Tanure fatia a Ligga e vende ativos da ex-Copel Telecom
Venda da operação de fibra para a Brasil TecPar e negociações paralelas com a Unifique indicam desmonte progressivo da antiga estatal paranaense
Por Gazeta do Paraná
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O empresário Nelson Tanure iniciou a venda dos principais ativos da Ligga Telecom — antiga Copel Telecom — em um movimento que marca mais um capítulo do esvaziamento de um dos ativos de infraestrutura digital mais estratégicos já controlados pelo Estado do Paraná. A operação prevê a transferência da base de banda larga por fibra óptica para a Brasil TecPar, incluindo clientes residenciais, corporativos e contratos institucionais, em uma negociação estimada em cerca de R$ 500 milhões e que ainda depende de aval regulatório e da aprovação de credores.
Embora formalmente apresentada como uma reorganização empresarial, a venda ocorre em um contexto de forte pressão financeira. A estrutura montada por Tanure para adquirir a antiga estatal acumulou cerca de R$ 1,3 bilhão em dívidas, grande parte vinculada a debêntures emitidas para financiar a expansão e sustentar o custo da aquisição. Esse passivo coloca os credores no centro da operação e transforma a venda em uma reestruturação coordenada, na qual parte relevante do valor envolve a assunção de dívidas pelo comprador, e não apenas o pagamento direto pelos ativos.
A necessidade de aprovação por debenturistas, além de órgãos como Cade e Anatel, adiciona incertezas ao fechamento do negócio e revela a complexidade da engenharia financeira que sustenta a transação. Nos bastidores do mercado, a leitura predominante é que a venda responde menos a uma estratégia de reposicionamento e mais à urgência de geração de caixa, em um cenário em que credores passaram a exercer pressão crescente sobre o portfólio do empresário.
A alienação da operação de fibra, considerada o coração da Ligga, redesenha profundamente a companhia. Sem o ativo que concentra receitas recorrentes e capilaridade de mercado, a empresa tende a permanecer com estruturas residuais, como imóveis, créditos e participações societárias, um cenário que analistas costumam associar a processos de esvaziamento operacional. Na prática, isso acelera o ciclo iniciado com a privatização da Copel Telecom, consolidando a migração definitiva de um ativo público estratégico para uma configuração fragmentada sob controle privado.
O processo de desmonte ganha contornos ainda mais claros com a tentativa de venda separada do braço móvel. A divisão de 5G ficou fora do pacote negociado com a Brasil TecPar e vem sendo tratada em conversas paralelas com a operadora Unifique, indicando uma estratégia de fatiamento que busca maximizar liquidez por meio da alienação individualizada de ativos. Esse modelo, comum em reestruturações sob pressão, reforça a percepção de que o grupo optou por monetizar partes da operação em vez de preservar a integridade da empresa.
Caso a transação avance, a Brasil TecPar ampliará de forma significativa sua presença no Paraná, fortalecendo o movimento de consolidação entre operadoras regionais que vêm absorvendo ativos estruturados originalmente por estatais. O fenômeno acompanha uma tendência nacional de redistribuição do mercado de telecomunicações, em que empresas médias ganham escala ao incorporar redes construídas com forte participação pública nas décadas anteriores.
No contexto paranaense, o simbolismo é evidente. A Copel Telecom nasceu como um braço estratégico de infraestrutura digital do Estado, com papel relevante na expansão da conectividade regional. A venda fragmentada da Ligga sinaliza o desfecho definitivo desse ciclo, encerrando a trajetória de um ativo que, ao longo de anos, transitou de ferramenta estatal de desenvolvimento para peça de um rearranjo financeiro conduzido sob pressão de mercado.
Tanure aparece no entorno do caso Banco Master
A venda de ativos da Ligga ocorre em paralelo a um momento delicado para Nelson Tanure em outra frente: o ambiente de investigações e revelações envolvendo o colapso do Banco Master, instituição que entrou em liquidação após intervenção do Banco Central e que se tornou foco de apurações sobre relações societárias e fluxos financeiros atípicos.
Entre os elementos que chamaram atenção está a revelação de que Tanure indicou como endereço comercial um escritório localizado no mesmo prédio que abrigava o banco na avenida Faria Lima, em São Paulo, coincidência que ampliou questionamentos sobre a proximidade entre o investidor e a instituição financeira. O detalhe, aparentemente burocrático, ganhou peso no contexto de investigações que buscam mapear vínculos indiretos e eventuais estruturas de influência.
Apurações mencionam a hipótese de participação indireta por meio de fundos e arranjos societários complexos, tese que o empresário nega publicamente. A linha investigativa tenta esclarecer se houve atuação relevante nos bastidores da instituição, ainda que sem vínculo formal de controle, ponto que permanece em aberto e sem conclusões definitivas.
O caso também expôs relatos de divergências internas entre autoridades envolvidas nas investigações, com versões distintas sobre o alcance das apurações e o ritmo de aprofundamento das diligências. Essas fissuras adicionam uma camada de incerteza ao cenário e prolongam a nebulosidade em torno do escândalo.
Embora não haja acusações formais contra Tanure até o momento, a associação de seu nome ao entorno do caso amplia a pressão reputacional em um momento em que o empresário conduz uma ampla reorganização de ativos. A coincidência temporal entre a reestruturação financeira e a exposição em investigações de grande repercussão reforça a leitura de que o processo de desinvestimento ocorre sob múltiplas tensões, que vão além da dinâmica tradicional de mercado.
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