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Denúncia aponta grupo no Telegram que vendia vídeos de torturas atribuídas a policiais militares no Paraná

Documentos obtidos pela Gazeta detalham funcionamento de canal pago que comercializava imagens de violência durante abordagens policiais; MP instaurou procedimento preliminar para apurar o caso

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Denúncia aponta grupo no Telegram que vendia vídeos de torturas atribuídas a policiais militares no Paraná Créditos: Divulgação/PM

O deputado estadual Renato Freitas (PT) denunciou a existência de um grupo no aplicativo Telegram em que seriam compartilhadas e comercializadas fotos e vídeos de tortura e agressões atribuídas a policiais militares do Paraná. A denúncia foi divulgada na quarta-feira (22) e encaminhada ao Ministério Público do Paraná (MPPR), que informou ter instaurado um procedimento preliminar para apurar os fatos.

Documentos e capturas de tela obtidos pela Gazeta mostram detalhes do funcionamento do canal. Segundo o material, o grupo foi criado em 28 de abril de 2026 e utilizava um perfil no Instagram como principal ferramenta de divulgação. O acesso era vendido por R$ 20 mensais e, conforme os próprios administradores informavam, o canal reunia mais de 100 assinantes.

De acordo com Renato Freitas, a equipe do gabinete identificou o grupo após monitorar justamente esse perfil no Instagram, que promovia a comercialização do acesso ao canal fechado.

Vídeos mostram cenas de violência

Segundo o parlamentar, o grupo publicava diariamente registros de operações policiais com imagens explícitas de pessoas sendo agredidas, torturadas e mortas.

Os documentos analisados pela reportagem descrevem alguns dos vídeos disponibilizados aos assinantes. Em um deles, gravado durante o dia mais frio do ano em Curitiba, um homem é obrigado a entrar em um rio enquanto repete frases de exaltação à Polícia Militar do Paraná. Ao fundo, é possível ouvir risadas de quem acompanha a gravação.

Outro vídeo mostra um homem sendo obrigado a se deitar sobre uma fogueira para apagar as chamas com o próprio corpo. Enquanto tenta cumprir a ordem, ele recebe chutes. Também há registros de pessoas com ferimentos aparentes após abordagens policiais. Em uma das gravações, um homem reclama que está sendo filmado durante atendimento médico e afirma aos profissionais de saúde que foi agredido por policiais.

Instagram servia como vitrine

Conforme a documentação, o perfil utilizado para divulgar o grupo surgiu em setembro de 2025 com postagens voltadas à exaltação da atividade policial. Entre novembro e dezembro do mesmo ano, no entanto, o conteúdo passou a destacar cenas de violência durante operações.

Segundo o material, os stories do Instagram exibiam trechos desfocados dos vídeos mais violentos para despertar curiosidade e direcionar seguidores ao grupo pago no Telegram. Em uma das publicações, aparece a imagem de um corpo cercado por grande quantidade de sangue acompanhada da frase "O grupo tá gostosinho", seguida do link para assinatura do canal.

Documento aponta interação de policiais

A denúncia também afirma que a página mantinha interação frequente com perfis identificados como policiais militares.

Segundo os documentos, diversas publicações continham marcações de perfis de agentes de segurança, páginas institucionais da Polícia Militar do Paraná e autoridades públicas. Além disso, policiais comentariam, compartilhariam conteúdos e agradeceriam pela divulgação das imagens, prática que, conforme a denúncia, ajudaria a ampliar o alcance da página nas redes sociais.

Gaeco abre Notícia de Fato

Em nota, o Ministério Público do Paraná informou que o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) recebeu as informações encaminhadas pelo deputado e instaurou uma Notícia de Fato.

Segundo o órgão, o procedimento tem como objetivo verificar se existem elementos que justifiquem a abertura de uma investigação formal.

"O Gaeco recebeu informações a respeito desses fatos e instaurou uma Notícia de Fato, cujo objetivo é verificar a existência de fatos vinculados à atribuição do Gaeco que possibilitem a instauração de uma investigação formal. A apuração ainda é inicial e sigilosa", informou o MPPR.

Denúncia ocorre em meio a investigações

A denúncia surge em um momento em que casos envolvendo violência policial no Paraná vêm sendo investigados pelo Ministério Público.

Os documentos citam que, em abril deste ano, três policiais militares foram presos pelo Gaeco em Curitiba suspeitos de crimes como tortura, fraude processual, lesão corporal e falsidade ideológica. Entre eles está o policial influenciador Marcionilio Sancho Cambuhy Junior, conhecido como Sancho Loko, frequentemente exaltado em publicações da página investigada. Em junho, outros dois policiais militares de Pontal do Paraná foram presos preventivamente sob suspeita de tortura e extorsão.

O documento também menciona dados do Ministério Público do Paraná segundo os quais 497 pessoas morreram em ações registradas como confrontos com forças de segurança em 2025. Do total de vítimas, 99% eram homens e 44,3% eram negros. O levantamento aponta aumento de 23% nos confrontos e de 20% no número de mortes em relação ao ano anterior.

A investigação conduzida pelo Gaeco permanece em fase inicial e sob sigilo. Até o momento, o Ministério Público não confirmou a autenticidade do material nem apontou eventuais responsabilidades criminais relacionadas aos fatos narrados na denúncia.

PM foi procurada

A Gazeta procurou a Polícia Militar do Paraná (PMPR) para comentar o conteúdo da denúncia, questionar a eventual identificação dos policiais que aparecem nas imagens e informar se a corporação instaurou algum procedimento interno para apurar os fatos.

Até a publicação desta reportagem, a corporação não havia enviado resposta. O espaço permanece aberto para manifestação e o texto será atualizado caso a PMPR se pronuncie.

 

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