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O menino que preferia a rua à própria casa: a história de Anderson, que encontrou no esporte uma saída para a violência

Após uma infância marcada pela violência, Anderson encontrou no skate uma forma de transformação e hoje usa o esporte para criar oportunidades na periferia de Cascavel

Por Julia Maraschi

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O menino que preferia a rua à própria casa: a história de Anderson, que encontrou no esporte uma saída para a violência Créditos: Divulgação

Para algumas crianças, a rua é sinônimo de brincadeira. Para Anderson Imperator, ela foi, por um período da infância, um lugar mais seguro do que a própria casa. Em entrevista ao podcast Mais+, na segunda-feira (24), o instrutor de skate e coordenador do Instituto Veneza relembrou a época em que, aos cinco anos de idade, preferia comer comida do lixo e dormir em casas abandonadas, galinheiros e até casas de cachorro a voltar para um lar marcado pela violência. Foi ainda nesse período que o skate entrou em sua vida e, pouco a pouco, se tornou uma forma de escapar daquilo que não conseguia mudar.

A aproximação com o esporte aconteceu quando Anderson foi acolhido por uma família moradora da favela do Cascavel Velho. Um dos integrantes era skatista e apresentou a modalidade ao menino, que já observava os praticantes na antiga pista do Lago Municipal. O que começou como curiosidade ganhou outro significado à medida que Anderson passou a usar o skate para sair de casa, espairecer a mente e aliviar a raiva e a revolta provocadas pela realidade que enfrentava.

A pessoa que o apresentou ao esporte, entretanto, também teve um destino marcado pela violência. Segundo Anderson, ele acabou sendo recrutado pelo crime organizado e morreu em decorrência da criminalidade.

O skate, para Anderson, tomou outro caminho. Tornou-se uma forma de escapar, ainda que momentaneamente, da realidade que enfrentava dentro de casa. “Era uma forma de acalmar o coração e poder descarregar a raiva”, conta.

Quando precisava retornar para casa, inclusive por determinações do Conselho Tutelar, Anderson encontrava no skate uma maneira de sair daquele ambiente por algumas horas. Andava pelas ruas, frequentava diferentes lugares e utilizava o esporte como uma forma de aliviar a revolta acumulada.

Anos depois, aquilo que havia funcionado como fuga para o menino se transformaria em propósito para o adulto.

O menino que não teve oportunidade

Anderson conta que sempre teve talento para o skate, mas não encontrou, durante a juventude, alguém que enxergasse nele a possibilidade de se tornar um atleta. “Eu era um extraordinário skatista no meu tempo, mas eu não tive oportunidade”, relata.

Foi justamente a ausência dessa oportunidade que passou a orientar parte de seu trabalho. Antes de existir um projeto formal, ele já construía obstáculos e permitia que crianças da comunidade utilizassem o espaço. Quando percebeu que muitos queriam praticar, mas não tinham equipamentos, passou a comprar skates e doá-los.

Em 2019, durante a Marcha para Jesus, decidiu transformar o que até então era um hobby em ativismo social. Construiu obstáculos em uma quadra e começou a ampliar o trabalho com as crianças.

O projeto cresceu, mas também revelou uma realidade maior do que a pista de skate. “Ali a gente não é um projeto social, a gente é uma família”, afirma.

Hoje, Anderson é instrutor de skate e coordenador do Instituto Veneza, instituição sem fins lucrativos que atua na região sul de Cascavel, entre áreas como Colina Verde e Jardim Presidente. A entidade atende cerca de 40 crianças na oficina de skate aos sábados e mantém seis atletas que representam o município em competições. O instituto também trabalha com os patins e apoia iniciativas ligadas à cultura hip hop.

O skate é apenas a porta de entrada

“O skate é uma desculpa pra gente adentrar nos lares”, explica Anderson.

Ao acompanhar os alunos, ele passou a conhecer também as necessidades das famílias. Roupas, calçados, alimentos, apoio psicológico e oportunidades de qualificação profissional passaram a fazer parte das demandas encontradas pelo projeto.

Segundo Anderson, aproximadamente 90% dos lares atendidos são formados por mães solo. Para ele, olhar apenas para a criança sem compreender a estrutura familiar significa ignorar parte do problema.

A atuação, por isso, não termina quando a aula acaba. Há mães que procuram Anderson quando precisam conversar sobre o comportamento dos filhos. Há adolescentes que recebem cobranças sobre responsabilidade, horários e convivência familiar. E há situações em que ele próprio procura os alunos para conversar. A relação construída ultrapassa a de professor e aluno.

Quando a oportunidade disputa espaço com o crime

A experiência pessoal também influencia a maneira como Anderson enxerga a entrada de crianças e adolescentes na criminalidade. Para ele, o recrutamento pelo crime organizado não pode ser analisado apenas pela perspectiva da escolha individual. É preciso observar as condições em que essas escolhas acontecem.

Famílias em situação de extrema pobreza, ausência paterna, dificuldades financeiras e falta de oportunidades podem deixar crianças e adolescentes mais vulneráveis ao aliciamento.

Anderson resume a lógica que observa nas comunidades em uma frase: “O crime ganha a pessoa na necessidade dela”. A partir dessa percepção, o Instituto Veneza procura oferecer outras possibilidades de pertencimento. A criança pode encontrar no esporte, na cultura ou na educação uma atividade que ocupe seu tempo e, principalmente, faça com que ela perceba que possui outras possibilidades para o futuro.

Para Anderson, a assistência social também precisa ir além da ajuda imediata. Cestas básicas, roupas e alimentos atendem necessidades urgentes, mas não necessariamente rompem o ciclo de vulnerabilidade.

Ele defende políticas que combinem benefícios sociais com educação, qualificação profissional e encaminhamento para o mercado de trabalho, especialmente para mães que precisam conciliar a criação dos filhos com a busca por renda.

A ideia é evitar que a vulnerabilidade seja reproduzida de uma geração para outra. “Você pode ser diferente da tua família, você pode quebrar essa corrente, esse ciclo”, diz aos jovens que acompanha.

Uma oportunidade pode mudar uma família

Entre as histórias que Anderson carrega está a de uma família que, segundo ele, estava envolvida com o tráfico de drogas e recebia auxílio da instituição. O contato com os integrantes da família revelou que havia o desejo de abandonar a criminalidade, mas também uma barreira para isso: a dificuldade de conseguir emprego por causa dos antecedentes criminais.

Anderson decidiu procurar um empresário conhecido e pedir uma oportunidade para o casal, e a chance foi concedida.

Segundo ele, mais de quatro anos depois, os dois continuam trabalhando, deixaram o crime organizado, mudaram de bairro e reconstruíram a vida. O menino que fazia parte do projeto deixou o skate, mas passou a trabalhar e fazer cursos. Para Anderson, a história representa aquilo que ele procura defender: uma oportunidade pode ter mais impacto do que uma ajuda momentânea, “eu sempre falo para as pessoas: qual que é o suporte que eu posso te dar?”, afirma.

Do bairro para a praia

Entre os resultados que mais emocionam Anderson estão as experiências que os alunos passaram a viver por meio do esporte.

Em uma competição realizada em Paranaguá, parte dos atletas conheceu o mar pela primeira vez. Eles ficaram hospedados em um sobrado próximo à praia, comeram em restaurantes, conheceram pontos turísticos e participaram de uma competição na qual o grupo voltou para Cascavel com o primeiro lugar.

Mais do que uma viagem para disputar um campeonato, para Anderson aquilo representava acesso, já que ele próprio não teve a oportunidade de receber esse tipo de incentivo quando era jovem.

A viagem também mostra aos alunos uma realidade que, muitas vezes, parecia distante. O esporte passa a ser uma possibilidade de conhecer outros lugares, disputar competições e construir relações que vão além da comunidade onde vivem.

Hoje, além das oficinas, o Instituto Veneza busca ampliar essas oportunidades e trabalhar com diferentes expressões culturais e esportivas.

A herança de quem também foi acolhido

O trabalho de Anderson, porém, não nasceu apenas de sua relação com o skate. Parte dele vem das pessoas que o ajudaram durante a infância. Ele cita a madrinha, dona Laícia, e Clarice Firgus como referências na atuação social na região sul de Cascavel. Anderson lembra especialmente do projeto Esporte Solidário e das ações de distribuição de alimentos realizadas na comunidade.

Entre as memórias está a de uma das primeiras casas de sopa da cidade, onde, ainda criança, ele e outras crianças podiam comer gratuitamente, a comida, segundo ele, era preparada com cuidado e atendia centenas de famílias. E a lembrança permaneceu.

Quando teve condições de ajudar outras pessoas, Anderson passou a reproduzir aquilo que havia recebido: acolhimento. E carrega as marcas daqueles que não conseguiram sair da mesma realidade.

Ele afirma que cerca de 80% dos amigos com quem cresceu morreram. Alguns foram vítimas do crime organizado; outros, segundo seu relato, morreram em confrontos com a polícia.

Diante dessa trajetória, Anderson conta que pediu a Deus uma ferramenta de transformação para atuar dentro da própria comunidade e impedir que outras crianças vivessem aquilo que ele viveu. E a resposta, para ele, estava no skate.

O legado que começa na pista

O que começou com obstáculos improvisados em uma quadra se transformou em uma rede de apoio que hoje reúne esporte, cultura e assistência social. A instituição pretende ampliar as atividades e trabalhar com uma turma de skate voltada a 50 crianças da comunidade, por meio do Pró-Esporte Paraná. Também estão previstas ações sociais de Dia das Crianças em quatro comunidades de Cascavel: Jardim Veneza, Cascavel Velho, 14 de Novembro e Jardim Interlagos.

A programação anunciada para outubro deverá reunir atividades esportivas e culturais, como competições de skate, batalha de rima, break dance, apresentações musicais e alimentação gratuita.

Mas, para Anderson, o tamanho do projeto não é medido apenas pelo número de crianças atendidas, é medido pelas possibilidades que aparecem quando alguém decide acreditar nelas.

O menino que um dia precisou da rua para escapar da violência encontrou no skate uma forma de sobreviver à própria infância. O homem que veio depois decidiu fazer do mesmo esporte uma porta aberta para outras crianças.

Ele não teve alguém que dissesse que seu talento poderia levá-lo mais longe. Agora, procura ser essa pessoa para os jovens que encontra pelo caminho. “Se a gente não fizer pelos nossos, se a gente não arregaçar as mangas e não fizermos algo pela nossa comunidade, a tendência é piorar”, afirma.

No fim, a história de Anderson volta para onde começou: a comunidade, só que, desta vez, ele não está tentando fugir dela.

Está tentando transformá-la.

Assista à íntegra no YouTube da Gazeta do Paraná.

Créditos: Julia Maraschi Acesse nosso canal no WhatsApp