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Venezuela nega perda de controle sobre petróleo após acordo com os EUA

Delcy Rodríguez afirma que país manterá soberania sobre reservas, enquanto Trump diz ter garantido controle majoritário sobre o petróleo venezuelano

Por Gazeta do Paraná

Venezuela nega perda de controle sobre petróleo após acordo com os EUA Créditos: Tania Rego/Agência Brasil

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou no sábado (29) que o país manterá a posse e a soberania sobre suas reservas de petróleo, em uma declaração que contradiz a versão apresentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o novo acordo entre os dois países.

Um dia antes, Trump havia anunciado que Washington e Caracas haviam fechado “o maior acordo de petróleo da História mundial” e afirmou que os Estados Unidos teriam assegurado controle majoritário sobre mais de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas.

— Uma coisa deve estar completamente clara: a Venezuela retém a posse e soberania sobre seus recursos — declarou Rodríguez em pronunciamento na televisão estatal.

Segundo a presidente interina, os 17 “campos estratégicos” que passarão a ter participação e controle operacional de empresas americanas continuam pertencendo à Venezuela. O objetivo do acordo é elevar a produção nacional para 1,5 milhão de barris por dia.

Pelos termos apresentados por Rodríguez, a Venezuela receberá cerca de US$ 19 por barril vendido, enquanto empresas privadas americanas deverão investir aproximadamente US$ 100 bilhões para recuperar a infraestrutura e ampliar a produção do setor petrolífero.

A presidente estima que a parceria possa gerar US$ 204 bilhões em receitas fiscais para o país. Ela, porém, não detalhou como os recursos chegarão à população nem informou quanto poderá ser arrecadado por meio de royalties e outras fontes.

Pressão política

A tentativa de Delcy Rodríguez de reforçar a ideia de soberania ocorre em meio a críticas dentro do próprio chavismo. Parte dos apoiadores do governo teme que a abertura ao capital americano represente, na prática, uma perda de controle sobre uma das principais riquezas do país.

O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), entretanto, reafirmou apoio ao acordo e defendeu a abertura econômica como uma forma de superar os efeitos de anos de sanções impostas pelos Estados Unidos.

A mudança representa uma guinada importante na política econômica venezuelana. Sob pressão de Washington, Rodríguez promoveu reformas para permitir maior participação privada, inclusive estrangeira, nos setores de petróleo e mineração. Paralelamente, os Estados Unidos começaram a flexibilizar sanções contra a indústria petrolífera.

Produção ainda está distante do passado

A produção venezuelana cresceu 29,8% entre janeiro e julho, chegando a aproximadamente 1,2 milhão de barris por dia. O volume, porém, ainda está muito distante dos cerca de 3 milhões de barris diários registrados pelo país há 25 anos.

A recuperação deve levar tempo. Especialistas estimam que os efeitos dos novos investimentos poderão ser percebidos somente em três ou quatro anos, devido às condições precárias da infraestrutura e à necessidade de grandes investimentos.

A americana Chevron, que permaneceu operando na Venezuela mesmo durante o período de maior restrição às empresas estrangeiras, já estaria em negociações para ampliar sua presença no país.

Para o especialista em petróleo Oswaldo Felizzola, a entrada de empresas americanas pode funcionar como uma garantia para novos investimentos.

— Se não fosse assim, esses campos não seriam explorados nos próximos 10 ou 15 anos, porque a PDVSA não tem os recursos econômicos para isso — afirmou.

População espera efeitos no bolso

O possível aumento da produção ocorre em um país que ainda enfrenta os efeitos de uma profunda crise econômica. A economia venezuelana sofreu uma contração de aproximadamente 80% entre 2014 e 2021, e a recuperação ainda não se refletiu de forma significativa no cotidiano de grande parte da população.

Estimativas privadas apontam que o salário mínimo mensal equivale a apenas US$ 0,16, enquanto benefícios estatais podem chegar a US$ 240. Já o custo estimado da cesta básica alcança cerca de US$ 730.

Para venezuelanos ouvidos sobre o acordo, a principal preocupação é saber se a nova receita do petróleo efetivamente chegará à população.

— Até agora, não vimos nada. O consumo e os alimentos estão mais caros... o dólar sobe, e os preços das mercadorias também — relatou o funcionário público Carlos Baco, de 74 anos.

Analistas avaliam que a entrada de capital estrangeiro pode acelerar a recuperação da indústria, mas alertam que os resultados dependerão da execução do acordo e da capacidade do governo de transformar a produção petrolífera em receitas efetivamente destinadas ao desenvolvimento do país.

O ponto central, portanto, permanece em disputa: Washington fala em controle majoritário, enquanto Caracas insiste que a soberania sobre o petróleo continua venezuelana.

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