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PF investiga operações de R$ 1,1 bilhão entre Banco Master e empresas ligadas a Nelson Tanure Créditos: Folhapress

PF investiga operações de R$ 1,1 bilhão entre Banco Master e empresas ligadas a Nelson Tanure

Documentos analisados pela Polícia Federal apontam que o Banco Master realizou mais de R$ 1,1 bilhão em operações financeiras com empresas ligadas a Nelson Tanure

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O Banco Master realizou ao menos R$ 1,112 bilhão em operações financeiras envolvendo empresas ligadas ao investidor Nelson Tanure, em um modelo que chamou a atenção da Polícia Federal por transferir rapidamente créditos para fundos de investimento de beneficiários desconhecidos.

Segundo os documentos obtidos pela reportagem, o banco concedia empréstimos milionários às empresas de Tanure e, em até uma semana - na maioria dos casos no mesmo dia -, vendia esses créditos para fundos de investimento estruturados especificamente para concentrar dívidas do empresário.

Na prática, o Banco Master registrava a dívida como quitada perante o Banco Central, enquanto Tanure passava a dever aos fundos privados, cujos cotistas finais não são identificados publicamente. Também não há informações sobre a quitação integral dessas obrigações.

A Polícia Federal suspeita que esse modelo fazia parte de um mecanismo utilizado para retirar recursos do Banco Master em benefício do grupo ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro. A investigação também apura a suspeita de que Nelson Tanure seria sócio oculto da instituição, hipótese negada pelo empresário.

Como funcionavam as operações investigadas pela PF?

Os documentos descrevem um padrão repetido ao longo de diversos anos.

Inicialmente, o Banco Master concedia empréstimos de dezenas de milhões de reais para empresas ligadas a Tanure. Poucos dias depois - frequentemente no mesmo dia -, o banco recebia o mesmo valor de um fundo de investimento e registrava o financiamento como liquidado.

Com isso, a dívida deixava de existir dentro do sistema bancário e passava a ser obrigação do empresário perante fundos privados, em operações que ocorriam fora do acompanhamento tradicional dos órgãos de fiscalização financeira.

Segundo a planilha apresentada pelo liquidante do Banco Master em ação judicial, esse mecanismo era utilizado de forma recorrente e aparece como um dos elementos usados para sustentar a acusação de que Daniel Vorcaro teria desviado recursos da instituição.

Banco Master realizou operações desde 2022

Os registros apontam que esse modelo de negociação ocorre pelo menos desde 2022.

Em maio daquele ano, o Banco Master emprestou R$ 15,2 milhões à construtora Gafisa e, no mesmo dia, vendeu esse crédito para a Lermont Participações, veículo de investimentos ligado a Nelson Tanure.

Pouco depois, a própria Lermont recebeu um empréstimo de R$ 86 milhões, que foi imediatamente transferido ao fundo Midgard, criado exclusivamente para concentrar dívidas do empresário.

Somente em 2022, o Banco Master registrou a venda de R$ 159 milhões em créditos originados de empréstimos concedidos a empresas ligadas a Tanure, entre elas Gafisa, Milos Participações e Lormont.

Volume de operações cresceu em 2024

A prática ganhou escala em 2024. De acordo com os documentos, o banco registrou R$ 774 milhões em operações envolvendo apenas a empresa Lormont.

Desse total, R$ 463 milhões foram adquiridos pelo fundo Genicart, um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) administrado pela Reag e criado especificamente para comprar essas dívidas.

No primeiro relatório trimestral, o próprio fundo informou a alienação de R$ 62 milhões em créditos por considerar que apresentavam "baixa perspectiva de recuperação", indicando reduzida expectativa de pagamento poucos meses após a concessão dos empréstimos.

Posteriormente, o Genicart acumulou sucessivos registros de inadimplência até ser liquidado em dezembro de 2025.

Fundos ligados às operações concentraram dívidas

Outra operação destacada envolve o fundo Yvrac, também administrado pela Reag.

Em maio de 2025, o fundo adquiriu R$ 115 milhões em créditos de empresas ligadas a Nelson Tanure.

Quatro meses depois, o Yvrac foi transferido pelo Banco Master ao Banco de Brasília (BRB) como parte da compensação por carteiras problemáticas negociadas anteriormente.

Documentos da área jurídica do BRB apontam que, naquele momento, o patrimônio do fundo era composto integralmente por ações da Alliança Saúde, companhia na qual Tanure investia por meio da Lormont.

Segundo a análise, a estrutura permitiu que o Banco Master adquirisse participação acionária na empresa sem aparecer formalmente como beneficiário final das ações. Atualmente, o fundo detém 10,9% da companhia.

Banco Master passou a vender créditos com deságio

Até 2024, as operações eram registradas pelos mesmos valores emprestados.

Esse padrão mudou durante a crise financeira enfrentada pelo Banco Master.

Em setembro de 2025, por exemplo, a instituição emprestou R$ 64,8 milhões à Gafisa, mas vendeu imediatamente o crédito ao fundo Yvrac por apenas R$ 43,7 milhões.

Em outra operação realizada três dias depois, o banco concedeu R$ 66,2 milhões à Sercomtel, operadora de telefonia do Paraná controlada por empresas ligadas a Tanure, e revendeu esse crédito por R$ 47,1 milhões.

Entre os dias 5 e 25 de setembro daquele ano, foram realizadas dez operações semelhantes, somando R$ 179 milhões em empréstimos revendidos no mesmo dia com deságio.

Segundo os documentos, apenas nesse período o Banco Master acumulou prejuízo de aproximadamente R$ 41 milhões, justamente em um momento de forte necessidade de capital e liquidez.

Outro caso citado envolve o fundo Bouliac. Inicialmente estruturado como fundo multimercado, ele foi transformado em FIDC para comprar R$ 304 milhões em dívidas da Ligga Telecomunicações e da Lormont junto ao Banco Master.

Dois meses depois, o fundo reportou R$ 237,1 milhões em créditos inadimplentes.

Na sequência, seu único cotista decidiu alterar novamente sua estrutura, transformando-o em um Fundo de Investimento em Participações (FIP), modalidade que permite ao veículo assumir participação societária nas empresas devedoras.

Auditorias apontaram falta de documentação  

As operações também despertaram questionamentos de auditorias independentes.

Responsável pela análise do fundo Ravena FIDC, que recebeu créditos originalmente concentrados no fundo Midgard, a RSM Brasil informou, nos exercícios de 2024 e 2025, não ter encontrado evidências suficientes para avaliar o valor dos ativos que compunham praticamente todo o patrimônio do fundo.

Segundo os relatórios, dos R$ 369 milhões em créditos existentes, apenas R$ 53 milhões haviam sido efetivamente pagos.

Outro caso envolve o fundo MAM Tokyo, administrado pela corretora do próprio Banco Master.

Após adquirir uma cédula de crédito bancário de R$ 32,7 milhões emitida contra a Milos Participações, o fundo recebeu o pagamento da dívida e aplicou R$ 31 milhões em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do próprio Banco Master.

Os documentos indicam que, desde então, os investimentos do MAM Tokyo passaram a manter relação direta com empresas de Nelson Tanure ou com títulos emitidos pelo Banco Master.

PF investiga estrutura envolvendo fundos de investimento

Além dos fundos Midgard, Genicart, Yvrac, Bouliac, Ravena e MAM Tokyo, a investigação também cita os fundos Astralo 95 e SDG II.

O Astralo 95 é apontado pela Polícia Federal como parte do suposto esquema investigado na Operação Carbono Oculto, enquanto o SDG II já havia sido identificado em apurações anteriores como veículo utilizado para ocultar dívidas de empresas ligadas ao Banco Master.

A reportagem procurou as assessorias de Daniel Vorcaro e Nelson Tanure para comentar as informações. Até a publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações.

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