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“Tudo na vida é oportunidade”: a trajetória de Antonio Carlos Machado na cultura de Cascavel

Há mais de 35 anos, Antonio Carlos Machado transforma experiências e oportunidades em iniciativas que ajudam a construir a história da arte e da cultura de Cascavel

Por Julia Maraschi

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“Tudo na vida é oportunidade”: a trajetória de Antonio Carlos Machado na cultura de Cascavel Créditos: Arquivo

Para quem olha para a cena cultural de Cascavel atualmente, museus, exposições, festivais e espaços dedicados à arte podem parecer parte natural da cidade. Para Antonio Carlos Machado, no entanto, a construção desse cenário também é resultado de décadas de trabalho, articulação e insistência. Artista plástico e visual, produtor cultural e curador de arte, Antonio atua há mais de 35 anos na área cultural em Cascavel e no Paraná.

Nascido em Londrina e formado em Educação na própria cidade, ele teve contato com a arte desde a infância. O incentivo para visitar exposições, frequentar o cinema, observar diferentes manifestações culturais e criar acompanhou sua formação. Londrina, que já possuía uma cena cultural movimentada, com festivais de teatro e música, também foi o primeiro espaço onde Antonio começou a se movimentar entre artistas e manifestações culturais.

A arte antes da profissão 

A relação com a cultura começou antes de se transformar em trabalho. Para Antonio, a arte sempre esteve presente na vida, não apenas como profissão, mas como uma forma de conhecer o mundo. O contato com exposições, cinema e outras manifestações artísticas ajudou a construir o olhar que mais tarde levaria para Cascavel.

Depois de se formar, ele chegou à cidade para trabalhar como técnico de esportes no Sesc. A princípio, sua atuação estava ligada à organização de atividades comunitárias e campeonatos de futebol. Aos poucos, porém, começou a participar de cursos e da programação cultural da instituição.

A aproximação com os artistas locais cresceu nesse período. Antonio montou uma pequena galeria e passou a conhecer mais de perto a produção artística de Cascavel. O trabalho que inicialmente estava ligado ao esporte começou a abrir caminho para uma trajetória que seria dedicada à cultura.

Quando a arte causou choque 

Em 1986, Antonio participou de um episódio que marcou a história de sua atuação cultural na cidade. Ele foi responsável por trazer para Cascavel o primeiro curso de desenho de figura humana com modelo vivo e nu.

A proposta, hoje menos incomum em ambientes de formação artística, provocou estranhamento na época e chegou a ser considerada um evento “chocante”. A iniciativa representava também a tentativa de aproximar os artistas locais de novas experiências e possibilidades de formação.

O episódio ajuda a mostrar uma característica que acompanhou Antonio ao longo da carreira: a disposição para trazer para a cidade propostas que ainda não tinham espaço consolidado.

Da programação cultural ao Museu de Artes

Em 1990, Antonio passou a trabalhar na Secretaria de Cultura como auxiliar cultural. A partir dali, começou a participar da organização de festivais de dança, música, teatro e outras manifestações artísticas.

Três anos depois, em 1993, tornou-se coordenador da Secretaria de Cultura e passou a participar da implementação do Museu de Artes de Cascavel. A criação do espaço surgiu também de uma demanda dos próprios artistas plásticos, que, segundo Antonio, ainda não possuíam a mesma estrutura organizada existente em outras áreas culturais.

“Foram várias e várias lutas da classe das artes plásticas que não tinham nada”, relembra.

A partir dessa mobilização, surgiu a ideia de criar um museu que reunisse acervos e oferecesse um espaço permanente para a produção artística. O projeto envolveu a junção do acervo da Prefeitura com o Museu Histórico e a utilização do prédio do Paço Municipal, que acabou se transformando no Paço das Artes.

Um museu para o Oeste do Paraná

A criação do museu também envolveu uma aproximação com curadores do Paraguai e com a Secretaria de Cultura da época. Entre as primeiras exposições estavam uma coleção de cerâmica paraguaia e trabalhos de artes plumárias.

Inaugurado em 1996, o espaço abriu com duas exposições e uma área destinada a mostras temporárias. Segundo Antonio, foi o primeiro Museu de Arte Contemporânea do Oeste do Paraná, em um momento em que havia apenas outro espaço com essa característica em Curitiba.

Mais do que criar um endereço para exposições, a implantação do museu representou uma mudança na relação da cidade com as artes plásticas. A produção que antes encontrava poucas estruturas de apoio passou a contar com um espaço institucional dedicado à arte.

"Eu vi oportunidades" 

Quando questionado sobre o principal desafio diante da falta de visibilidade da arte e da cultura em Cascavel, Antonio não responde apenas a partir das dificuldades. Ele prefere olhar para aquilo que poderia ser construído.

“Tudo na vida é oportunidade, e quando cheguei aqui, eu vi oportunidades”, afirma.

A frase resume uma trajetória marcada pela busca por espaços onde a cultura pudesse crescer. Ao longo de mais de 35 anos, Antonio participou de projetos, festivais, exposições e iniciativas voltadas à produção artística, além de ajudar na criação da Associação dos Artistas Plásticos, que permaneceu ativa até 2009.

Sua atuação não ficou restrita à própria produção artística. Parte importante de sua trajetória foi criar condições para que outros artistas também encontrassem espaço para produzir, expor e serem reconhecidos.

Uma vida movimentada pela cultura 

A história de Antonio Carlos Machado se mistura à própria história da construção da cena artística de Cascavel. Da pequena galeria aos festivais, da Secretaria de Cultura à implantação de um museu, sua trajetória foi marcada pela tentativa de transformar a arte em algo acessível e presente na vida da cidade.

Mais do que acompanhar as mudanças da cultura local, Antonio ajudou a provocá-las. E, ao olhar para mais de três décadas de trabalho, sua história mostra que a construção de uma cena cultural não acontece apenas por meio de grandes eventos, mas também pelas pessoas que insistem em criar oportunidades quando elas ainda não existem.

Acesse a entrevista completa 

Créditos: Julia Maraschi Acesse nosso canal no WhatsApp