Pagamentos, assédio e nepotismo: relatório expõe crise em fundação ligada à UTFPR
Comissão criada pela própria FUNTEF apontou pagamentos considerados indevidos, contratos sob suspeita, nepotismo cruzado e relatos de assédio moral; prejuízo estimado supera R$ 90 mil e caso já resultou em investigação do Ministério Público
Por Gazeta do Paraná
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Uma denúncia anônima recebida em setembro de 2025 desencadeou uma investigação que acabou revelando um cenário de suspeitas envolvendo pagamentos, contratos, viagens internacionais, nepotismo cruzado e denúncias de assédio moral em uma fundação ligada à Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). O caso culminou na instauração de um Inquérito Civil pelo Ministério Público do Paraná e pode resultar em ações para ressarcimento de valores apontados como prejuízo aos cofres da entidade. Os fatos estão descritos em um Relatório Final produzido por uma Comissão de Investigação Interna criada pela própria Fundação de Apoio à Educação, Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico da UTFPR (FUNTEF-PR). O documento foi elaborado após meses de análise de documentos financeiros, contratos, e-mails, pesquisas internas, registros administrativos e demais elementos reunidos pela comissão. O relatório concentra-se principalmente em atividades vinculadas ao Campus Curitiba da UTFPR, especialmente no Curso de Especialização em Engenharia Automotiva e em processos relacionados ao vestibular da universidade. A denúncia que abriu a caixa-preta A investigação teve origem em uma denúncia encaminhada à fundação relatando supostas irregularidades praticadas durante a gestão anterior. O documento mencionava favorecimento em contratações, pagamentos sem justificativa adequada, utilização de recursos da fundação para despesas particulares, conflitos de interesse e denúncias de assédio. Diante da gravidade das acusações, a FUNTEF instituiu uma Comissão de Investigação Interna para verificar os fatos. Ao final dos trabalhos, os investigadores concluíram que diversos pontos levantados pela denúncia mereciam encaminhamento aos órgãos de controle e responsabilização dos envolvidos. Os pagamentos sob suspeita Um dos principais eixos da investigação envolve pagamentos relacionados ao Curso de Especialização em Engenharia Automotiva e à estrutura de auditoria do vestibular da UTFPR. Segundo o relatório, o servidor da UTFPR Osvaldo Verussa Júnior recebeu aproximadamente R$ 95,5 mil por atividades vinculadas ao curso de especialização e outros R$ 80 mil pela atuação como auditor externo do vestibular. A comissão afirma que não localizou documentos capazes de demonstrar a necessidade da contratação para a função de auditoria, tampouco relatórios que comprovassem as atividades executadas. O relatório também analisa pagamentos vinculados ao então diretor-superintendente da FUNTEF, Jorge Luiz de Sá Riechi, relacionados ao mesmo curso e a atividades ligadas ao vestibular. Para a comissão, os fatos exigem aprofundamento por parte dos órgãos competentes, especialmente em relação à compatibilidade das atividades remuneradas com as funções exercidas pelos envolvidos. Viagem internacional e diárias questionadas Outro capítulo da investigação envolve uma missão internacional denominada “Cidade Inteligente 2024”, realizada na Dinamarca, Suécia e Noruega. Segundo o relatório, a FUNTEF custeou integralmente a participação do então diretor-superintendente no programa, incluindo passagens, hospedagem, alimentação, material didático e demais despesas previstas no pacote. Apesar disso, a comissão identificou a concessão adicional de diárias que ultrapassaram R$ 19 mil. Os investigadores registraram que a hospedagem e parte das despesas já estavam contempladas na contratação original da viagem, motivo pelo qual os pagamentos passaram a integrar o conjunto de valores considerados passíveis de ressarcimento. Também foram identificados reembolsos e pagamentos em duplicidade relacionados a hospedagens e alimentação em viagens nacionais. Contratações sem concorrência A empresa JZ Impressões aparece em diversos trechos da investigação. Segundo a comissão, foram identificadas contratações diretas realizadas sem parecer jurídico, sem pesquisa formal de preços e sem justificativas técnicas suficientes para demonstrar a inviabilidade de competição. A empresa teria sido responsável por serviços gráficos ligados ao vestibular e a materiais institucionais da fundação. Embora a comissão não tenha apontado a existência de crime, recomendou que os contratos sejam analisados pelos órgãos competentes para verificar sua regularidade. Assédio moral e ambiente organizacional Um dos pontos mais sensíveis do relatório trata das denúncias de assédio moral. A comissão afirma ter reunido documentos, gravações de reuniões, pesquisas de clima organizacional, relatos de colaboradores e registros provenientes de ação trabalhista envolvendo ex-funcionários da fundação. Segundo os investigadores, o conjunto de elementos analisados apresenta indícios compatíveis com denúncias de assédio moral atribuídas ao então diretor-superintendente. O documento descreve um ambiente de trabalho marcado por conflitos internos, reclamações formais de trabalhadores e episódios que teriam contribuído para o desgaste das relações institucionais dentro da fundação. Nepotismo cruzado O relatório também aponta a contratação de familiar de um servidor público federal que exercia simultaneamente funções na UTFPR e no Conselho Fiscal da FUNTEF. Para a comissão, a situação caracteriza nepotismo cruzado e representa uma das irregularidades verificadas durante a investigação. O caso foi incluído entre os fatos que deveriam ser comunicados aos órgãos responsáveis pela fiscalização. Prejuízo superior a R$ 90 mil Após analisar pagamentos, reembolsos, diárias e contratos, a FUNTEF informou ao Ministério Público que o prejuízo estimado inicialmente alcançava R$ 100,6 mil. Posteriormente, após revisão dos cálculos, o valor foi ajustado para R$ 91.048,54. A atual gestão informou ainda que pretende submeter o caso ao Conselho Curador da fundação e avaliar o ajuizamento de ações para buscar o ressarcimento dos valores considerados indevidamente pagos. Ministério Público amplia investigação Os documentos mostram que a própria FUNTEF encaminhou ao Ministério Público os resultados da investigação interna. Após receber o relatório, solicitar esclarecimentos e acompanhar as providências adotadas pela fundação, a Promotoria de Justiça das Fundações e do Terceiro Setor decidiu converter a Notícia de Fato em Inquérito Civil. O objetivo é aprofundar a apuração sobre eventual desvio de finalidade e possível lesão ao patrimônio fundacional. Até o momento, não há decisão judicial ou conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos citados. As investigações seguem em andamento tanto no âmbito do Ministério Público quanto nas apurações administrativas relacionadas à UTFPR.
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