Tarifaço de Trump atinge estados de forma desigual e pressiona economias regionais
Especialistas avaliam que os efeitos econômicos dependerão das características de cada produto
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Domínio Púbico
As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros devem provocar impactos distintos entre os estados. Levantamento elaborado pela Folha de S.Paulo, com base em dados de 2025 do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), aponta que Ceará, Espírito Santo e Santa Catarina são as unidades da federação mais vulneráveis às sobretaxas anunciadas pelo governo do presidente Donald Trump.
As medidas, anunciadas em julho, estabeleceram uma tarifa adicional de 12,5% sobre diversos produtos brasileiros. Em muitos casos, esse percentual se soma aos 25% já aplicados anteriormente em investigações comerciais conduzidas pelos Estados Unidos, ampliando o custo de entrada de mercadorias brasileiras no mercado americano.
O Ceará aparece como o estado mais afetado. Cerca de 46% das exportações cearenses têm como destino os Estados Unidos, e aproximadamente 42% de todas as vendas externas do estado passam a estar sujeitas às novas tarifas. A principal razão é a forte concentração das exportações na indústria siderúrgica, especialmente de semimanufaturados de aço, além de produtos como mel, granito e calçados de borracha.
Embora o comércio exterior represente menos de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) cearense, especialistas alertam que os efeitos podem se espalhar por diversos setores da economia. A cadeia da siderurgia movimenta transporte, energia, logística, fornecedores e serviços especializados, o que amplia os reflexos sobre emprego e atividade econômica.
O Espírito Santo também figura entre os mais vulneráveis. O estado possui o maior grau de abertura comercial do país, com exportações e importações equivalentes a 62,7% do PIB. Os Estados Unidos respondem por 27% das vendas externas capixabas, e quase 70% desse comércio está sujeito às novas tarifas. Entre os principais produtos atingidos estão semimanufaturados de ferro e aço, pedras ornamentais e pastas químicas de madeira.
Já Santa Catarina ocupa a terceira posição no ranking. Aproximadamente 80,7% das exportações catarinenses para os Estados Unidos são afetadas pelas tarifas, o que representa 9,7% das vendas externas totais do estado. Madeira e autopeças estão entre os produtos mais impactados.
O estudo também revela diferenças significativas entre as regiões brasileiras. Enquanto estados do Nordeste e do Sul enfrentam maior exposição às sobretaxas, parte do Centro-Oeste deve sofrer efeitos limitados. Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul aparecem entre os menos afetados porque produtos como a carne bovina, importantes na pauta de exportações da região, ficaram fora das novas cobranças.
São Paulo, apesar de ser o maior exportador brasileiro para os Estados Unidos, apresenta impacto proporcional menor. Isso ocorre porque setores importantes da economia paulista, como a indústria aeronáutica e o suco de laranja, permaneceram isentos das novas tarifas.
Especialistas avaliam que os efeitos econômicos dependerão das características de cada produto. Mercadorias com poucos concorrentes internacionais ou sem substitutos imediatos tendem a manter demanda mesmo diante do aumento dos custos. Ainda assim, a nova política comercial dos Estados Unidos reforça a necessidade de diversificar mercados e ampliar a pauta exportadora dos estados mais dependentes das vendas para o mercado norte-americano.
A análise também evidencia que, embora o tarifaço tenha alcance nacional, seus impactos deverão ser sentidos de forma bastante desigual, exigindo estratégias específicas de adaptação por parte dos governos estaduais e do setor produtivo.
