Lei Maria da Penha completa 20 anos entre avanços históricos e desafios no combate à violência contra a mulher
Legislação transformou o enfrentamento à violência doméstica no Brasil, ampliou a proteção às vítimas, mas feminicídios e agressões ainda desafiam o poder público
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Agência Senado
Há duas décadas, a Lei Maria da Penha mudou a forma como o Brasil enfrenta a violência doméstica e familiar contra a mulher. Sancionada em 7 de agosto de 2006, a legislação tornou-se um marco na proteção das vítimas, endureceu as punições aos agressores e criou uma rede de atendimento que passou a envolver Judiciário, Ministério Público, polícias, assistência social e serviços de saúde.
A lei surgiu após anos de mobilização de movimentos de mulheres e da condenação do Estado brasileiro pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). O caso que deu origem à legislação foi o da farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, que sofreu duas tentativas de feminicídio praticadas pelo então marido e enfrentou quase duas décadas de espera até que ele fosse condenado.
Desde então, a norma passou por diversas atualizações para ampliar sua efetividade. Entre os principais instrumentos criados estão as medidas protetivas de urgência, que permitem o afastamento imediato do agressor, a proibição de contato com a vítima e outras restrições determinadas pela Justiça. Também foram criados Juizados de Violência Doméstica e Familiar, além do fortalecimento das Delegacias da Mulher e de serviços especializados de acolhimento.
Ao longo desses 20 anos, a legislação ganhou novos mecanismos de proteção. O descumprimento de medidas protetivas passou a ser crime, houve o fortalecimento do monitoramento eletrônico de agressores em alguns estados e foram ampliadas as políticas públicas voltadas ao atendimento psicológico, jurídico e social das vítimas.
Apesar dos avanços, especialistas alertam que a violência contra a mulher continua sendo um grave problema no país. Casos de agressão física, violência psicológica, patrimonial, sexual e moral ainda são registrados diariamente, enquanto o feminicídio segue em patamares elevados. A avaliação é de que a lei representa um importante instrumento jurídico, mas depende da estrutura do Estado para garantir proteção rápida e efetiva às vítimas.
Outro desafio apontado é a necessidade de ampliar a rede de atendimento, especialmente em municípios menores, onde muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades para acessar delegacias especializadas, casas de acolhimento ou equipes multidisciplinares.
Além da repressão aos crimes, especialistas defendem investimentos em educação, campanhas permanentes de conscientização e ações de prevenção para romper o ciclo da violência. Também destacam a importância de incentivar denúncias e garantir segurança para que as vítimas consigam buscar ajuda.
Vinte anos após sua criação, a Lei Maria da Penha é reconhecida internacionalmente como uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência de gênero. Embora tenha promovido mudanças profundas no sistema de proteção às mulheres brasileiras, o cenário atual demonstra que o desafio vai além da legislação: passa pela ampliação das políticas públicas, pela responsabilização dos agressores e pela transformação cultural necessária para prevenir a violência e assegurar que mais mulheres possam viver com dignidade e segurança.
