Novo Ensino Médio promete correção de rumos, mas Paraná mantém grade que frustra professores e contradiz o próprio referencial
Embora diretrizes nacionais reforcem a formação geral básica a partir de 2026, matriz do Paraná mantém disciplinas fragmentadas, prioriza projetos e gera temor de falta de aulas para docentes
Créditos: AEN
A reformulação do Ensino Médio brasileiro, com vigência plena a partir de 2026, foi apresentada pelo Ministério da Educação e pelo Conselho Nacional de Educação como uma resposta às falhas do modelo implantado em 2017. A promessa era clara: reduzir o peso de itinerários genéricos, devolver centralidade à Formação Geral Básica (FGB) e garantir mais aulas contínuas de disciplinas como História, Geografia, Sociologia, Física e Química, que haviam sido esvaziadas para dar lugar a componentes como Projeto de Vida e pensamento computacional.
No Paraná, no entanto, a adequação feita pelo governo estadual vem sendo recebida com frustração nas escolas. A matriz curricular definida para o Ensino Médio a partir de 2026 cumpre formalmente a exigência nacional de 2.400 horas destinadas à Formação Geral Básica, mas professores apontam que a forma como essa FGB foi organizada mantém – e em alguns pontos aprofunda – os problemas do Novo Ensino Médio.
O que o Paraná considera Formação Geral Básica
De acordo com a matriz estadual, a Formação Geral Básica reúne componentes das áreas de Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas, além de Educação Financeira e Educação Digital com Programação e Inteligência Artificial. O ponto central da crítica não está na lista de componentes, mas na distribuição ao longo das séries.
Disciplinas estruturantes não acompanham o estudante durante os três anos do Ensino Médio. História, Geografia, Filosofia e Sociologia aparecem de forma alternada entre as séries; o mesmo ocorre com Biologia, Física e Química. A consequência, segundo professores, é a quebra da continuidade pedagógica e a impossibilidade de aprofundamento real.
Expectativa frustrada nas escolas
Nos debates entre professores, a sensação predominante é de decepção. Uma docente relatou que, quando anunciaram mudanças no Novo Ensino Médio, acreditou que ao menos haveria recomposição mínima das disciplinas:
“Quando falaram que ia mudar, pensei, ao menos vai voltar ter duas aulas por semana de química, para cada ano do ensino médio. Mera ilusão, o que já era ruim, ficou pior.”
Outro ponto recorrente é o desequilíbrio entre áreas. Enquanto algumas disciplinas perdem espaço, Matemática concentra vários componentes. Uma professora chamou atenção para a disparidade:
“Um aluno do 3º ano do E.M. tem 8 aulas de matemática (Matemática, recomposição de aprendizagem, educação financeira). Sei que matemática e português são essenciais. Mas eles também precisam de disciplinas como química, física, filosofia, sociologia. Formamos cidadãos que precisam de conhecimento em todas as áreas do saber.”
Impacto direto no trabalho docente
Além da dimensão pedagógica, a nova grade traz preocupação concreta com a vida funcional dos professores. Em alerta divulgado em grupo de docentes, um professor destacou:
“Com a nova grade do Ensino Médio, professores QPM de Biologia, Física, Química, Filosofia e Sociologia correm o risco de não conseguirem sequer fechar seus padrões nas escolas. Dificilmente haverá aulas para PSS destes componentes curriculares.”
O temor é de que docentes efetivos fiquem com carga horária insuficiente e que contratações temporárias praticamente desapareçam nessas áreas.
Divergências internas e sensação de injustiça
Mesmo entre professores que ponderam que, do ponto de vista formal, a carga horária total não diminuiu, o desconforto permanece. Uma docente observou:
“O que vi foi uma mudança na distribuição das disciplinas. A quantidade de aulas na FGB ficou a mesma.”
Ainda assim, o sentimento predominante é de injustiça. Uma professora de Língua Portuguesa, que teve aumento de carga horária, afirmou:
“Sou de Língua Portuguesa, tive até aumento de CH, mas sinto pelos meus colegas de outros componentes. Tanta espera para mais um balde de água fria, pois pensávamos que iria melhorar.”
Há também relatos de perdas em outras etapas e modalidades. Professores apontam redução de aulas de Ciências no Ensino Fundamental, perda de aulas de Inglês no Integral e retirada de História no Ensino Médio Integrado em determinadas séries.
Contradição com o próprio referencial curricular
A insatisfação ganha ainda mais força quando comparada ao Referencial Curricular do Paraná para o Ensino Médio, documento que defende formação integral, continuidade das aprendizagens e aprofundamento progressivo das áreas do conhecimento. O texto oficial fala em articulação entre saberes científicos, históricos e sociais e em itinerários que complementem, e não substituam, a formação geral.
Na prática da nova grade, professores afirmam que ocorre o inverso: disciplinas fragmentadas, projetos organizando o horário escolar e aprofundamento restrito a poucos estudantes que conseguem acessar determinados itinerários. Para muitos docentes, o referencial ficou no campo do discurso, enquanto a matriz curricular reafirma a lógica administrativa herdada do Novo Ensino Médio.
Crítica institucional
A APP-Sindicato avalia que a matriz curricular definida pelo governo do Paraná para vigorar a partir de 2026 representa uma oportunidade perdida de corrigir os erros estruturais do Novo Ensino Médio. Em nota pública, a entidade sustenta que, embora o discurso oficial fale em fortalecimento da Formação Geral Básica, o desenho adotado pelo Estado mantém a lógica que esvaziou as disciplinas e aprofundou desigualdades dentro da rede.
Segundo a APP, a nova grade não promove a recomposição efetiva de áreas centrais como Ciências Humanas e Ciências da Natureza, que continuam com aulas fragmentadas e distribuídas de forma descontínua ao longo das séries. Para o sindicato, essa organização compromete a formação crítica dos estudantes e contradiz as próprias diretrizes nacionais, que reconhecem a necessidade de garantir continuidade pedagógica e acesso equitativo ao conhecimento científico, histórico e social.
A entidade também critica a centralização das decisões curriculares na Secretaria de Estado da Educação, com pouca participação das comunidades escolares. Na avaliação do sindicato, escolas e professores passam a ser meros executores de um currículo rígido, previamente definido, o que enfraquece o projeto político-pedagógico das instituições e limita a autonomia docente. Para a APP, a lógica imposta reproduz o modelo do Novo Ensino Médio, agora com nova nomenclatura, mas com os mesmos efeitos práticos.
Outro ponto destacado é o impacto direto sobre as condições de trabalho. A APP alerta que a fragmentação das disciplinas e a priorização de projetos e componentes híbridos podem resultar em redução de aulas para diversas áreas, afetando tanto professores efetivos quanto temporários. O sindicato aponta risco de precarização, com dificuldade de fechamento de carga horária, instabilidade funcional e desvalorização de profissionais com formação específica.
Por fim, a APP sustenta que o Paraná optou por um currículo orientado mais por critérios administrativos e de controle do que por princípios pedagógicos. Para a entidade, a reforma estadual se afasta da promessa de formação integral e aprofunda um modelo que sacrifica o conhecimento sistematizado em nome de projetos padronizados, distanciando a política educacional da realidade concreta das salas de aula.
