Contratos da Seed com Rafain somam R$ 37,67 milhões; evento com diretores entrou na mira da Justiça Eleitoral
Secretaria da Educação firmou dois contratos com empresa; durante seminário realizado no local, mais de mil diretores participaram de jantar classificado pela própria campanha de Sandro Alex como evento eleitoral, episódio que posteriormente motivou decisão da Justiça
Por Ana Zimermann
Créditos: divulgação campanha Sandro Alex
A relação contratual entre a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed) e a Empresa Hoteleira Rafagnin Andreola Ltda., responsável pelo Rafain Palace Hotel & Convention, em Foz do Iguaçu, envolve dois contratos celebrados em 2025 que, juntos, alcançam R$ 37.669.999,96. Os contratos são destinados à execução e operacionalização de eventos de formação continuada da rede estadual e incluem serviços como hospedagem, refeições, coffee break e locação de espaços. Os valores globais, no entanto, não representam necessariamente aquilo que já foi efetivamente pago pelo Estado.
O assunto ganhou uma dimensão eleitoral em setembro de 2026. Isso porque o Rafain recebeu, entre 31 de agosto e 4 de setembro, o II Seminário de Diretores da rede estadual. No período do evento, mais de mil diretores participaram também de um jantar no qual o candidato ao Governo do Paraná Sandro Alex (PSD) apresentou propostas de campanha. O governador Ratinho Junior também esteve presente. A própria página oficial da campanha de Sandro Alex afirmou, em publicação de 2 de setembro, que o candidato havia participado naquele dia de “três eventos de campanha em Foz do Iguaçu”. Entre eles, a campanha incluiu o jantar privado com mais de mil diretores estaduais, no qual Sandro apresentou propostas de seu Plano de Governo para a área da Educação. Dias depois, a ligação entre a programação institucional e o ato político entrou na mira da Justiça Eleitoral.
Dois contratos chegam a R$ 37,67 milhões
A contratação da Empresa Hoteleira Rafagnin Andreola Ltda., CNPJ 78.095.023/0001-14, decorreu do Pregão Eletrônico nº 11/2025 da Secretaria da Educação. A homologação publicada no Diário Oficial registra a empresa como vencedora dos lotes 1 e 6. O Lote 1 foi homologado por R$ 18.880.000,00, enquanto o Lote 6 alcançou R$ 18.789.999,96. Juntos, os dois lotes somam R$ 37.669.999,96. O documento de homologação descreve entre os serviços contratados hospedagem, almoço, jantar, coffee break, água e locação de espaços.
O primeiro contrato, registrado no PNCP sob o controle 76416965000121-2-000087/2025, foi assinado em julho de 2025, no valor de R$ 18,88 milhões, com vigência original de 24 de julho de 2025 a 23 de julho de 2026. Seu objeto é a prestação de serviços especializados para execução e operacionalização dos eventos de formação continuada da Seed. Já o segundo instrumento, controle PNCP 76416965000121-2-000110/2025, foi assinado em agosto de 2025 pelo valor de R$ 18.789.999,96 e tem vigência registrada até 21 de agosto de 2028. O objeto é igualmente a operacionalização de eventos de formação continuada da Secretaria da Educação. Assim, quando ocorreu o II Seminário de Diretores de 2026, o segundo contrato estava dentro de sua vigência. É importante ressaltar que os R$ 37,67 milhões correspondem aos valores globais contratados, não ao custo de um único seminário nem necessariamente ao total já desembolsado.
Seminário reuniu diretores no Rafain
O sistema oficial de formação continuada da própria Seed confirma que o Grupo I do II Seminário de Diretores de 2026 foi realizado no Rafain Palace Hotel & Convention entre 31 de agosto e 2 de setembro. O segundo grupo participou da programação na sequência, completando o evento até 4 de setembro. O encontro institucional tinha como público diretores das escolas estaduais, chefes dos Núcleos Regionais de Educação e outros profissionais da rede pública. A justificativa oficial apresentada pela Secretaria era fortalecer a atuação dos gestores e a implementação das políticas educacionais. Foi justamente no dia 2 de setembro, quando a programação do seminário estava em andamento, que ocorreu o episódio posteriormente analisado pela Justiça Eleitoral.
Campanha chamou jantar com diretores de “evento de campanha”
Uma publicação feita no próprio site eleitoral de Sandro Alex oferece um registro particularmente relevante. O texto, publicado em 2 de setembro, afirma que Sandro participou de “três eventos de campanha em Foz do Iguaçu”, acompanhado, entre outros, pelo candidato ao Senado Alexandre Curi (Republicanos). Na sequência, a publicação informa que um desses encontros foi um jantar privado com mais de mil diretores da rede estadual de Educação.
Durante o jantar, segundo a própria campanha, Sandro Alex apresentou propostas de seu Plano de Governo, entre elas medidas relacionadas à alfabetização, ao programa Ganhando o Mundo e à formação de professores. A publicação informa ainda que o governador Ratinho Junior participou do jantar. Sandro Alex é o candidato apoiado pelo governador Ratinho Junior para sua sucessão no Palácio Iguaçu. Alexandre Curi, que concorre ao Senado, também integra a aliança política apoiada pelo governador. A própria campanha de Curi descreve a chapa como formada por nomes ligados à atual administração e voltada à continuidade do atual ciclo de governo.
Justiça apontou possível ligação entre estrutura oficial e ato eleitoral
O episódio acabou levado à Justiça Eleitoral no processo 0602244-86.2026.6.16.0000. Segundo decisão posteriormente divulgada, após a programação oficial da Educação, participantes teriam sido transportados de ônibus para outro evento, onde Sandro Alex e Alexandre Curi utilizaram o microfone e apresentaram propostas de governo. A decisão também registrou que o governador Ratinho Junior teria pedido votos para os candidatos e mencionado o papel dos educadores presentes como formadores de opinião em seus municípios e junto às famílias dos estudantes. Ainda conforme a decisão, foi tocado no encontro um jingle da campanha de Sandro Alex.
Ao analisar o caso em caráter liminar, a Justiça Eleitoral considerou que a sequência entre a atividade oficial e o ato político, somada à proximidade dos locais e ao transporte dos participantes, apresentava elementos que poderiam caracterizar possível desvio de finalidade e afetar a igualdade da disputa eleitoral. A decisão passou a proibir a utilização de eventos oficiais, servidores ou estruturas públicas para a promoção de atividades eleitorais. A ordem alcança especialmente situações em que participantes de eventos públicos recebam transporte, hospedagem ou alimentação pagos pelo Poder Público e, em conexão com a programação institucional, sejam conduzidos a atos de campanha. Foi estabelecida multa de R$ 100 mil por eventual descumprimento. A decisão é cautelar e não representa uma conclusão definitiva de que houve abuso de poder político ou econômico. O processo ainda deverá analisar as circunstâncias e responsabilidades atribuídas aos envolvidos.
Contratação pública e atividade eleitoral precisam ser separadas
O cruzamento dos documentos revela duas situações que precisam ser distinguidas. De um lado, há uma relação contratual formal entre a Seed e a empresa responsável pelo Rafain, com contratos globais que chegam a R$ 37,67 milhões, destinados à realização de eventos de formação continuada. De outro, existe o episódio eleitoral ocorrido durante o período do Seminário de Diretores, no qual servidores públicos reunidos em Foz do Iguaçu participaram de um jantar que a própria comunicação eleitoral de Sandro Alex classificou entre seus eventos de campanha.
A decisão da Justiça Eleitoral não estabelece que os R$ 37,67 milhões tenham sido empregados para financiar campanha eleitoral, nem permite atribuir o valor integral dos contratos ao seminário ou ao jantar. Os contratos atendem diferentes eventos e possuem vigências extensas. O questionamento jurídico é outro: se a mobilização, transporte, hospedagem, alimentação ou concentração de servidores em um evento custeado pelo Estado foi utilizada, direta ou indiretamente, como ponte para uma atividade de campanha eleitoral. Foi justamente essa conexão que levou a Justiça a impor a proibição cautelar de novos atos semelhantes.
Quanto foi efetivamente pago
Outro cuidado necessário é separar contratação de execução financeira. Os R$ 18,88 milhões e R$ 18,79 milhões são valores globais dos instrumentos. Para determinar quanto o Estado efetivamente gastou com o Seminário de Diretores é necessário identificar os respectivos empenhos, liquidações, ordens de serviço e notas fiscais. A reportagem buscou também individualizar os pagamentos feitos pela Seed ao CNPJ do Rafain em agosto de 2026, período imediatamente anterior ao seminário. Embora a proximidade da data, isoladamente, não seja suficiente para afirmar que determinado pagamento correspondeu ao Seminário de Diretores, é válido destacar que, no dia 29 de agosto foram realizados três pagamentos ao Rafain que, juntos, somam R$ 284.790,72. Separadamente, os valores são: R$ 2.843,04, R$ 35.501,28 e R$ 246.446,40.
O dado documentalmente estabelecido até aqui é que a Seed mantém uma relação contratual de dezenas de milhões de reais com a empresa responsável pelo complexo onde realizou seus eventos de formação; que mais de mil diretores reunidos em Foz participaram de um encontro reconhecido pela própria campanha como atividade eleitoral; e que a Justiça Eleitoral, posteriormente, impôs restrições justamente para impedir que estruturas, recursos ou públicos mobilizados pelo Poder Público sejam utilizados em benefício de candidaturas.
Créditos: Ana Zimermann
