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Produtores rurais pressionados por dívidas apostam em projeto no Senado para evitar colapso financeiro

Endividamento no campo supera R$ 170 bilhões e agricultores pedem prazos maiores, juros menores e condições para manter a produção ativa

Por Eliane Alexandrino

Produtores rurais pressionados por dívidas apostam em projeto no Senado para evitar colapso financeiro Créditos: Divulgação

O avanço do endividamento rural no Brasil tem levado produtores a vender patrimônio, diversificar atividades e buscar renegociações emergenciais para evitar o colapso financeiro das propriedades. Em meio à crise, agricultores apostam na aprovação do Projeto de Lei 5.122/2023, que tramita no Senado, como uma alternativa para ampliar prazos e facilitar a repactuação das dívidas do setor agropecuário.

No Rio Grande do Sul, um dos estados mais afetados pela crise no campo, produtores relatam dificuldades provocadas pela combinação entre juros elevados, perdas consecutivas de safra e queda no valor das commodities agrícolas. O endividamento rural no país ultrapassou R$ 170 bilhões em janeiro de 2026, segundo dados da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

A produtora rural Carla Krame, de Pedras Altas, no interior gaúcho, afirma que a situação financeira da propriedade se agravou após sucessivas frustrações de safra desde 2022. Segundo ela, estiagens prolongadas e enchentes reduziram drasticamente a produtividade da soja nos últimos anos.

Na safra 2022/2023, a produção ficou entre 10 e 12 sacas por hectare. Já em 2024/2025, considerada a melhor colheita recente, a produtividade chegou a 40 sacas por hectare, mas o resultado positivo foi absorvido pelas dívidas acumuladas anteriormente. Para a atual temporada, a expectativa voltou a frustrar os produtores, com rendimento estimado em cerca de 25 sacas por hectare, abaixo do necessário para cobrir os custos da atividade.

“Não estamos negando pagar dívida. Estamos pedindo ajuda para respirar”, relatou a produtora ao descrever o impacto financeiro da crise sobre as famílias rurais.

Além das perdas climáticas, produtores apontam que os juros elevados dificultam qualquer tentativa de reorganização financeira. A agricultora Vanessa Kuntzer, também de Pedras Altas, afirma que o principal problema atualmente é o comprometimento do fluxo de caixa até 2028, mesmo após renegociações bancárias.

Ela defende que os financiamentos sejam alongados por até dez anos para permitir a recuperação econômica das propriedades. Segundo Vanessa, alguns produtores têm recorrido a linhas de crédito consideradas inviáveis devido às taxas elevadas. Em um dos casos relatados, um agricultor recebeu proposta de empréstimo pessoal com juros de 76% ao ano.

A crise também tem impedido investimentos em soluções para enfrentar os eventos climáticos extremos. Projetos de irrigação, considerados essenciais para reduzir perdas provocadas pela seca, acabam inviabilizados pelo custo do financiamento e pelas dificuldades de acesso ao crédito.

Diante do cenário, produtores passaram a vender maquinários e até partes das propriedades para tentar reduzir dívidas. No entanto, segundo os agricultores, o alto nível de endividamento no setor reduziu o número de compradores disponíveis no mercado rural.

Outra estratégia adotada foi a diversificação da produção. Culturas como trigo, aveia, arroz e canola ganharam espaço nas propriedades, além da ampliação da pecuária como alternativa de renda e proteção financeira em períodos de quebra de safra.

O Projeto de Lei 5.122/2023 é visto pelo setor como uma possível saída para reorganizar o passivo rural. A proposta prevê mecanismos para facilitar a renegociação das dívidas agropecuárias em condições mais acessíveis. O texto tem apoio da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que busca aprovar a medida antes do lançamento do próximo Plano Safra.

Foto: Divulgação

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