Copel Estudante

Presidente da Anac diz que agência foi enganada pela Voepass com documentos falsos

Presidente da agência afirma que companhia aérea enviava informações falsas aos fiscais e reconhece mudanças no processo de fiscalização após acidente que matou 62 pessoas; relatório do Cenipa apontou a Anac como um dos fatores contribuintes para a queda

🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA
Presidente da Anac diz que agência foi enganada pela Voepass com documentos falsos Créditos: Isac Fontana / EFE

O presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Tiago Faierstein, afirmou que a agência foi enganada pela Voepass durante as fiscalizações realizadas antes da queda do avião que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. Segundo ele, a companhia aérea enviava documentos falsos à equipe técnica, fazendo com que irregularidades apontadas pelos fiscais fossem dadas como solucionadas, quando, na prática, os reparos não haviam sido executados.

A declaração foi dada em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, após a divulgação do relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), que apontou a atuação da Anac como um dos fatores contribuintes para o acidente.

Segundo o documento, falhas da companhia aérea, erros da tripulação e deficiências na fiscalização da agência formaram uma combinação de fatores que culminou na queda da aeronave.

Presidente da Anac diz que agência foi enganada

Questionado se, em resumo, a Anac havia sido enganada pela Voepass, Tiago Faierstein respondeu de forma direta.

"Eu posso dizer que sim. Muito sim. O nosso time técnico, o nosso corpo técnico, fez análises baseadas em documentos que não eram documentos verdadeiros."

Segundo o presidente da agência, durante as operações assistidas, os fiscais determinavam a substituição de componentes das aeronaves, mas posteriormente recebiam documentos indicando que o serviço havia sido realizado. Quando novas verificações eram feitas, constatava-se que o reparo não havia sido executado.

"Muitas das informações que a empresa nos enviava eram informações falsas. Eu vou citar um exemplo: na operação assistida, um fiscal da Anac chamava o mecânico da Voepass e falava assim: 'Você tem que trocar essa peça aqui'. Quando o fiscal ia lá ver, via que tinha o documento da troca, que ele tinha reportado a troca, mas que na prática não tinha trocado nada."

Agência já havia identificado degradação na operação

Faierstein afirmou que a equipe técnica da Anac vinha identificando problemas recorrentes na Voepass antes do acidente.

Segundo ele, os fiscais detectaram uma degradação gradual das condições operacionais da empresa, marcada por falhas de manutenção e informações falsas encaminhadas aos órgãos de fiscalização.

"Nesses anos anteriores ao acidente, o nosso time técnico detectou uma degradação. Foram vários problemas de manutenção, reportes mentirosos, que a companhia dizia que trocava um determinado equipamento ou não trocava. Ou fazia de uma maneira errada."

Apesar disso, a companhia permaneceu em operação.

Cenipa apontou dez notificações por falhas no sistema de degelo

O relatório final do Cenipa revela que, entre 2022 e 2024, a Anac notificou a Voepass dez vezes por irregularidades relacionadas ao sistema de degelo das aeronaves.

Segundo a investigação, a empresa informava que os reparos haviam sido realizados e mantinha os aviões em operação.

O sistema de degelo é apontado como um dos elementos centrais para o acidente.

A investigação concluiu que o ATR 72 decolou com esse equipamento inoperante e enfrentou sucessivos alertas de formação de gelo durante o voo.

Anac diz que relatório não aponta responsabilidade direta

Durante a entrevista, Faierstein afirmou que recebeu as conclusões do Cenipa com atenção, mas destacou que o relatório diferencia um fator contribuinte de uma responsabilização direta.

"O Cenipa aponta as ações da Anac como fator contribuinte. Não necessariamente diz que a Anac foi responsável pela queda do avião."

Ele afirmou que a agência pretende implementar todas as recomendações apresentadas pelo órgão de investigação.

"A aviação é um sistema muito complexo. Mas nós estamos olhando com muita humildade as recomendações do Cenipa para nós e vamos adotá-las."

Processo para suspender empresas será alterado

Segundo o presidente da Anac, uma das mudanças será na forma de decidir pela suspensão das operações de companhias aéreas.

Até então, essa avaliação ficava concentrada na área técnica da agência. Após o acidente, a decisão passará a ser submetida também à diretoria da Anac.

"É uma decisão muito subjetiva. Então nós estamos trazendo isso para a diretoria tomar a decisão."

Questionado se isso significaria reconhecer que a agência não atua apenas sob critérios técnicos, Faierstein respondeu que a instituição precisa ter uma visão mais ampla.

"Não digo político. Mas é um órgão que tem que ter uma visão matricial, uma visão de cima."

Ao ser perguntado sobre por que a empresa continuou operando mesmo após sucessivas irregularidades, ele voltou a afirmar que os fiscais identificaram as não conformidades, mas que as informações repassadas pela companhia mascaravam a situação.

"As fiscalizações foram feitas, foram detectadas não conformidades. Mas o que acontecia era que a empresa reportava à Anac que tinha feito a manutenção. E, na verdade, não tinha."

Relatório aponta falhas da empresa, da tripulação e da fiscalização

O relatório final do Cenipa, com 258 páginas, concluiu que o acidente foi provocado por uma combinação de fatores.

Entre eles estão falhas na gestão da Voepass, erros operacionais da tripulação e deficiências na atuação da Anac.

O documento aponta que a companhia mantinha uma cultura organizacional que permitia o adiamento de reparos considerados críticos para a segurança operacional.

Segundo a investigação, o sistema de degelo era um dos principais problemas. Durante o voo, a aeronave enfrentou sucessivos alertas de acúmulo de gelo nas asas.

Os investigadores concluíram que a tripulação manteve o avião em uma altitude favorável à formação de gelo, em vez de buscar um nível mais seguro. Com a perda de sustentação, a aeronave entrou em estol e, posteriormente, em um parafuso chato, situação considerada rara na aviação comercial.

Antes de atingir o solo, o avião perdeu aproximadamente 14 mil pés de altitude em cerca de um minuto.

Voepass defende procedimentos de segurança

Em nota, a Voepass afirmou que sempre adotou procedimentos rigorosos de segurança, manutenção e treinamento, além de destacar que seus pilotos eram experientes e certificados.

A Anac suspendeu definitivamente as operações da companhia em junho de 2025, cerca de dez meses após o acidente.

Com a divulgação do relatório final do Cenipa, as investigações criminais sobre a queda da aeronave continuam em andamento.

Acesse nosso canal no WhatsApp