompanham a votação

A eleição americana é observada com atenção por outros grandes parceiros comerciais de Washington. A China ocupa posição central nessa disputa devido às restrições comerciais e tecnológicas impostas pelos Estados Unidos, especialmente em setores ligados a semicondutores, inteligência artificial, equipamentos eletrônicos e minerais estratégicos. Uma mudança no Congresso pode influenciar a fiscalização das medidas adotadas pelo Executivo, mas a competição econômica e tecnológica entre os dois países não depende exclusivamente de Trump. Há posições favoráveis a restrições comerciais à China tanto entre republicanos quanto entre democratas.

No México, a preocupação envolve principalmente a indústria automobilística e as cadeias produtivas integradas ao mercado americano. Veículos e componentes podem atravessar as fronteiras diversas vezes durante o processo de fabricação, tornando as regras comerciais especialmente importantes. 

O Canadá enfrenta questões semelhantes, sobretudo nos setores automobilístico, energético e de matérias-primas. Já a União Europeia acompanha as discussões sobre tarifas industriais, exportações de automóveis, aço e produtos tecnológicos, além de decisões americanas relacionadas à segurança e aos gastos militares. Em todos esses casos, o resultado das eleições pode alterar a capacidade de negociação dos governos estrangeiros com Washington, mas não permite prever, isoladamente, se haverá aumento ou redução das barreiras comerciais.

Dólar, juros e investimentos: por que o resultado interessa ao mundo?

Os efeitos potenciais das eleições americanas não se restringem ao comércio de mercadorias. Os Estados Unidos possuem uma das maiores economias do planeta, e o dólar exerce papel central nas transações financeiras internacionais. Mudanças na política fiscal americana, nas expectativas sobre a dívida pública ou no ambiente de investimentos podem provocar oscilações nos mercados globais. Uma disputa prolongada entre a Casa Branca e o Congresso, por exemplo, poderia dificultar negociações orçamentárias e aumentar a percepção de incerteza entre investidores.

Por outro lado, a manutenção de uma maioria favorável ao presidente poderia facilitar a aprovação de determinadas propostas econômicas, embora isso não signifique necessariamente maior estabilidade. Análise publicada em outubro pela instituição financeira Brown Brothers Harriman destaca que a composição do Congresso pode influenciar as perspectivas para a política fiscal, as expectativas sobre os juros americanos e o comportamento dos mercados em 2027. Para países emergentes, como o Brasil, essas mudanças são relevantes porque influenciam o fluxo internacional de capitais.

Quando os investidores procuram ativos considerados mais seguros nos Estados Unidos, outras economias podem enfrentar saída de recursos e pressão sobre suas moedas. Um dólar mais caro, por exemplo, pode aumentar os custos de importação e pressionar preços internos. Ao mesmo tempo, pode beneficiar determinados exportadores que recebem em moeda estrangeira. Entretanto, a direção desses movimentos depende de vários fatores, incluindo decisões do Federal Reserve, banco central americano, inflação, crescimento econômico e conflitos internacionais. Não é possível afirmar, antecipadamente, que uma vitória republicana ou democrata provocará, por si só, valorização ou desvalorização do dólar.

Três cenários para o futuro do governo americano

A eleição apresenta três possibilidades principais de reorganização do poder em Washington. A primeira é a manutenção do controle republicano sobre Câmara e Senado. Nesse caso, Trump preservaria uma base legislativa favorável e teria melhores condições políticas para tentar avançar em sua agenda econômica, migratória e comercial. A segunda é a conquista de uma das casas pelos democratas, criando um Congresso dividido. Esse cenário exigiria mais negociações e poderia ampliar disputas sobre orçamento, fiscalização do governo e propostas legislativas. A terceira possibilidade é a vitória democrata nas duas casas. Isso representaria uma mudança mais profunda no equilíbrio político, com maior capacidade da oposição para controlar a agenda legislativa e investigar o Executivo.

Mesmo nesse último cenário, Trump continuaria presidente, e suas competências constitucionais permaneceriam em vigor. Para o comércio internacional, nenhum desses resultados representa uma mudança automática. As consequências dependerão de negociações políticas, medidas administrativas e eventuais decisões judiciais.

Eleições também antecipam a disputa presidencial de 2028

Além de determinar a composição do Congresso, a votação desta terça-feira funcionará como um importante teste político para republicanos e democratas. Para Trump, o resultado poderá indicar o grau de apoio popular à sua administração e a força de sua influência dentro do Partido Republicano. Para os democratas, será uma oportunidade de avaliar quais propostas e lideranças conseguem mobilizar eleitores, especialmente diante da próxima eleição presidencial, marcada para 2028. A disputa também pode influenciar a escolha de candidatos, a distribuição de recursos partidários e as estratégias políticas dos dois grupos. Mas a eleição de meio de mandato não equivale a um referendo formal sobre a permanência do presidente no cargo. O mandato de Trump termina em janeiro de 2029, independentemente do resultado legislativo, salvo alguma hipótese excepcional prevista na Constituição americana.

Quando será conhecido o resultado?

A votação acontece nesta terça-feira, 3 de novembro, mas nem todas as disputas necessariamente terão vencedores definidos na mesma noite. Como os Estados Unidos possuem diferentes fusos horários e regras estaduais de apuração, os resultados serão divulgados gradualmente. A contagem de votos antecipados e enviados pelo correio pode continuar depois do encerramento da votação, especialmente em estados onde as disputas estiverem equilibradas. Eventuais recontagens e questionamentos judiciais também poderão prolongar o processo. 

O novo Congresso tomará posse em 3 de janeiro de 2027. Até lá, os resultados indicarão a direção política escolhida pelos eleitores americanos, mas as consequências concretas para o Brasil e os demais parceiros comerciais dependerão das decisões tomadas posteriormente. Mais do que uma disputa entre republicanos e democratas, as eleições de meio de mandato definirão os limites políticos do governo Donald Trump e o equilíbrio de forças responsável por decisões que podem influenciar o comércio, os investimentos e a economia mundial durante os próximos dois anos.

 

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