Psiquiatra da USP alerta que apostas online ativam cérebro como álcool e cigarro
Especialista em ludopatia afirma que crescimento das bets representa uma "segunda onda" da dependência em jogos e defende maior responsabilidade de empresas e do poder público
Créditos: Reprodução/TV Cultura
O avanço das apostas esportivas e dos jogos online no Brasil tem provocado um aumento expressivo nos casos de dependência em jogos de azar, segundo o psiquiatra Hermano Tavares, professor da Universidade de São Paulo (USP) e referência nacional no tratamento da ludopatia.
Em entrevista ao programa Roda Viva, nesta segunda-feira (27), o especialista afirmou que o mecanismo cerebral acionado pelas apostas é semelhante ao provocado por substâncias como álcool e cigarro, tornando o comportamento altamente propenso ao desenvolvimento da dependência.
Fundador e coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas da USP, criado na década de 1990, Tavares acompanha a evolução desse tipo de transtorno há mais de três décadas.
Especialista compara avanço das bets a um "tsunami"
Segundo o psiquiatra, o Brasil já enfrentou uma primeira onda de pacientes com dependência em jogos durante o período de popularização dos bingos e das máquinas caça-níqueis.
Na avaliação dele, o cenário atual é muito mais preocupante em razão da expansão das plataformas digitais e da intensa publicidade das casas de apostas.
Para o especialista, o país vive atualmente o que chamou de "segunda onda" da ludopatia, classificando o momento como o "meio de um tsunami".
"Cassino no bolso" facilita o acesso
Hermano Tavares afirmou que a principal diferença entre o passado e o cenário atual é a facilidade de acesso às apostas.
Segundo ele, hoje o jogador não precisa se deslocar até um estabelecimento físico para apostar, já que todo o sistema funciona por meio do celular.
Na avaliação do psiquiatra, o cassino passou a estar disponível "a dois cliques de distância" ou "no bolso da calça", permitindo apostas em casa, no trabalho ou em qualquer outro ambiente.
Para o especialista, essa facilidade amplia significativamente o número de pessoas expostas ao risco de desenvolver dependência e aumenta a demanda por tratamento especializado.
Apostas estimulam o cérebro como outras drogas
Durante a entrevista, Tavares explicou que o ato de apostar ativa mecanismos neurológicos semelhantes aos observados no consumo de álcool, tabaco e outras drogas.
Segundo ele, a aposta funciona como um formador de hábito, estimulando o sistema nervoso central e aumentando a vontade de continuar jogando.
Por esse motivo, o psiquiatra defende que as apostas não sejam tratadas como um produto comum de entretenimento.
Especialista critica conceito de "jogo responsável"
Hermano Tavares também questionou o uso da expressão "jogo responsável", frequentemente adotada por empresas do setor.
Na avaliação do psiquiatra, o conceito transfere ao consumidor toda a responsabilidade pelos problemas decorrentes das apostas, da mesma forma que campanhas que recomendam o consumo de bebidas alcoólicas "com moderação".
Para o especialista, a expressão representa uma contradição, já que apostar envolve riscos financeiros e psicológicos.
Segundo ele, quem deseja agir de forma verdadeiramente responsável evita apostar, enquanto quem opta por jogar deve limitar ao máximo essa prática.
Responsabilidade deve ser compartilhada
O professor da USP defendeu que o enfrentamento da dependência em jogos de azar deve envolver três atores principais.
O primeiro é o próprio apostador, que deve ter consciência dos riscos e agir com responsabilidade.
O segundo é o Estado, que, segundo o especialista, precisa investir em campanhas de informação, ampliar o acesso ao tratamento na rede pública e manter uma regulamentação eficiente do setor.
Já a indústria das apostas deve evitar divulgar os jogos como forma de obtenção de renda ou enriquecimento e retirar das plataformas mecanismos que estimulem a falsa sensação de controle sobre os resultados.
Para Hermano Tavares, somente a atuação conjunta desses três agentes poderá reduzir os impactos do crescimento das apostas online e conter o avanço da dependência em jogos no país.
