Câmara aprova troca de imóvel de R$ 2 milhões sem saber o que URBS fará com área
Prefeitura entregará terreno no Vista Alegre em troca de dez lotes ambientalmente protegidos no Abranches; questionada em plenário sobre a finalidade do imóvel que ficará com a URBS, liderança do governo disse que buscaria a informação para o segundo turno
Por Gazeta do Paraná
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A Câmara Municipal de Curitiba aprovou, em primeiro turno nesta segunda-feira (14), uma permuta de imóveis entre a Prefeitura e a Urbanização de Curitiba (URBS) que movimenta patrimônio avaliado em cerca de R$ 2 milhões. O Município entregará à empresa pública um imóvel de 1.176 metros quadrados no Vista Alegre e receberá dez lotes na Colônia Abranches, que somam 5.938 metros quadrados. Apesar de a finalidade ambiental das áreas que ficarão com a Prefeitura estar detalhada, uma pergunta permaneceu sem resposta durante a votação: o que a URBS pretende fazer com o imóvel que receberá?
O questionamento foi levantado durante a discussão do projeto 005.00722/2025. A vereadora Giorgia Prates quis saber a destinação pretendida pela URBS para a área que passará ao patrimônio da empresa e também questionou a origem dos dez lotes oferecidos em troca, perguntando se eles teriam pertencido anteriormente ao Município. A parlamentar ainda chamou atenção para a operação ocorrer em um momento de mudanças no sistema de transporte coletivo.
A resposta sobre a futura utilização do imóvel não foi apresentada naquele momento. O líder do governo, Serginho do Posto, afirmou que buscaria a informação para apresentá-la aos vereadores no segundo turno da proposta. A permuta acabou aprovada em primeira votação por 19 votos favoráveis, seis contrários e uma abstenção.
Quase cinco vezes mais área
Documentos e informações oficiais sobre o projeto mostram que o patrimônio municipal entregue à URBS possui 1.176 metros quadrados e fica no Vista Alegre. A avaliação é de aproximadamente R$ 2,04 milhões.
Em contrapartida, a Prefeitura receberá dez lotes atualmente pertencentes à URBS na Colônia Abranches. Juntos, eles somam 5.938 metros quadrados e foram avaliados em aproximadamente R$ 1,99 milhão. Como o imóvel municipal possui valor superior ao conjunto oferecido pela empresa, a URBS deverá pagar ao Município a diferença, de aproximadamente R$ 49 mil.
A diferença de tamanho chama atenção. O Município entrega 1.176 metros quadrados e recebe pouco mais de cinco vezes essa área. Considerando os valores globais das avaliações, o imóvel do Vista Alegre está avaliado em cerca de R$ 1,7 mil por metro quadrado, enquanto o valor médio dos dez lotes do Abranches fica próximo de R$ 335 por metro quadrado.
A comparação isolada, porém, não permite concluir que exista distorção nas avaliações. Localização, zoneamento, possibilidade de construção e restrições ambientais interferem diretamente no valor de um imóvel. E justamente as características ambientais das áreas da URBS ajudam a explicar a diferença.
Áreas têm proteção ambiental
Os dez lotes que passarão ao Município possuem cobertura vegetal próxima de 100%, com bosque nativo relevante e presença de araucárias de grande porte. As áreas estão cadastradas junto à Secretaria Municipal do Meio Ambiente e parte delas também está sujeita a faixas não edificáveis relacionadas à drenagem e à preservação permanente.
Para a Prefeitura, entretanto, essas limitações estão diretamente relacionadas ao interesse público da operação. A intenção declarada é incorporar os terrenos às ações de revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio Belém, ampliando áreas destinadas à preservação ambiental e permitindo intervenções voltadas ao controle de assoreamento e à proteção da região do Parque São Lourenço.
Durante a discussão em plenário, a liderança governista defendeu que a finalidade pública dos terrenos está demonstrada no processo e destacou a existência de avaliações, matrículas e outros documentos que embasam a operação.
O ponto que permaneceu aberto é justamente o caminho inverso. Enquanto o processo apresenta justificativas para o interesse da Prefeitura nos dez terrenos da URBS, a destinação pretendida pela empresa para o imóvel do Vista Alegre não foi esclarecida durante a votação.
Oposição questiona informações
A falta de respostas também entrou nos argumentos da oposição. A vereadora Camila Gonda questionou se os parlamentares possuíam informações suficientemente organizadas e consistentes para autorizar uma operação patrimonial próxima de R$ 2 milhões.
Durante a discussão, foram levantadas dúvidas sobre avaliações, restrições ambientais, finalidade das áreas e a vantagem concreta da permuta para o patrimônio público. Camila votou contra a proposta.
A liderança governista rebateu as críticas e afirmou que o processo contém cerca de 40 páginas de documentação, incluindo avaliações e registros dos imóveis. Também argumentou que os dez lotes possuem finalidade ambiental definida e que as informações necessárias para a tramitação da proposta estavam presentes.
A aprovação em primeiro turno não encerra a tramitação. O projeto ainda precisa passar por nova votação na Câmara antes de seguir para sanção.
Gazeta busca esclarecimentos
A Gazeta do Paraná entrou em contato com a Prefeitura de Curitiba e com a URBS para esclarecer qual destinação a empresa pretende dar ao imóvel do Vista Alegre, quais razões levaram a URBS a propor ou aceitar a troca e se existe projeto definido para utilização ou eventual alienação da área.
A reportagem também busca esclarecer a origem dos dez lotes da Colônia Abranches, incluindo se algum deles já pertenceu anteriormente ao Município, além dos critérios utilizados nas avaliações dos imóveis envolvidos na operação.
Os questionamentos foram encaminhados após a discussão da proposta na Câmara nesta segunda-feira. A reportagem será atualizada com os esclarecimentos apresentados pela administração municipal e pela URBS.
Créditos: Redação
