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Casa Fácil Paraná: 140 mil famílias beneficiadas não significam 140 mil moradias entregues

Checagem da declaração de Sandro Alex mostra que o número divulgado é baseado em famílias beneficiadas desde 2019. Dados oficiais não permitem afirmar que sejam 140 mil casas construídas ou entregues

Ana Zimermann · · 6 min de leitura
Sandro Alex e Ratinho Júnior
Sandro Alex e Ratinho Júnior — Crédito: site Sandro Alex

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A afirmação do candidato ao governo do Paraná Sandro Alex de que o Estado possui “o maior programa habitacional do País”, com “mais de 140 mil moradias”, mistura um dado oficial verdadeiro com uma interpretação que não pode ser comprovada dessa forma. Segundo a Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar), o programa Casa Fácil Paraná já alcançou mais de 140 mil famílias desde 2019. O número, porém, reúne diferentes modalidades de atendimento habitacional e não corresponde a 140 mil unidades habitacionais necessariamente construídas ou entregues.

O que Sandro Alex disse

Em material divulgado durante a campanha e no próprio site do candidato, Sandro Alex afirmou que o Paraná possui “o maior programa habitacional do País”, citando “mais de 140 mil moradias”. A declaração precisa ser dividida em duas partes: o número de beneficiários e a classificação do Casa Fácil como “o maior programa habitacional do Brasil”. A primeira encontra respaldo nos dados oficiais. A segunda depende do indicador utilizado e não pode ser considerada comprovada sem uma metodologia nacional que permita comparar programas de naturezas diferentes.

De onde vêm as 140 mil famílias

O Casa Fácil Paraná foi instituído pela Lei Estadual nº 20.394/2020, embora sua execução tenha começado em 2019. O programa é administrado pela Cohapar e reúne políticas destinadas aos 399 municípios do Estado. A legislação permite que o programa atue em diferentes frentes, incluindo produção e aquisição de novas unidades, melhorias e reformas, urbanização e regularização fundiária. A própria Cohapar informa que também desenvolve projetos em parceria com municípios, governo federal e iniciativa privada. Por isso, “famílias beneficiadas” não é sinônimo de “casas entregues”.

Em publicação mais recente, a Cohapar informa que o Casa Fácil, somando todas as suas linhas, já chegou a mais de 140 mil famílias. Na mesma divulgação, a companhia afirma que uma das principais modalidades, o Valor de Entrada, alcançou quase 106 mil famílias em 976 empreendimentos construídos ou em projeto. Ou seja, o próprio governo estadual apresenta números diferentes para universos diferentes. 

140 mil famílias não são 140 mil casas

Essa é a principal ressalva da checagem. Em 2025, quando o programa contabilizava cerca de 110 mil famílias beneficiadas, a Cohapar informava que 82.267 famílias haviam sido atendidas pela modalidade Valor de Entrada. O número reunia unidades entregues, contratadas ou em construção. A meta anunciada pelo governo era chegar a 100 mil imóveis até o final de 2026. Em outra divulgação, a Cohapar informou que a primeira etapa do Valor de Entrada, lançada em 2021, havia subsidiado 32 mil moradias, em parceria com Caixa, governo federal e prefeituras, com investimento estadual de R$ 470 milhões.

A própria documentação atual da companhia deixa ainda mais clara a diferença. O Casa Fácil inclui, além da construção de novas moradias, ações como regularização fundiária, reformas, melhorias e requalificação de imóveis. Portanto, não é possível pegar o número de 140 mil famílias beneficiadas e transformá-lo diretamente em 140 mil casas construídas ou entregues. O Casa Fácil também financia a entrada de imóveis do Minha Casa, Minha Vida.

Outro ponto importante é que parte das unidades contabilizadas pelo Casa Fácil não é construída exclusivamente pelo governo do Paraná. Na modalidade Valor de Entrada, a Cohapar concede subsídio para reduzir ou eliminar a entrada exigida no financiamento. A operação é realizada em parceria com a Caixa Econômica Federal e pode ocorrer dentro do Minha Casa, Minha Vida. Na prática, uma mesma operação pode envolver: subsídio do Governo do Paraná, financiamento da Caixa, recursos do FGTS, benefícios do Minha Casa Minha Vida, participação da prefeitura, terreno ou infraestrutura pública e investimento da construtora.

Em um empreendimento entregue em Cascavel, por exemplo, 132 das 192 unidades receberam subsídio do Casa Fácil, enquanto a construtora realizou investimento de R$ 30 milhões e o investimento total chegou a R$ 32 milhões. Isso não diminui a importância do programa estadual, mas mostra por que não é metodologicamente correto atribuir integralmente ao Casa Fácil todas as unidades habitacionais dos empreendimentos em que o programa participa com um subsídio de entrada.

E o Minha Casa Minha Vida?

A comparação com o programa federal mostra uma diferença de escala. O Minha Casa, Minha Vida possui abrangência nacional e utiliza diferentes fontes de recursos e modalidades. O Ministério das Cidades mantém inclusive bases específicas com informações sobre empreendimentos e unidades contratadas. Por isso, se a expressão “maior programa habitacional do Brasil” incluir programas federais, a afirmação de Sandro Alex não se sustenta. O Casa Fácil é uma política estadual, enquanto o Minha Casa, Minha Vida é uma política nacional, executada em parceria com estados, municípios, Caixa, setor privado e outros agentes. Além disso, o próprio Casa Fácil utiliza o Minha Casa, Minha Vida como uma das plataformas para viabilizar parte de suas operações.

A análise das fontes oficiais permite estabelecer quatro conclusões: 

1. O número de 140 mil famílias é real. A Cohapar informa que o Casa Fácil já beneficiou mais de 140 mil famílias desde 2019.

2. As 140 mil não equivalem a 140 mil casas entregues. O programa reúne diversas modalidades, incluindo subsídios, produção habitacional e regularização fundiária.

3. Parte das moradias é viabilizada em parceria com o Minha Casa, Minha Vida e a Caixa. O Casa Fácil frequentemente atua por meio de subsídios que complementam o financiamento habitacional.

4. “Maior programa habitacional do Brasil” não é uma classificação oficial nacional. Não foi identificado um ranking produzido pelo Ministério das Cidades, Caixa, Tribunal de Contas da União ou Corregedoria Geral da União que estabeleça o Casa Fácil como o maior programa habitacional brasileiro em termos absolutos.

Ou seja: a declaração de Sandro Alex parte de um dado oficial verdadeiro, mas amplia seu significado. O candidato está correto ao afirmar que o Casa Fácil Paraná ultrapassou a marca de 140 mil famílias beneficiadas desde 2019. O erro está em apresentar esse número como se representasse necessariamente 140 mil moradias construídas ou entregues.

Além disso, a expressão “maior programa habitacional do Brasil” precisa de uma ressalva: há indicadores específicos nos quais o Paraná aparece na liderança entre os estados, mas não existe um critério nacional único que permita afirmar, sem qualificação, que o Casa Fácil é o maior programa habitacional do país. Para resumir em uma frase: Sandro Alex acerta no número de famílias beneficiadas, mas exagera ao transformá-lo em número de moradias e em liderança absoluta nacional.

Fontes consultadas: a checagem foi baseada prioritariamente em informações oficiais da Cohapar e do Governo do Paraná, complementadas por dados e informações institucionais da Caixa Econômica Federal e Ministério das Cidades, além da verificação de bases de controle e transparência de órgãos federais.

 

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