Inclusão: Unioeste forma primeiro estudante surdo do campus de Toledo
Julio Marcos Souza concluiu Filosofia após dez anos de trajetória marcada por desafios de acessibilidade, perdas familiares e a construção de novas práticas inclusivas na universidade
Créditos: Divulgação
A Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Toledo, formou nesta quarta-feira (19) o primeiro estudante surdo a concluir uma graduação na unidade. Julio Marcos Souza recebeu o diploma de Licenciatura em Filosofia após dez anos de trajetória acadêmica, marcada por desafios, superação e pela construção de novas práticas de acessibilidade.
Entre os mais de 40 estudantes que colaram grau na cerimônia, Julio teve um momento de destaque ao fazer o juramento do curso e o discurso em nome da turma em Língua Brasileira de Sinais (Libras), diante de familiares, professores e colegas. Emocionado, o recém-formado relembrou o caminho percorrido até a conclusão do curso.
A relação de Julio com a Filosofia começou ainda na escola. Naquele período, porém, ele não contava com acessibilidade adequada, principalmente em relação à interpretação dos conteúdos para Libras. Segundo ele, a ampliação da acessibilidade comunicacional modificou sua relação com o conhecimento.
O interesse pela área foi fortalecido por professores e pela leitura do livro “O Mundo de Sofia”. Depois de passar pelos cursos de Direito e Pedagogia, Julio encontrou, em 2016, a oportunidade de ingressar na Licenciatura em Filosofia da Unioeste de Toledo, por meio do Processo Seletivo de Vagas Remanescentes (PROVARE).
A graduação, no entanto, esteve longe de ser simples. No início, o estudante precisava se deslocar diariamente entre Cascavel e Toledo, o que representava um custo significativo. Depois, seu avô, responsável por sua criação e com quem morava, ficou doente. Julio precisou conciliar os estudos com os cuidados familiares, além de enfrentar a pandemia, as dificuldades do ensino remoto e, posteriormente, a perda do avô.
Mesmo diante das dificuldades, a decisão de continuar os estudos prevaleceu. “Eu não quero desistir de estudar”, repetia. Para ele, a formatura representa a conclusão de uma caminhada marcada por interrupções, dificuldades financeiras e perdas.
“Eu não cheguei aqui porque o caminho foi fácil. Cheguei porque, mesmo quando foi difícil continuar, eu encontrei maneiras de continuar”, afirmou.
Acessibilidade construída durante a graduação
A trajetória de Julio também provocou mudanças na forma como a universidade lidava com a acessibilidade. No curso de Filosofia, um dos principais desafios estava na tradução de conceitos específicos para Libras, já que muitos deles não possuíam sinais consolidados.
Denise Dumke, atual coordenadora do Programa de Educação Especial (PEE) do campus de Toledo e intérprete de Libras que acompanhou Julio durante parte da graduação, conta que também precisou enfrentar dificuldades para interpretar determinados conteúdos.
A experiência levou à criação de um projeto voltado ao desenvolvimento de sinais para conceitos filosóficos. Segundo Denise, a Libras como primeira língua e a boa capacidade de leitura do estudante contribuíram para o processo de interpretação e aprendizagem.
No início, Denise era a única intérprete responsável por acompanhar Julio e fazer a intermediação da comunicação durante as aulas. Para ela, a experiência também representou uma oportunidade de desenvolvimento profissional.
“Cada um fez sua parte neste processo”, afirmou Denise, que considera gratificante acompanhar a trajetória do estudante até a formatura.
Para Julio, entretanto, inclusão vai além da presença de um intérprete em sala de aula. É necessário garantir que o estudante surdo tenha condições de acessar, compreender, interpretar e produzir conhecimento.
Experiência transformou práticas pedagógicas
A presença de Julio também provocou mudanças no próprio curso de Filosofia. Segundo a coordenadora da graduação, professora Celia Machado Benvenho, a experiência tornou concretas discussões que antes permaneciam no campo teórico sobre acessibilidade e inclusão.
Para a professora, o processo envolveu toda a comunidade acadêmica e exigiu mudanças nas práticas pedagógicas.
“Aprendemos que inclusão não significa apenas assegurar a presença de um estudante surdo em uma sala de aula predominantemente ouvinte. A acessibilidade é responsabilidade de toda a comunidade acadêmica, e não apenas do estudante ou dos profissionais de interpretação”, destacou.
Celia também considera que a trajetória de Julio representou um processo de aprendizagem institucional.
“Nem tudo estava pronto quando Julio chegou, e talvez essa seja uma das lições mais importantes dessa trajetória. A inclusão também exige que a Universidade seja capaz de aprender com seus estudantes e de transformar suas práticas”, afirmou.
Filosofia e experiência surda
Durante a graduação, Julio também passou a refletir sobre a própria experiência como pessoa surda. As discussões sobre Filosofia, linguagem e surdez deram origem ao tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso e contribuíram para o desenvolvimento do conceito que denomina “Metafísica Surdológica”.
“Eu entrei na universidade querendo estudar Filosofia. Saio dela querendo também filosofar a partir da experiência surda”, afirmou.
A formatura, portanto, representa não apenas a conclusão de uma graduação, mas também o início de uma nova etapa acadêmica. Julio pretende ingressar no mestrado e aprofundar pesquisas relacionadas à Filosofia, à Libras e à experiência surda.
“Para mim, a formatura não é o fim dessa viagem. É o momento em que começa uma nova etapa dela”, declarou.
Universidade destaca papel da inclusão
Durante a cerimônia, a diretora-geral do campus de Toledo, professora Patricia Sala, destacou a importância da universidade pública como espaço de inclusão e permanência.
Segundo ela, garantir o acesso ao ensino superior é apenas uma parte do processo. É necessário assegurar condições para que os estudantes possam permanecer, aprender, participar e concluir sua formação.
A dirigente também ressaltou que a presença de Julio contribuiu para ampliar a compreensão sobre as diferenças dentro da universidade e afirmou esperar que ele seja o primeiro de muitos estudantes surdos a concluir uma graduação no campus.
O vice-reitor da Unioeste, Gilmar Ribeiro de Melo, também destacou a atuação do Programa de Educação Especial, que possui mais de 20 anos e oferece suporte aos acadêmicos.
Para Julio Marcos Souza, a conquista representa uma vitória individual, mas também uma experiência coletiva de construção da inclusão no ensino superior. A trajetória de dez anos, segundo ele, mostra que a acessibilidade precisa ser construída continuamente, a partir das necessidades e experiências dos próprios estudantes.
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