Câmara de Londrina vai investigar contas da Prefeitura após questionamentos sobre déficit que pode chegar a R$ 400 milhões
Comissão especial apurará a situação financeira do município, que projeta déficit de R$ 205 milhões em 2026. Vereador Matheus Thum questiona números apresentados pela administração e menciona estimativa maior, ainda sem comprovação documental
A Câmara Municipal de Londrina definiu, nesta quinta-feira (29), a composição de uma comissão especial que vai examinar a situação financeira da Prefeitura, em meio a questionamentos sobre um déficit de R$ 205 milhões projetado pela administração municipal para 2026. Durante a sessão ordinária, o vereador Matheus Thum (PP) afirmou que informações recebidas de técnicos indicariam um desequilíbrio ainda maior, que poderia alcançar R$ 400 milhões.
O parlamentar, entretanto, não apresentou documentos que comprovassem essa estimativa. O valor oficialmente divulgado pela Prefeitura continua sendo de R$ 205 milhões, e a comissão deverá buscar esclarecimentos sobre a origem, a evolução e a composição das dificuldades financeiras do município.
A Comissão Especial de Gestão, Planejamento e Eficiência do Patrimônio Público será presidida pelo vereador Chavão (Republicanos), terá Jessicão (PL) como relatora e Matheus Thum como integrante. O grupo foi criado por meio do Requerimento nº 304/2026, aprovado pela Câmara no dia 22 de outubro, e terá até 180 dias para desenvolver seus trabalhos.
Vereador questiona saldo de R$ 460 milhões apresentado em documento de 2024
Um dos principais pontos levantados por Matheus Thum envolve informações financeiras referentes ao exercício de 2024.
Durante a sessão, o vereador apresentou dados que atribuiu a um documento publicado no Diário Oficial do Município, em maio de 2025, já durante a administração do prefeito Tiago Amaral (PSD).
Segundo o parlamentar, o documento registraria disponibilidade de caixa líquida de aproximadamente R$ 460,26 milhões, após a inscrição de restos a pagar não processados.
"Não é o vereador Mateus que tá dizendo, é o Diário Oficial do município", afirmou durante a discussão.
Thum questionou como a Prefeitura passou a apresentar dificuldades financeiras diante dos números registrados anteriormente e defendeu que a comissão examine os dados de diferentes exercícios.
A informação, contudo, exige uma distinção contábil importante. A disponibilidade de caixa líquida de um exercício não corresponde necessariamente a dinheiro livre para qualquer despesa. Parte dos recursos pode estar vinculada a finalidades específicas, como saúde, educação e transferências destinadas a projetos determinados.
Além disso, o saldo de caixa de 2024 e o déficit projetado para 2026 são indicadores referentes a períodos e situações diferentes. Por isso, não é possível concluir, apenas pela comparação dos dois valores, que houve desaparecimento de recursos ou irregularidade na gestão financeira.
O documento citado pelo vereador ainda precisa ser confrontado com os demonstrativos oficiais completos para esclarecer quanto do saldo estava efetivamente disponível para utilização geral.
Prefeitura atribui déficit à queda de receitas e a despesas acumuladas
Em setembro, a administração de Tiago Amaral anunciou um Plano de Contenção e Reequilíbrio Fiscal para enfrentar o déficit projetado de R$ 205 milhões.
Segundo informações divulgadas pela própria Prefeitura, o valor é composto por aproximadamente R$ 81 milhões em despesas de 2025 pendentes de pagamento e R$ 124 milhões em receitas que deixariam de ser arrecadadas em relação à previsão inicial para 2026.
A redução de receitas estaria relacionada principalmente a recursos do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF).
Para enfrentar a situação, o Executivo anunciou medidas de revisão de contratos, contenção de gastos administrativos e alterações nas despesas com o transporte coletivo.
O subsídio municipal ao transporte, por exemplo, passou de R$ 37 milhões em 2022 para R$ 172 milhões em 2025. Para 2026, a previsão divulgada pela administração é de R$ 177 milhões.
A Prefeitura sustenta que parte das dificuldades decorre de compromissos financeiros acumulados ao longo de diferentes administrações.
Comissão poderá recorrer ao Tribunal de Contas
Durante a sessão de quinta-feira, Thum defendeu que a investigação seja acompanhada por profissionais especializados em contabilidade pública.
O vereador sugeriu a participação de técnicos da Câmara e, se necessário, a solicitação de apoio ao Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR).
Ele também fez críticas às explicações apresentadas anteriormente pela Secretaria Municipal de Fazenda e afirmou que pretende confrontar informações divulgadas em audiência pública.
As acusações de omissão de dados feitas pelo parlamentar não foram acompanhadas, naquele momento, de uma demonstração documental conclusiva.
Chavão, presidente da comissão, afirmou que os trabalhos deverão buscar transparência e esclarecimentos para a população. Segundo ele, o grupo pretende definir os procedimentos de fiscalização e as informações que serão solicitadas formalmente à Prefeitura.
A previsão divulgada é que a comissão inicie suas atividades na quarta-feira, 4 de novembro.
Documentos de dez anos foram apresentados à Câmara
Ainda na quinta-feira, o secretário municipal de Planejamento, Marcos Rambalducci, esteve na Câmara com documentos referentes à situação orçamentária do município entre 2016 e 2026. O material não foi protocolado naquele momento, a pedido dos integrantes da comissão, que preferiram definir antecipadamente quais documentos deverão ser formalmente requisitados.
Rambalducci afirmou que a apresentação dos registros demonstrava a disposição da Prefeitura em colaborar com os trabalhos.
A comissão poderá solicitar esclarecimentos aos responsáveis pelas secretarias de Planejamento e Fazenda, além de analisar relatórios financeiros e contábeis de diferentes exercícios.
Apuração deverá esclarecer a dimensão do problema
O trabalho da comissão deverá buscar respostas para questões que ainda permanecem abertas, entre elas a diferença entre os saldos financeiros de exercícios anteriores e o déficit projetado para o encerramento de 2026.
Também será necessário identificar o volume de despesas empenhadas e não pagas, a disponibilidade efetiva de recursos sem vinculação específica e os fatores responsáveis pelo crescimento das obrigações municipais.
Até o momento, os R$ 400 milhões mencionados por Matheus Thum não constituem um déficit oficialmente demonstrado. Trata-se de uma estimativa relatada pelo vereador, enquanto o valor de R$ 205 milhões corresponde à projeção apresentada pelo Executivo.
A conclusão dependerá da análise dos documentos contábeis e das informações que serão prestadas pela Prefeitura, cabendo à comissão apresentar os resultados da fiscalização ao Legislativo e à população.
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