Corte de benefícios sociais pode provocar retração econômica e ampliar pobreza em cidades do interior, aponta USP
Estudo mostra que aposentadorias, Bolsa Família e BPC sustentam o consumo e o comércio de municípios menores; sem reajustes reais, renda agregada poderia ficar até 10,8% abaixo do cenário de valorização
Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), vinculado à Universidade de São Paulo (USP), acende um alerta sobre a dependência das economias do interior brasileiro em relação aos benefícios sociais e previdenciários. Segundo o levantamento, a interrupção dos reajustes reais de aposentadorias e benefícios assistenciais pode comprometer o consumo, enfraquecer o comércio e ampliar a pobreza em milhares de municípios, inclusive em regiões onde a atividade econômica não depende diretamente das transferências de renda.
A pesquisa, divulgada na última semana e repercutida neste sábado (17), analisou o papel das aposentadorias, do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) na composição da renda das famílias. Os pesquisadores concluíram que esses recursos representam uma parcela especialmente importante da economia dos municípios fora das regiões metropolitanas, onde a circulação de dinheiro depende mais diretamente do consumo das famílias de baixa renda.
O levantamento considera que aproximadamente 4 mil dos 5.569 municípios brasileiros estão fora das regiões metropolitanas. Nessas localidades, o peso das transferências públicas pode chegar ao dobro do observado nos grandes centros urbanos. Isso significa que mudanças na política de reajustes dos benefícios podem produzir consequências que ultrapassam os beneficiários e alcançam comerciantes, prestadores de serviços e trabalhadores.
De acordo com a economista Luiza Nassif, pesquisadora do Made e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os recursos recebidos pelas famílias mais pobres são utilizados principalmente na compra de produtos essenciais. Como essa renda tende a ser gasta rapidamente, ela movimenta estabelecimentos comerciais, contribui para a manutenção de empregos e ajuda a sustentar a arrecadação dos municípios.
O efeito é particularmente relevante em cidades pequenas, onde aposentadorias e benefícios assistenciais constituem uma fonte regular de recursos. Diferentemente de investimentos pontuais, os pagamentos mensais garantem previsibilidade ao consumo, permitindo que famílias mantenham despesas com alimentação, medicamentos, transporte e outros serviços.
Renda do interior pode ficar até 10,8% abaixo do cenário de valorização
Para dimensionar os impactos econômicos, os pesquisadores compararam dois cenários de evolução dos benefícios. O primeiro considera a política de valorização real observada entre 2022 e 2025, período em que aposentadorias e BPC tiveram ganhos associados aos reajustes do salário mínimo. O segundo reproduz condições semelhantes às verificadas entre 2019 e 2022, caracterizadas pela ausência de aumentos reais.
Os resultados indicam que, sem a valorização dos benefícios, a renda agregada das cidades do interior poderia ficar entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar alcançado no cenário com reajustes reais. Trata-se de uma simulação econômica, e não de uma previsão de que haverá cortes efetivos nos pagamentos.
Os impactos variam conforme a região. Nos municípios do interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, a diferença entre os cenários poderia chegar a 17% ou 18%. Amazonas, Sergipe e Pernambuco apresentariam perdas próximas de 15%, enquanto Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia registrariam diferenças entre 10% e 13%.
Em outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o impacto estimado poderia alcançar 6,5%. O levantamento divulgado não apresenta um percentual específico para o Paraná, o que impede atribuir ao estado uma perda equivalente à calculada para outras unidades da Federação.
Apesar dessa limitação, o estudo oferece elementos para discutir a realidade econômica dos municípios paranaenses de menor porte. Nessas localidades, a presença de aposentados, pensionistas e famílias atendidas por programas sociais também integra a dinâmica do comércio e dos serviços. A intensidade dessa dependência, entretanto, varia conforme a estrutura produtiva, o mercado de trabalho e o perfil demográfico de cada cidade.
Estudo aponta risco de milhões de pessoas na pobreza
Além das consequências econômicas, o Made investigou os efeitos dos reajustes sobre os indicadores sociais. As simulações indicam que a ausência de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 poderia ter levado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas à pobreza nos municípios brasileiros fora das regiões metropolitanas. Desse total, cerca de 2,4 milhões poderiam ter ingressado na extrema pobreza.
O resultado reforça a importância das transferências públicas para famílias com rendimentos reduzidos. Segundo o levantamento, entre aquelas cuja renda per capita não ultrapassa um salário mínimo e meio, os benefícios sociais e previdenciários podem representar até metade do orçamento doméstico.
Em números absolutos, a Bahia estaria entre os estados mais afetados, com até 336 mil pessoas adicionais em situação de pobreza no cenário simulado. São Paulo poderia registrar até 263 mil, enquanto Minas Gerais teria até 251 mil. Maranhão, Pará e Ceará também apresentariam aumentos expressivos.
Os pesquisadores destacam que o impacto não se limita à perda de poder de compra de quem recebe diretamente os benefícios. Quando uma família reduz suas despesas, estabelecimentos comerciais vendem menos, fornecedores podem perder receitas e a demanda por serviços diminui. Esse processo pode provocar efeitos sucessivos sobre a atividade econômica local.
Debate fiscal envolve sustentabilidade e proteção social
Os resultados entram no debate sobre a trajetória das despesas públicas e a sustentabilidade das políticas sociais. A valorização dos benefícios vinculados ao salário mínimo aumenta a renda de milhões de brasileiros, mas também produz efeitos sobre o orçamento federal, especialmente nas despesas previdenciárias e assistenciais.
Por isso, a discussão envolve dois desafios simultâneos: preservar a capacidade de compra das famílias de menor renda e assegurar condições fiscais para o financiamento continuado dos programas. O estudo do Made concentra-se nos efeitos econômicos e sociais da valorização dos benefícios, sem representar, por si só, uma avaliação completa de todos os custos e alternativas de política fiscal.
Os pesquisadores argumentam que a análise das despesas sociais precisa considerar também os efeitos indiretos dos pagamentos sobre a economia. Em municípios menores, a redução do consumo pode afetar a atividade empresarial e a arrecadação, ampliando as consequências de eventuais medidas de contenção.
Para o Paraná, o levantamento abre espaço para uma análise mais detalhada da participação de aposentadorias, BPC e Bolsa Família na renda dos municípios. O cruzamento de dados oficiais sobre beneficiários, valores transferidos e atividade econômica permitiria identificar quais cidades estão mais expostas a mudanças nas políticas de reajuste.
O principal alerta da pesquisa é que o debate sobre benefícios sociais não se restringe às contas públicas ou ao orçamento das famílias atendidas. Em milhares de municípios brasileiros, esses pagamentos integram a própria sustentação da economia local, influenciando o funcionamento do comércio, a geração de renda e as condições de vida da população.
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