Pacientes com lesão medular já apresentam primeiros sinais de resposta após aplicações em Cascavel e Foz
Procedimento inédito no HUOP reacende esperança em casos graves; neurocirurgião Lázaro de Lima detalha critérios, resultados iniciais e próximos passos do estudo
Créditos: Papinha
A aplicação inédita da polilaminina no Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP), em Cascavel, já apresenta os primeiros sinais clínicos em pacientes com lesão medular aguda. O procedimento, realizado por equipe médica da região Oeste em parceria com pesquisadores do Rio de Janeiro, marca um avanço histórico na medicina paranaense.
A Gazeta do Paraná acompanhou o caso na semana passada. Agora, os primeiros indícios de resposta ao tratamento começam a ser observados. E em entrevista ao Podcast Gazeta Entrevista, o neurocirurgião e professor da Unioeste, Lázaro de Lima, integrante da equipe responsável pela aplicação em Cascavel, explica que o uso foi autorizado por meio de uso compassivo pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mecanismo que permite acesso a terapias experimentais em situações específicas.
“É um medicamento em fase de testes, com estudos pré-clínicos promissores e estudo clínico inicial também animador. Isso motiva a comunidade científica e traz esperança aos pacientes”, afirmou.
Na região Oeste, dois pacientes receberam a aplicação um em Foz do Iguaçu e outro em Cascavel. A equipe de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), liderada pela médica Tatiana Sampaio, veio ao Paraná para realizar os procedimentos.
“Na região Oeste foram dois casos. A equipe do Rio veio no sábado pela manhã para Foz do Iguaçu e, à tarde, realizou o procedimento conosco em Cascavel”, relatou Lima.
Cascavel e Foz do Iguaçu realizam aplicação inédita de polilaminina em pacientes com lesão medular
Primeiros sinais
No HUOP, o paciente é Wagner Felipe de Lima, de 23 anos, vítima de trauma raquimedular grave após acidente recente. Ele passou por cirurgia de descompressão das vértebras T3 e T4 antes de receber a polilaminina. Segundo o médico, os primeiros sinais são positivos, mas ainda iniciais.
“A resposta é progressiva, não acontece do dia para a noite. O paciente de Palotina, que recebeu a aplicação em Foz, já apresentou movimentos no braço esquerdo que não tinha antes. Em Cascavel, o paciente já demonstra avanço na sensibilidade abdominal, que antes não existia”, explicou.
A aplicação é única neste momento do estudo e ocorre em dois pontos próximos à lesão, acima e abaixo, para estimular o crescimento dos axônios, estruturas responsáveis pela transmissão dos impulsos nervosos.
Critérios rigorosos
O neurocirugião fala que o tratamento, nesta fase, é destinado apenas a pacientes maiores de 18 anos, com lesões medulares agudas preferencialmente com menos de três dias e no máximo 90 dias e com déficit neurológico completo.
“O uso agora está focado em pacientes com lesão muito grave, que não têm movimento nem sensibilidade abaixo do nível da lesão. Quando se consegue recuperar qualquer função nesses casos, isso já representa esperança real de melhora na qualidade de vida”, destacou o neurocirurgião.
Pacientes em fase crônica devem buscar informações diretamente junto ao Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) do Laboratório Cristália, responsável pela produção do medicamento.
Protagonismo de Cascavel
Para Lima, a participação do HUOP no estudo reforça o papel científico da instituição. “O HU é um polo de ciência por meio da Unioeste. A vocação para pesquisa e inovação reflete em benefícios diretos para a população. É motivo de grande felicidade ver Cascavel inserida em um estudo nacional tão promissor”, afirmou.
Ele ressalta que o hospital atende cerca de dois milhões de pessoas da região e atua em baixa, média e alta complexidade, consolidando-se como referência em saúde pública.
Em Foz do Iguaçu, o procedimento foi realizado pela equipe da médica Tatiana Sampaio, com os neurocirurgiões João Elias El Sarraf, Bruno Cortez e o pesquisador Arthur Luiz. O paciente é William Kerber Carboni, ex-atleta do Suzano Vôlei, que sofreu lesão medular cervical em C3 após acidente automobilístico. Até o momento, não houve registro de complicações relacionadas ao uso da substância.
As aplicações realizadas em Cascavel e Foz do Iguaçu representam um passo relevante na assistência a pacientes com lesão medular no Paraná, aliando ciência nacional, inovação tecnológica e atuação de equipes médicas da região Oeste.
O que é a polilaminina
A polilaminina é um composto desenvolvido em laboratório a partir da laminina, proteína presente no organismo humano e fundamental na formação dos tecidos durante o desenvolvimento embrionário.
Após 25 anos de pesquisa, a professora Tatiana Coelho de Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, apresentou resultados promissores para o tratamento de lesões medulares.
O estudo é baseado na laminina, proteína extraída da placenta, que atua na modulação celular e na reorganização de tecidos do sistema nervoso. A partir dessa pesquisa foi desenvolvida a polilaminina, medicamento experimental aplicado diretamente na coluna. Nos testes realizados, pacientes com perda de movimentos após lesões na medula espinhal apresentaram recuperação parcial ou total da mobilidade.
Resultados positivos já foram observados em testes com animais e em um pequeno grupo de pessoas. Atualmente, o medicamento está na fase 1 de estudo clínico, focada na avaliação de toxicidade.
Quando procurar um neurologista
Lázaro de Lima também reforça a importância da avaliação neurológica em diferentes fases da vida. “A consulta deve acontecer sempre que houver alteração no desenvolvimento neurológico da criança ou sintomas como dor de cabeça persistente, tontura, dificuldade escolar, esquecimento ou alterações na fala”, orientou.
Segundo ele, muitos pacientes se acostumam com sintomas como dores de cabeça frequentes e deixam de buscar avaliação especializada.
“Qualquer sintoma neurológico precisa ser analisado de forma adequada. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de tratamento eficaz”, concluiu.
Foto: Papinha
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