De fraude nas urnas a votos de pessoas mortas: confira as fake news que ainda circulam após as eleições de 2026
Relatórios sem autoria identificada, vídeos antigos e números distorcidos são utilizados para questionar o resultado do segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro; dados oficiais do TSE permitem verificar as principais alegações
Cinco dias depois do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, realizado no domingo (25), informações falsas e enganosas sobre o resultado da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) continuam circulando nas redes sociais. Entre as narrativas identificadas estão: acusações de fraude na totalização dos votos, alegações de que milhares de urnas teriam registrado votos exclusivamente para Lula e vídeos antigos apresentados como provas de irregularidades na votação.
Um dos conteúdos de maior repercussão é um suposto relatório técnico que afirma que Flávio Bolsonaro teria vencido a eleição caso a votação tivesse sido encerrada às 17h. Publicações relacionadas ao documento acumulavam 1,2 milhão de visualizações no X e 200 mil curtidas no Instagram. A Gazeta do Paraná reuniu as principais alegações e os esclarecimentos divulgados pela Justiça Eleitoral.
1. Flávio Bolsonaro teria vencido se a votação terminasse às 17h
Classificação: FALSO
Um documento apresentado nas redes sociais como relatório pericial independente sustenta que a prorrogação da votação teria alterado o resultado da eleição presidencial, beneficiando Lula. A publicação afirma que Flávio Bolsonaro estaria à frente no encerramento do horário regular e que votos registrados posteriormente teriam modificado o resultado. Entretanto, os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não sustentam a acusação. Segundo a Justiça Eleitoral, 34.393 votos foram registrados após as 17h, quantidade muito inferior à diferença de aproximadamente 4,43 milhões de votos entre os candidatos. Além disso, é necessário distinguir o horário em que o eleitor votou daquele em que os dados de uma seção foram transmitidos ou incorporados à totalização nacional. Uma urna pode ter encerrado a votação antes das 17h e ter seu boletim processado posteriormente. O sigilo do voto também impede identificar individualmente em quem votaram os eleitores atendidos após o horário regular.
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2. Mais de 124 mil urnas teriam registrado votos apenas para Lula
Classificação: FALSO
Outra alegação afirma que 124 mil urnas eletrônicas teriam registrado votos exclusivamente para Lula no segundo turno. O TSE contestou a informação em checagem divulgada na quinta-feira (29). De acordo com os dados apresentados pelo tribunal, das 499.205 seções eleitorais com votos registrados, apenas 110 tiveram todos os votos válidos para presidente destinados a um único candidato, o equivalente a aproximadamente 0,02% do total.
Desse conjunto, 106 seções registraram votos válidos exclusivamente para Lula e quatro registraram votos válidos exclusivamente para Flávio Bolsonaro. Nas 106 seções, Lula recebeu 14.860 votos. Também foram registrados 362 votos brancos ou nulos. Nas quatro seções com votos válidos exclusivamente para Flávio Bolsonaro, o candidato recebeu 296 votos. Portanto, a quantidade de seções apresentada na publicação viral não corresponde aos dados oficiais. A existência de seções com votos válidos para apenas um candidato também não constitui, isoladamente, prova de fraude.
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3. Urnas teriam registrado votos automaticamente após às 17h
Classificação: FALSO
Um vídeo que mostra uma urna eletrônica emitindo sinais sonoros repetidamente voltou a circular acompanhado da afirmação de que o equipamento estaria registrando votos sozinho após o encerramento do horário regular. As imagens, entretanto, não foram gravadas durante as eleições de 2026. Segundo o TSE, o registro é de 26 de outubro de 2014, na seção 2 da 85ª Zona Eleitoral, em Torres, no Rio Grande do Sul.
Na ocasião, a urna apresentou uma falha técnica, ficou inoperante e precisou ser substituída. Os sinais sonoros não representavam a contabilização automática de votos. A Justiça Eleitoral informou que a documentação da seção, incluindo a zerésima e o boletim de urna, foi disponibilizada para fiscalização. A publicação é enganosa porque reaproveita um acontecimento antigo e o apresenta como se fosse uma irregularidade registrada no segundo turno de 2026.
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4. TSE teria suspendido certidões para esconder votos de pessoas mortas
Classificação: FALSO
Mensagens compartilhadas após o segundo turno afirmam que a Justiça Eleitoral teria suspendido a emissão de certidões de quitação eleitoral para impedir a descoberta de votos registrados em nome de pessoas falecidas. A acusação não é sustentada pelos esclarecimentos oficiais. Segundo o TSE, a interrupção temporária do serviço estava prevista desde fevereiro de 2026 e foi realizada para atualização do Cadastro Eleitoral. A indisponibilidade temporária da emissão de certidões não demonstra que pessoas falecidas tenham votado nem comprova adulteração do cadastro de eleitores. A narrativa associa uma medida administrativa real a uma acusação de fraude sem apresentar elementos que estabeleçam essa relação.
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5. Prorrogação da votação teria acrescentado 2 milhões de votos para Lula na Bahia
Classificação: FALSO
Outra narrativa afirma que a prorrogação do horário de votação teria permitido acrescentar aproximadamente 2 milhões de votos a Lula na Bahia, alterando artificialmente o resultado nacional. A acusação não encontra respaldo nos números oficiais. Segundo os esclarecimentos do TSE sobre a votação após as 17h, o total de votos registrados nesse período em todo o Brasil foi de 34.393, número incompatível com a alegação de que 2 milhões de votos teriam sido adicionados apenas na Bahia. Além disso, a transmissão dos boletins de urna e a divulgação dos resultados podem ocorrer depois do encerramento da votação, sem que isso signifique que novos votos tenham sido registrados naquele momento.
O Projeto Comprova analisou a narrativa e apontou a utilização incorreta dos horários e dados da totalização.
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Como conferir os dados das eleições
Os resultados eleitorais podem ser consultados diretamente nos sistemas do TSE. A Justiça Eleitoral disponibiliza dados por seção, boletins de urna e arquivos que permitem comparar os números oficiais com aqueles apresentados em publicações nas redes sociais. É importante observar a data original de vídeos e fotografias, verificar a identificação dos autores de supostos relatórios técnicos e distinguir o horário de votação do horário de transmissão dos resultados. O boletim de urna registra a votação apurada em cada equipamento e permite conferir os números da seção. O documento, porém, não identifica o voto de cada eleitor, preservado pelo sigilo constitucional.
As checagens também mostram que a existência de um dado verdadeiro, como a prorrogação da votação ou a interrupção temporária de um serviço eleitoral, não comprova automaticamente as acusações associadas a ele. A circulação de alegações falsas sobre a votação reforça a importância da consulta a documentos públicos e da verificação da origem das informações, mesmo depois da divulgação dos resultados eleitorais.
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