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“Eu quero que ele seja investigado. Eu quero que ele faça como eu fiz”, diz Lula sobre Lulinha

Presidente afirma confiar na inocência do filho, alvo de três inquéritos, mas diz ter orientado advogados a não buscar o encerramento das investigações; PF apura suspeitas de tráfico de influência e corrupção

Por Gazeta do Paraná

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“Eu quero que ele seja investigado. Eu quero que ele faça como eu fiz”, diz Lula sobre Lulinha Créditos: PT

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que não pretende agir para interromper as investigações que atingem seu filho, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e recorreu à própria trajetória na Operação Lava Jato para dizer como espera que ele enfrente as suspeitas.

“Eu quero que ele seja investigado, não tem problema nenhum. Eu só quero que ele faça como eu fiz”, declarou Lula em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, gravada no Palácio da Alvorada.

A declaração ocorre em um momento particularmente delicado para o governo. Lulinha é alvo de três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), dois sob responsabilidade do ministro André Mendonça e outro sob relatoria de Flávio Dino. As investigações apuram suspeitas de tráfico de influência e possíveis irregularidades relacionadas à atuação de empresários junto a órgãos do governo federal. 

Uma das principais frentes abertas recentemente pela Polícia Federal procura esclarecer se o filho do presidente atuou na intermediação de interesses privados junto ao Ministério da Saúde e ao próprio governo. A investigação envolve negócios relacionados ao mercado de cannabis medicinal e pessoas que também aparecem nas apurações do escândalo dos descontos indevidos do INSS. 

É nesse contexto que Lula, às vésperas do início oficial da campanha eleitoral, decidiu falar publicamente sobre o filho. Em vez de assegurar que Lulinha é inocente, o presidente estabeleceu uma diferença entre aquilo em que acredita como pai e aquilo que pode afirmar sobre as investigações.

“Ele jura, por tudo que é sagrado, que ele não tem nada. E eu acredito nele”, disse.

Mas Lula acrescentou que somente o próprio filho conhece integralmente os fatos. “Só ele sabe a verdade”, afirmou.

 

Três investigações

As declarações ganham peso pelo estágio alcançado pelas apurações.

No fim de julho, André Mendonça autorizou a abertura de um inquérito solicitado pela própria Polícia Federal para investigar suspeitas de corrupção e tráfico de influência. A PF pretende apurar se Lulinha e a empresária Roberta Luchsinger atuaram em favor da World Cannabis, empresa ligada a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. 

Segundo a investigação, a possível atuação teria ocorrido em assuntos relacionados à autorização e à comercialização de cannabis medicinal, envolvendo programas do Ministério da Saúde. O pedido da PF menciona contatos com servidores públicos, inclusive integrantes do gabinete presidencial. A existência da investigação, porém, não significa que os crimes tenham sido comprovados.

A relação entre Lulinha e o chamado Careca do INSS já vinha sendo analisada em outra frente. Antunes é apontado pela PF como um dos operadores centrais do esquema de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões, investigado pela Operação Sem Desconto. 

Entre os elementos que chamaram a atenção dos investigadores está uma viagem feita por Lulinha a Portugal em 2024, cujas despesas, segundo a própria defesa do empresário, foram pagas por Antunes. Os advogados afirmam que Fábio Luís foi convidado para conhecer a produção de medicamentos à base de canabidiol, sem qualquer compromisso comercial. Também sustentam que ele não participou das negociações, não investiu dinheiro nem recebeu pagamentos relacionados ao projeto. 

Outra linha investigativa surgiu a partir das próprias apurações da Operação Sem Desconto. A PF chegou a analisar citações a Lulinha e a hipótese de que ele pudesse ter mantido uma sociedade oculta com Antunes. Essa é uma linha de investigação, e não uma conclusão das autoridades. 

A defesa de Fábio Luís nega envolvimento em irregularidades e sustenta que ele não recebeu valores para intermediar interesses de empresários junto ao governo. 

 

“Ninguém vai pedir fechamento”

Ao falar sobre esse conjunto de suspeitas, Lula afirmou ter dado uma orientação específica aos advogados: não buscar uma solução jurídica destinada simplesmente a impedir que as investigações prossigam.

“Eu já disse aos advogados: ninguém vai pedir fechamento de processo do meu filho”, declarou.

Na entrevista, o presidente procurou apresentar essa posição como coerente com o discurso adotado desde que o nome de Lulinha começou a aparecer nas apurações. Em dezembro de 2025, Lula já havia afirmado que qualquer pessoa eventualmente envolvida no esquema do INSS deveria ser investigada, inclusive integrantes do governo e seu próprio filho. Na ocasião, também chamou Lulinha a Brasília para cobrar explicações pessoalmente. 

Agora, porém, o presidente avançou ao fazer uma comparação direta com sua própria história judicial.

 

“Faça como eu fiz”

A referência de Lula é aos processos da Lava Jato que resultaram em sua prisão em abril de 2018. O petista permaneceu 580 dias preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba e foi libertado em novembro de 2019.

As condenações que levaram Lula à prisão seriam posteriormente anuladas pelo STF por uma questão de competência: o Supremo concluiu que os casos não deveriam ter sido julgados pela 13ª Vara Federal de Curitiba. Com a anulação das condenações, Lula recuperou os direitos políticos.

Na entrevista, o presidente apresentou essa experiência como exemplo para o filho: se Lulinha sustenta que é inocente, deve enfrentar a investigação e buscar demonstrar isso.

“Porque só ele sabe a verdade. Ele jura que não fez. Se não fez, então brigue”, afirmou Lula.

A fala ganhou ainda um complemento incisivo.

“Se você é inocente, vá à luta. Se você é culpado, contrata o advogado”, disse.

Lula também associou o episódio atual ao impacto que a Lava Jato teve sobre sua família. Segundo o presidente, Lulinha acompanhou de perto aquele período e sabe o que ele enfrentou.

“O meu filho sabe o que eu passei na vida. Ele sabe, ele viveu. Ele viu a mãe dele morrer por conta da Lava Jato”, afirmou, atribuindo à operação consequências sobre a saúde e a morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia.

 

Caso entra no ambiente eleitoral

A manifestação também ocorre em um momento politicamente sensível. As investigações sobre Lulinha avançam justamente quando a disputa presidencial de 2026 entra na fase oficial de campanha.

O escândalo do INSS já foi incorporado à estratégia eleitoral da oposição. O plano de governo de Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula na corrida presidencial, explora o caso como instrumento de desgaste do governo e cita as investigações e a atuação da CPI que apurou as fraudes. 

O próprio Lula demonstrou perceber a dimensão eleitoral das acusações. Ao comentar o caso, afirmou que denúncias envolvendo seu filho costumam reaparecer em períodos eleitorais e disse que, se ficar comprovada alguma responsabilidade, Lulinha deverá responder por ela. 

A resposta escolhida pelo presidente tenta, assim, separar duas posições: a do pai, que afirma acreditar no filho, e a do chefe do Executivo, que diz não pretender impedir o trabalho da Polícia Federal e do Judiciário.

É justamente nessa separação que está o peso da frase usada por Lula. Ao dizer “eu quero que ele seja investigado” e “eu quero que ele faça como eu fiz”, o presidente não apenas defendeu pessoalmente Lulinha. Colocou sua própria experiência com a Lava Jato como parâmetro para o filho e, ao mesmo tempo, assumiu publicamente o compromisso de não pedir que as investigações sejam encerradas.

O resultado das apurações dirá se a comparação feita por Lula ficará restrita ao terreno político ou se acompanhará o presidente durante a campanha eleitoral que começa neste domingo.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp