Condenado por homicídio entrega à PF materiais que, segundo defesa, podem ligar políticos a suposto esquema no Maranhão
Gilbson Cutrim Júnior apresentou documentos, fotografia de veículo, etiqueta de dinheiro, registros telefônicos e recibos; caso é investigado pela Polícia Federal e envolve suspeitas de corrupção, pagamento de propina e possível participação de integrantes do grupo do governador Carlos Brandão
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O caso envolvendo um homicídio ocorrido em São Luís, no Maranhão, ganhou novos desdobramentos depois que Gilbson Cutrim Júnior, condenado pelo assassinato, entregou à Polícia Federal uma série de documentos e outros materiais que, segundo sua defesa, podem contribuir para esclarecer a suposta participação de políticos e empresários em um esquema de corrupção e desvio de recursos públicos.
Entre os materiais apresentados estão um papel escrito à mão com números de processos, uma fotografia de um veículo, uma etiqueta que teria acompanhado um maço de dinheiro em espécie, registros de contatos telefônicos e um recibo relacionado a um pagamento feito por uma empresa. A defesa afirma que os documentos podem ajudar os investigadores a identificar pessoas, movimentações financeiras e a origem de valores que teriam sido entregues ao longo do esquema.
Segundo a versão apresentada por Gilbson e por seus advogados, ele teria sido envolvido em uma operação destinada a localizar empresas que possuíam valores a receber de administrações anteriores do governo do Maranhão. A proposta, de acordo com o relato, seria facilitar o pagamento dessas dívidas durante a atual gestão, mediante a devolução de parte do dinheiro aos envolvidos.
A defesa afirma que Gilbson teria recebido uma relação de processos relacionados a empresas com valores superiores a R$ 5 milhões a receber. A partir dessa lista, ele deveria procurar os responsáveis pelas empresas e negociar os pagamentos.
A suspeita apresentada à Polícia Federal é de que o grupo cobraria uma parcela dos valores liberados. O dinheiro, segundo o relato, seria posteriormente transportado e entregue a integrantes do grupo investigado.
Um dos documentos apresentados é justamente uma relação manuscrita de processos. A defesa sustenta que esse material poderia demonstrar que Gilbson não atuava de maneira isolada e que havia uma orientação para que determinados processos fossem selecionados de acordo com o valor que as empresas tinham a receber.
O caso, porém, não começou com uma investigação sobre corrupção. Gilbson foi condenado pelo assassinato de um homem ocorrido em agosto de 2022, dentro de um centro comercial de São Luís, conhecido como Tech Office.
Na ocasião, o crime aconteceu durante o dia e, inicialmente, a Polícia Civil do Maranhão concluiu que o homicídio teria sido motivado por uma desavença de caráter pessoal. Gilbson acabou sendo apontado como autor dos disparos e, em 2024, foi condenado sozinho a 13 anos de prisão.
Posteriormente, a investigação passou a ser analisada pela Polícia Federal, que encontrou elementos que apontariam para uma possível relação entre o assassinato e uma disputa envolvendo valores de propina relacionados a contratos públicos.
A partir daí, a versão apresentada por Gilbson ganhou novo significado para os investigadores. O condenado passou a relatar uma suposta estrutura envolvendo empresários, intermediários e integrantes de grupos políticos do Maranhão.
Em depoimento à Polícia Federal, Gilbson afirmou que teria participado de reuniões com o governador Carlos Brandão dentro do Palácio dos Leões, sede do governo estadual. Ele também relatou que teria transportado dinheiro para o local.
A defesa sustenta que o governador e familiares teriam conhecimento das atividades atribuídas a Gilbson. As acusações, entretanto, são negadas por Brandão e ainda dependem de comprovação no curso das investigações.
Outro ponto apresentado pela defesa envolve supostos pagamentos feitos para que Gilbson permanecesse em silêncio sobre os fatos.
De acordo com os advogados, teria sido oferecido ao condenado um pagamento mensal de R$ 30 mil. A defesa afirma que, na prática, apenas R$ 15 mil teriam sido recebidos pela família de Gilbson.
Segundo o relato apresentado à Polícia Federal, os pagamentos seriam entregues em dinheiro vivo por intermédio de um motorista ligado a Marcus Brandão, irmão do governador. A defesa identifica o motorista como Erick e afirma que os valores eram entregues diretamente ao pai de Gilbson.
A tentativa de identificar a origem desses pagamentos levou a família do condenado a reunir novos materiais.
Em um dos encontros, segundo a defesa, foi fotografado o carro utilizado para transportar ou entregar o dinheiro. A fotografia foi entregue aos investigadores com o objetivo de permitir a identificação do proprietário do veículo por meio da placa.
A defesa também apresentou uma fotografia de uma etiqueta que teria acompanhado um dos maços de dinheiro. De acordo com os advogados, a etiqueta contém informações relacionadas ao Banco do Brasil.
A expectativa é que os dados registrados no material possam ajudar a Polícia Federal a identificar a agência bancária de onde o dinheiro teria sido sacado. A partir dessa informação, os investigadores poderiam buscar registros bancários para identificar quem realizou a retirada dos valores.
Além desses materiais, foram apresentados prints de contatos telefônicos e um recibo referente ao pagamento realizado pela empresa que, segundo a investigação, estaria no centro da disputa que terminou com o assassinato em 2022.
A defesa considera que o conjunto de documentos pode ajudar a confrontar os depoimentos prestados pelos envolvidos e estabelecer uma possível ligação entre os pagamentos, os processos administrativos e o homicídio.
INVESTIGAÇÃO
O caso ganhou um novo capítulo na segunda-feira, dia 17 de agosto, quando o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o afastamento, por 180 dias, de Daniel Brandão da presidência do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão.
Daniel Brandão é sobrinho do governador Carlos Brandão e é suspeito de envolvimento nos fatos que estão sendo apurados. Ele estava presente na reunião realizada no Tech Office que antecedeu o homicídio de 2022.
A decisão de Flávio Dino ocorreu no âmbito das investigações conduzidas sob acompanhamento do Supremo Tribunal Federal.
O afastamento não representa condenação ou comprovação de culpa. Daniel Brandão permanece sob investigação e tem direito à defesa e ao contraditório.
A investigação busca esclarecer, entre outros pontos, a origem e o destino de recursos que teriam sido movimentados, a relação entre empresas que possuíam valores a receber do poder público, eventuais pagamentos indevidos e a possível ligação desses fatos com o assassinato de 2022.
Também está sendo analisada a nova versão apresentada por Gilbson Cutrim Júnior, que passou a atribuir ao crime uma motivação diferente daquela inicialmente apontada pela Polícia Civil do Maranhão.
Os investigadores deverão confrontar as declarações do condenado com documentos bancários, registros telefônicos, informações sobre veículos, processos administrativos e depoimentos de outras pessoas envolvidas.
A existência dos materiais entregues à PF, por si só, não comprova as acusações. Caberá à investigação verificar a autenticidade dos documentos, a origem dos valores, a identificação das pessoas envolvidas e a relação entre os fatos narrados.
Outro aspecto que deverá ser analisado é a credibilidade do próprio Gilbson. Ele cumpre pena por homicídio e mudou a versão sobre as circunstâncias que levaram à morte da vítima. A Polícia Federal terá de verificar se os elementos apresentados são compatíveis com outras provas reunidas no inquérito.
NOTA DA DEFESA
Daniel Brandão afirmou, por meio de nota divulgada no início da semana, que vai comprovar sua “absoluta inocência”. O presidente afastado do TCE-MA declarou estar à disposição das autoridades e do Poder Judiciário para prestar os esclarecimentos necessários.
O governador Carlos Brandão também negou as acusações. Em manifestação pública, afirmou que recebeu com indignação a acusação de ser chefe de uma organização criminosa e de ter recebido valores de um criminoso dentro do Palácio dos Leões.
Brandão questionou a credibilidade do depoimento de Gilbson, destacando que ele é um réu confesso condenado por assassinato e que teria mudado sua versão sobre o caso.
O governador afirmou ainda que, até o momento, não teria sido apresentada prova capaz de confirmar as acusações feitas contra ele. Também declarou que sua defesa não teve acesso à integralidade dos autos do inquérito e criticou a divulgação seletiva de decisões relacionadas à investigação.
Carlos Brandão mencionou ainda que a própria Procuradoria-Geral da República teria se manifestado no sentido de que o caso não deveria ser conduzido pelo Supremo Tribunal Federal.
Ao final da manifestação, o governador disse confiar que a verdade prevalecerá e afirmou que continuará concentrado na administração do Maranhão.
As acusações contra Carlos Brandão, Daniel Brandão e outros integrantes citados no depoimento ainda estão sob investigação. Até o momento, não há condenação em relação às suspeitas apresentadas por Gilbson, e os investigados negam envolvimento nos crimes atribuídos a eles.
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