O balanço mais recente divulgado pelas autoridades nepalesas aponta cerca de 353 mortos e 826 desaparecidos no Nepal. Já no lado tibetano, a China confirmou três mortes e informou que 558 pessoas estão desaparecidas. Somados, os números chegam a mais de 350 mortos e mais de 1.300 desaparecidos. Entre os desaparecidos, há centenas de estrangeiros, incluindo turistas e peregrinos.
A inundação repentina atingiu, na quarta-feira (26), áreas do Nepal e do Tibete chinês, na região do Himalaia. O desastre ocorreu após o colapso de uma massa de gelo e rochas na região de fronteira, desencadeando uma enorme corrente de água, lama e detritos que avançou pelos vales e atingiu comunidades, estradas e pontes. A destruição se concentrou principalmente no distrito de Rasuwa, no Nepal, e em áreas do condado de Gyirong, no Tibete, e atingiu localidades como Timure e Syabrubesi, além de áreas ao longo dos rios Bhote Koshi e Trishuli.
O que aconteceu
A sequência do desastre se iniciou nas montanhas do lado tibetano da fronteira: uma grande massa de gelo, rocha e sedimentos se desprendeu de uma geleira e desceu pelo terreno montanhoso, atingindo o sistema de rios da região e provocando uma espécie de represamento temporário, acumulando água e detritos.
Quando essa barreira cedeu, uma enorme quantidade de água, lama, gelo e pedras avançou rapidamente pelo vale. O fluxo atingiu o rio Lhende Khola, passou para o sistema do Bhote Koshi e posteriormente alcançou o Trishuli, levando a inundação para áreas mais distantes. O que tornou o episódio particularmente destrutivo foi que a corrente carregava rochas, gelo, lama e sedimentos, transformando-se em uma espécie de parede de detritos capaz de destruir construções e infraestrutura.
Foram destruídas ou danificadas estradas, pontes, casas e instalações de energia. No Tibete, o porto de Gyirong, uma importante passagem terrestre entre China e Nepal, também foi atingido.
Hipótese inicial do terremoto
Nas primeiras horas após o desastre, surgiu a hipótese de que um terremoto de magnitude 4,4 teria provocado a inundação.
Isso aconteceu porque equipamentos sísmicos registraram uma movimentação que inicialmente parecia compatível com um tremor de terra. A interpretação fazia sentido diante da velocidade com que a tragédia ocorreu e da localização em uma região de intensa atividade geológica.
Entretanto, análises posteriores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indicaram que a interpretação estava invertida: o sinal sísmico não teria sido a causa da inundação. Ele teria sido consequência do próprio movimento de gelo, rochas e sedimentos provocado pelo colapso da geleira.
Embora ainda não seja possível atribuir diretamente o desastre às mudanças climáticas, o aquecimento do Himalaia aumenta a instabilidade de geleiras e encostas e pode favorecer a ocorrência de eventos extremos desse tipo.
A geografia do Himalaia
A geografia da região também contribuiu para a dimensão da tragédia e para as dificuldades de resgate. Comunidades, estradas e estruturas de infraestrutura ficam concentradas nos vales, próximos aos rios e às rotas que conectam o Nepal e o Tibete, enquanto a região também recebe turistas e peregrinos que seguem em direção ao Monte Kailash, considerado sagrado por diferentes tradições religiosas. Com a destruição de pontes, estradas e estruturas de comunicação, comunidades ficaram isoladas e o acesso das equipes de emergência foi prejudicado.
No Nepal, o Exército e as forças de segurança participam das buscas, enquanto a China mobilizou equipes de emergência no Tibete. Entre os desaparecidos estão cidadãos de países como Índia, Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Canadá e Malásia. A força da água também arrastou corpos e detritos para áreas distantes do ponto inicial da inundação, obrigando as equipes a ampliar as buscas ao longo dos rios e em regiões cobertas por lama.

O risco de novos eventos
Mesmo depois de a primeira onda passar, o risco não termina. As autoridades seguem monitorando, ininterruptamente, rios, encostas e áreas onde houve acúmulo de água e detritos. Um dos principais temores é que novos bloqueios naturais sejam formados nos rios. Se essas barreiras se romperem, podem provocar uma segunda inundação repentina.
Também existe o risco de novos deslizamentos, especialmente porque a região continua instável depois do colapso da geleira. A situação se torna ainda mais preocupante diante da previsão de novas chuvas na região. Autoridades já alertaram para a necessidade de evacuação em algumas áreas que poderiam ser atingidas por uma nova onda.