Créditos: Arquivo//Fernando Frazão/Agência Brasil
Paraná é o estado mais violento do Sul, diz Atlas da Violência 2026
Estudo do Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que o estado registrou taxa de 18,6 assassinatos por 100 mil habitantes; levantamento também alerta para explosão de mortes de motociclistas
Apesar de apresentar índices inferiores à média nacional, o Paraná segue como o estado mais violento da região Sul do Brasil, segundo dados do Atlas da Violência 2026 divulgados nesta terça-feira (26). O levantamento, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que o estado registrou taxa de 18,6 homicídios a cada 100 mil habitantes em 2024.
O índice coloca o Paraná na 20ª posição do ranking nacional e acima dos demais estados da região Sul. Enquanto os paranaenses convivem com taxa de 18,6 mortes violentas por 100 mil habitantes, o Rio Grande do Sul aparece com 15,2 e Santa Catarina registra apenas 8,1 - menos da metade do índice paranaense.
Os dados foram produzidos a partir de informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ambos do Ministério da Saúde.
Embora o Brasil tenha registrado queda histórica nos homicídios, o cenário paranaense continua chamando atenção no comparativo regional. O país contabilizou 42.590 assassinatos em 2024, o equivalente a 20,1 homicídios por 100 mil habitantes, redução de 7,4% em relação a 2023 e o menor patamar desde o início da série histórica, iniciada em 2014.
Mesmo abaixo da média nacional, o Paraná permanece distante dos índices considerados mais baixos do país e mantém números significativamente superiores aos registrados em estados do Sul e Sudeste que vêm consolidando redução mais acelerada da violência letal.
No ranking nacional, os estados com maiores taxas de homicídio foram:
• Amapá — 45,7
• Bahia — 40,9
• Pernambuco — 37,3
• Alagoas — 35,9
• Ceará — 34,3
Na outra ponta, São Paulo apresentou a menor taxa do país, com 6,6 homicídios por 100 mil habitantes.
O Atlas da Violência também mostra que as desigualdades regionais continuam sendo determinantes para o avanço da criminalidade no Brasil. Norte e Nordeste concentram os índices mais elevados, impulsionados principalmente pela expansão de facções criminosas, disputas territoriais e fragilidade estrutural das forças de segurança pública.
Ainda assim, o Paraná aparece em uma posição desconfortável dentro da região Sul, especialmente quando comparado a Santa Catarina, que mantém uma das menores taxas de violência letal do país.
Outro dado destacado pelo levantamento é a concentração geográfica da violência. Entre os 20 municípios mais violentos do Brasil com mais de 100 mil habitantes, 17 estão localizados no Nordeste. Já as 20 cidades menos violentas se concentram exclusivamente nas regiões Sul e Sudeste.
Os pesquisadores apontam que fatores como urbanização consolidada, envelhecimento populacional, presença mais estruturada do Estado e melhores condições socioeconômicas ajudam a explicar os índices mais baixos registrados em parte do Sul do país. Mesmo inserido nessa região, o Paraná ainda apresenta números mais elevados do que seus vizinhos diretos.
O estudo também faz um alerta sobre a subnotificação de homicídios no Brasil. Apesar da queda histórica nos dados oficiais, os pesquisadores identificaram aumento de registros com causas indefinidas, o que pode mascarar parte da violência letal real no país.
TRÂNSITO VIRA OUTRO FOCO DE VIOLÊNCIA
Além dos homicídios, o Atlas da Violência 2026 dedica um capítulo específico ao crescimento das mortes no trânsito, tratado pelos pesquisadores como uma das principais formas de violência letal da atualidade.
Em 2024, o Brasil registrou 37.150 mortes em acidentes de trânsito. O principal fator para a alta foi o crescimento das ocorrências envolvendo motocicletas, responsáveis por 41,6% de todas as mortes viárias no país.
Segundo o levantamento, a expansão dos aplicativos de entrega e transporte alterou profundamente a dinâmica da mobilidade urbana brasileira, transformando a motocicleta em instrumento de sobrevivência econômica para milhares de trabalhadores.
Entre 2019 e 2024, o número de mortes envolvendo motos cresceu 38% no Brasil, saltando de 11.182 para 15.459 óbitos.
Os pesquisadores relacionam esse avanço à precarização das relações de trabalho, às jornadas extensas, à pressão por produtividade e à ausência de proteção social para trabalhadores de aplicativos.
“O trabalhador passa mais tempo exposto ao trânsito, muitas vezes em condições precárias e sob pressão financeira constante”, aponta o relatório.
Em alguns estados, o cenário é ainda mais alarmante. No Piauí, por exemplo, as motocicletas estiveram envolvidas em 72,7% das mortes no trânsito registradas em 2024.
Embora o estudo destaque principalmente estados do Norte e Nordeste nesse tipo de ocorrência, o crescimento acelerado do uso de motocicletas também preocupa especialistas em cidades médias e grandes do Paraná, onde o avanço dos serviços de entrega por aplicativo aumentou significativamente nos últimos anos.
O Atlas da Violência 2026 marca dez anos da parceria entre o Ipea e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública no monitoramento da violência no país e reforça que, apesar da redução nacional dos homicídios, o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais ligados à segurança pública, desigualdade social, crime organizado e precarização das condições de trabalho.
