Checagem: o que dizem os documentos sobre as declarações de Requião Filho na sabatina da RPC TV
Gazeta do Paraná confrontou afirmações do candidato ao Governo do Paraná sobre descontos do INSS, Copel e escolas cívico-militares com documentos e dados oficiais
Por Ana Zimermann
Créditos: divulgação Meio Dia Paraná/RPC
Declarações feitas pelo candidato ao Governo do Paraná Requião Filho (PDT) na sabatina realizada pela RPC TV abordaram: a investigação sobre descontos em benefícios do INSS, a situação da Copel, o modelo das escolas cívico-militares e o novo sistema de concessões rodoviárias do Paraná.
A Gazeta do Paraná selecionou quatro afirmações objetivas e confrontou o conteúdo com documentos oficiais e informações de órgãos responsáveis por cada tema. Opiniões políticas e avaliações subjetivas foram separadas dos fatos verificáveis.
1. Requião Filho diz que irregularidades nos descontos do INSS remontam a 2019
Classificação: VERDADEIRA COM RESSALVAS
O candidato do PDT afirmou que as irregularidades investigadas em relação aos descontos associativos do INSS remontam a 2019 e que o caso foi investigado durante o atual governo federal.
O que mostram os documentos
Documentos federais relacionados à Operação Sem Desconto apontam cobranças investigadas no período entre 2019 e 2024. Esse intervalo confirma que parte das irregularidades alcançadas pela investigação ocorreu a partir de 2019. Isso não significa, porém, que as irregularidades tenham sido descobertas ou formalmente investigadas desde aquele ano.
As apurações posteriores envolveram diferentes instituições, entre elas: Polícia Federal, Controladoria-Geral da União e Tribunal de Contas da União. O ano de 2019 corresponde ao início do período alcançado pelas apurações, mas é necessário diferenciar a ocorrência das cobranças do momento em que as investigações foram iniciadas.
2. Requião Filho afirma que Copel reduziu investimentos após privatização e que tarifa aumentou
Classificação: ENGANOSA
Ao criticar a transformação societária da Copel, Requião Filho afirmou que a empresa “diminui os investimentos no estado do Paraná” e associou a mudança na companhia ao aumento da tarifa de energia.
O que mostram os documentos
A tarifa efetivamente aumentou em 2026. A Resolução Homologatória nº 3.592/2026 estabeleceu efeito médio de 20,51% nas tarifas da Copel para o período iniciado em 24 de junho de 2026. A Agência Nacional de Energia Elétrica, entretanto, relacionou os principais efeitos do processo tarifário a fatores como custos de transmissão, encargos setoriais e componentes financeiros.
Já a alegação de queda dos investimentos não é sustentada pelos valores divulgados pela companhia. Em 2023, a Copel informou investimentos de aproximadamente R$ 1,878 bilhão na distribuição. Para 2024, o plano previa cerca de R$ 2,1 bilhões. Em 2025, a companhia informou R$ 2,7 bilhões aplicados no sistema elétrico, valor apresentado como recorde.
A tarifa aumentou, mas os dados divulgados pela companhia não mostram redução dos investimentos em distribuição após a mudança societária. A frase reúne um fato confirmado e outro que os números oficiais contradizem.
3. Requião Filho cita BNDES entre principais acionistas da Copel
Classificação: VERDADEIRA COM RESSALVAS
Ao falar sobre a composição acionária da companhia, Requião Filho citou o BNDES entre os principais acionistas da Copel. A informação foi registrada em discurso indireto pela reportagem.
O que mostram os documentos
A composição acionária oficial da Copel registra a BNDESPar com 19,8% das ações ordinárias. O Estado do Paraná aparece com 15,9%, além da ação preferencial especial, enquanto a maior parcela restante se encontra pulverizada no mercado. Há uma precisão importante: a participação pertence à BNDES Participações S.A., a BNDESPar, subsidiária do BNDES, e não diretamente ao banco.
Uma empresa integralmente controlada pelo BNDES está efetivamente entre os maiores acionistas individualmente identificados da Copel. A ressalva está na identificação formal do acionista.
4. Requião Filho diz que escolas cívico-militares não têm “diferença palpável” no currículo
Classificação: IMPRECISA
Durante a entrevista, Requião Filho afirmou que as escolas cívico-militares não apresentam “diferença palpável” em seu currículo em relação às escolas regulares.
O que mostram os documentos
“Diferença palpável” é uma expressão subjetiva e não pode ser medida objetivamente. É possível, contudo, verificar se os currículos são formalmente iguais. Para 2026, a Secretaria de Estado da Educação publicou a Instrução Normativa nº 004/2026, que institucionalizou o componente curricular Cidadania e Civismo nas instituições participantes do Programa Colégios Cívico-Militares.
Grande parte da matriz curricular é compartilhada com outras escolas estaduais, mas existe ao menos um componente específico do modelo. Os documentos mostram diferenças curriculares formais. A avaliação sobre elas serem ou não “palpáveis” permanece no campo da opinião.
O que mostram as quatro checagens
As declarações analisadas apresentam diferentes graus de correspondência com os registros públicos. A composição acionária da Copel confirma a presença da BNDESPar entre os principais acionistas identificados. Já a afirmação sobre os investimentos da Copel exige uma separação dos elementos: o aumento tarifário em 2026 ocorreu, mas os números divulgados pela companhia apontam crescimento, e não redução, dos investimentos na distribuição. Nas escolas cívico-militares, há diferenças curriculares formalmente previstas, enquanto a avaliação sobre a dimensão dessas diferenças é subjetiva.
A checagem considera as informações públicas disponíveis até 17 de setembro de 2026 e se limita aos elementos que podem ser demonstrados por documentos e bases oficiais.
