Investigação aponta dúvidas sobre saída da BYD da lista suja do trabalho escravo
Reportagem da Agência Pública revela indícios de continuidade entre empresas que atuaram na construção da fábrica da montadora na Bahia e levanta questionamentos sobre a retirada do nome da companhia do cadastro do Ministério do Trabalho.
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Divulgação BYD
Uma investigação publicada pela Agência Pública revelou novos elementos sobre a forma como a montadora chinesa BYD deixou a chamada “lista suja” do trabalho análogo à escravidão, cadastro mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A reportagem, assinada pelo jornalista André Uzêda, aponta indícios de que a empresa responsável por substituir a terceirizada envolvida nas denúncias mantém vínculos que levantam dúvidas sobre a efetiva ruptura entre as operações.
A BYD foi autuada após uma fiscalização identificar, em 2025, 163 trabalhadores chineses submetidos a condições análogas à escravidão nas obras da fábrica de Camaçari (BA). Após o caso ganhar repercussão nacional, a montadora anunciou o rompimento do contrato com a construtora chinesa Jinjiang Group e informou que uma nova empresa assumiria parte das atividades.
Nova empresa, antigos vínculos
Segundo a investigação da Agência Pública, a empresa Engenova Construções, criada poucos meses após o escândalo, incorporou profissionais que atuavam na Jinjiang e passou a apresentar obras internacionais anteriormente executadas pela empresa chinesa como parte de seu próprio histórico. A reportagem também aponta que a companhia funciona no mesmo endereço utilizado pela antiga prestadora de serviços dentro do complexo industrial da BYD, sem identificação visível própria.
Ainda de acordo com a apuração, a Engenova nasceu a partir da alteração societária de uma microempresa baiana, que teve o capital social ampliado e passou a operar nas obras da fábrica da montadora. A Pública afirma que procurou representantes da empresa e sua administradora, mas não obteve respostas até o fechamento da reportagem.
Retirada da lista
Em abril deste ano, a BYD foi incluída na atualização semestral da lista de empregadores responsabilizados por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão. Entretanto, permaneceu apenas três dias no cadastro após obter decisão liminar da Justiça do Trabalho.
Na ação judicial, a empresa sustentou que os trabalhadores eram formalmente vinculados às empresas terceirizadas e que não poderia ser responsabilizada diretamente pelas irregularidades apontadas pela fiscalização. A tese foi acolhida em caráter liminar, determinando a retirada do nome da companhia da relação oficial.
Demissão e questionamentos
A retirada da BYD da lista foi seguida pela exoneração do então secretário de Inspeção do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de Mello. Na ocasião, entidades representativas dos auditores fiscais manifestaram preocupação com uma possível interferência política na condução da fiscalização trabalhista. O Ministério do Trabalho afirmou que a mudança ocorreu por decisão administrativa da pasta.
Posicionamento da BYD
Conforme informado pela Agência Pública, a BYD afirmou que rescindiu o contrato com a Jinjiang Group e que atualmente a construção do complexo industrial é realizada por empresas brasileiras. A montadora declarou ainda que a Engenova executa apenas parte específica das obras civis e que a futura produção de veículos será realizada por empregados próprios, sem utilização de mão de obra terceirizada nessa etapa.
A empresa, contudo, não respondeu aos questionamentos sobre os indícios de continuidade operacional entre a Engenova e a Jinjiang apontados pela investigação jornalística.
