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Governo do Paraná contrata R$ 1 milhão em inteligência de mídia durante período eleitoral

Três contratos da Secom envolvem audiência de rádio e TV e inteligência sobre publicidade; documentos integrais ainda não estavam disponíveis no Portal da Transparência até esta quarta-feira (26)

Por Gazeta do Paraná

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Governo do Paraná contrata R$ 1 milhão em inteligência de mídia durante período eleitoral Créditos: Reprodução

O Governo do Paraná firmou três contratos que somam R$ 1.043.641,56 para serviços de pesquisa, monitoramento e inteligência de mídia. As contratações, realizadas pela Secretaria de Estado da Comunicação (Secom) com três empresas pertencentes ao grupo Kantar Ibope, começam a vigorar em 1º de setembro de 2026 e seguem até 31 de agosto de 2027, atravessando, portanto, o período eleitoral deste ano.

Os serviços envolvem três áreas que, juntas, permitem ao governo acompanhar diferentes dimensões do mercado de comunicação: audiência de rádio e televisão, publicidade em rádio, TV e meios digitais e pesquisa sobre meios publicitários. Os contratos não são de pesquisa eleitoral e, até o momento, não há evidência de que as informações serão utilizadas para favorecer candidatos ou campanhas. A questão levantada a partir das contratações é qual será o nível de detalhamento das informações colocadas à disposição da estrutura de comunicação do Estado, quem poderá acessá-las e quais controles existem sobre sua utilização em pleno período eleitoral.

A Gazeta do Paraná buscou os três instrumentos contratuais para verificar exatamente quais informações serão fornecidas, quais ferramentas estarão disponíveis, quem poderá acessá-las e quais mecanismos de controle foram estabelecidos. Até esta quarta-feira (26), porém, os contratos integrais ainda não estavam disponíveis na base consultada no Portal da Transparência. A última atualização informada nessa base ocorreu em 18 de agosto de 2026, enquanto os três contratos foram assinados posteriormente, em 25 de agosto.

A diferença entre as datas é importante. A ausência dos documentos pode decorrer do intervalo entre a assinatura e a atualização do sistema, e a reportagem não encontrou elementos que permitam atribuí-la a qualquer tentativa de ocultação. Os processos de inexigibilidade que antecederam as assinaturas, por outro lado, já estão disponíveis e permitem conhecer valores, objetos gerais e as áreas da Secom responsáveis pelas solicitações.

 

Três serviços

O maior contrato, de R$ 584.040, foi firmado com a Ibope Audiências Ltda. A contratação partiu da Diretoria de Rádio e TV da Secom e tem como objeto a pesquisa do consumo de audiência dos meios rádio e TV. O custo mensal previsto é de R$ 48.670.

O segundo contrato, de R$ 305.116,20, foi firmado com a Ibope Monitor de Verificação Publicitária Ltda. Nesse caso, a própria Secom define o objeto como prestação de “serviços de inteligência em pesquisa de publicidade (rádio, TV e digital)”. A solicitação partiu da Diretoria de Publicidade e prevê pagamento mensal de R$ 25.426,35.

O terceiro, de R$ 154.485,36, envolve a Ibope Monitor de Meios Publicitários Ltda. e prevê a prestação de “serviços de inteligência de pesquisa em meios publicitários”, também solicitados pela Diretoria de Publicidade. O custo mensal é de R$ 12.873,78.

Embora sejam três pessoas jurídicas e três CNPJs diferentes, as empresas pertencem ao mesmo grupo empresarial. As contratações ocorreram por inexigibilidade de licitação, sob a justificativa apresentada pela Secom de que cada uma é fornecedora exclusiva dos respectivos serviços. Os processos mencionam atestados de exclusividade emitidos pelo Conselho Executivo das Normas-Padrão (CENP).

 

Do Ibope à Kantar

O nome Ibope presente nas empresas contratadas pelo Governo do Paraná remete a uma marca que, durante décadas, ficou conhecida no país também pela divulgação de pesquisas de intenção de voto. Os contratos analisados pela Gazeta, entretanto, não são de pesquisa eleitoral. Eles envolvem audiência, publicidade e inteligência de mídia. Para compreender a diferença, é necessário observar a reorganização empresarial ocorrida a partir de 2014.

Naquele ano, a Kantar adquiriu o controle integral do Ibope Media, braço dedicado à medição de audiência e ao mercado de mídia. A operação deu origem à Kantar Ibope Media, da qual deriva o grupo empresarial ao qual estão vinculadas as empresas contratadas atualmente pela Secom. Na mesma reorganização, a Kantar também adquiriu uma participação de 49% no Ibope Inteligência, empresa responsável por pesquisas de mercado, opinião pública e também levantamentos eleitorais. Os 51% restantes permaneceram com a família Montenegro, historicamente ligada ao Ibope.

Durante esse período, portanto, a Kantar controlava integralmente a operação de mídia e, ao mesmo tempo, era sócia minoritária do Ibope Inteligência, que também realizava pesquisas eleitorais. A companhia chegou a possuir uma opção para adquirir a participação restante da empresa, mas a aquisição integral não se concretizou.

Posteriormente, os caminhos empresariais se separaram. O Ibope Inteligência encerrou suas atividades em 2021 e parte de seus antigos executivos e profissionais criou o Instituto de Pesquisas e Estudos de Mercado (Ipec), que passou a realizar pesquisas de opinião e intenção de voto. Carlos Augusto Montenegro, integrante da família fundadora do antigo Ibope, esteve entre os sócios do novo instituto. Em 2025, o Ipec foi adquirido pela multinacional Ipsos e passou a integrar outro grupo empresarial.

As empresas contratadas agora pelo Governo do Paraná pertencem à vertente que permaneceu ligada à Kantar e atua no mercado de medição de audiência, publicidade e inteligência de mídia. A apuração da Gazeta não encontrou, até o momento, indicação de que os três contratos da Secom incluam pesquisa de intenção de voto, nem vínculo societário atual entre as empresas contratadas e o Ipec, hoje pertencente à Ipsos.

 

O que falta saber

Os documentos atualmente disponíveis informam o tipo de serviço contratado, mas não permitem conhecer todo o seu alcance. Nos três processos, a própria Secom afirma que as especificações estão nos respectivos Termos de Referência. São esses documentos que podem revelar quais sistemas serão utilizados, que informações estarão disponíveis, quais regiões serão monitoradas, quais relatórios serão produzidos e quantos usuários poderão acessar as ferramentas.

Essa distinção é fundamental. Empresas desse segmento comercializam ferramentas capazes de trabalhar com informações detalhadas sobre audiência, publicidade, anunciantes, mercados e campanhas. Dependendo do produto contratado, essas soluções podem permitir análises de audiência por emissora, programa, horário e perfil de público, além do acompanhamento da distribuição de publicidade e do comportamento de anunciantes. Isso demonstra o valor estratégico que informações desse tipo podem ter para qualquer planejamento de comunicação, mas não permite concluir que todas essas funcionalidades estejam incluídas nos contratos do Paraná.

Sem os instrumentos completos e os Termos de Referência, a Gazeta não pode afirmar quais dessas possibilidades estarão efetivamente disponíveis à Secom. Também não é possível saber, pelos documentos acessíveis até agora, quantas pessoas terão acesso às plataformas, se as agências de publicidade contratadas pelo Estado poderão utilizá-las, se haverá registro individualizado das consultas ou se existem restrições específicas relacionadas ao período eleitoral.

 

DC cobra explicações

A coincidência entre a vigência dos contratos e a eleição estadual levou a Democracia Cristã do Paraná (DC-PR) a divulgar uma nota pública cobrando transparência do governo. O partido afirma que os mais de R$ 1 milhão em contratos acendem um “alerta eleitoral” e questiona o alcance da estrutura de inteligência de comunicação que estará disponível ao Estado durante a sucessão estadual.

“Que tipo de informação será produzida? Quem terá acesso a esses dados? Para que finalidade? E quais mecanismos impedirão que informações estratégicas produzidas com dinheiro público sejam utilizadas, direta ou indiretamente, em benefício de candidaturas?”, questiona a Executiva Estadual da legenda.

A própria DC reconhece na manifestação que as contratações não são formalmente de pesquisa eleitoral. O questionamento do partido está concentrado no possível valor estratégico das informações produzidas. “Estamos diante de simples rotina administrativa ou da construção de uma poderosa estrutura de inteligência de comunicação justamente no ano em que o grupo político que comanda o Estado disputa a sua sucessão?”, afirma a nota.

O partido também ressalva que não está atribuindo previamente ilegalidade às empresas ou aos agentes públicos envolvidos. “Não estamos acusando antecipadamente nenhuma empresa ou agente público de ilegalidade. Estamos exigindo transparência”, diz o documento. Entre as informações que a legenda defende que sejam tornadas públicas estão os Termos de Referência completos, os produtos e relatórios previstos, a metodologia utilizada, os critérios de contratação, os responsáveis pelo recebimento dos relatórios, quem terá acesso às informações, a finalidade dos levantamentos e os mecanismos de controle para impedir eventual utilização político-eleitoral.

Em outro trecho, a DC resume o questionamento feito ao governo: “Não estamos dizendo que há crime. Estamos perguntando se existem mecanismos suficientes para garantir que não haja”.

 

Caso IRG

A manifestação da Democracia Cristã também recupera a recente controvérsia envolvendo o Instituto IRG e o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes). Segundo a nota, uma pesquisa eleitoral divulgada em junho apresentou candidatos vinculados aos chamados “padrinhos políticos”. Nesse formato, Sandro Alex, associado ao governador Ratinho Junior, apareceu com 27,5%, enquanto registrava 14,4% em cenário sem essa vinculação.

A DC também menciona uma Ação Popular que questionou um contrato de R$ 583,8 mil firmado pelo Ipardes com o IRG e levantou dúvidas sobre a coincidência temporal entre a contratação pública e a divulgação da pesquisa eleitoral. O próprio partido ressalta que se trata de questionamento levado ao Judiciário, e não de decisão definitiva reconhecendo irregularidade.

Os episódios, entretanto, são distintos. Os contratos da Kantar Ibope analisados nesta reportagem não envolvem pesquisa de intenção de voto e, até o momento, não há documentação que estabeleça relação entre as três contratações da Secom e o caso IRG. A associação entre os episódios integra a argumentação política apresentada pela Democracia Cristã ao cobrar maior transparência sobre informações produzidas ou adquiridas pelo poder público durante o processo eleitoral.

 

Informação estratégica

O ponto central da discussão está no valor que dados de audiência e publicidade possuem para qualquer estratégia de comunicação. Uma pesquisa de audiência pode ajudar a determinar onde uma campanha institucional terá maior alcance, enquanto ferramentas de monitoramento publicitário podem indicar como anúncios estão distribuídos entre meios e mercados e como determinadas mensagens circulam.

Essas funções são compatíveis com as atribuições de uma secretaria de Comunicação. Ao mesmo tempo, informações sobre público, audiência, alcance, mercados e comportamento publicitário possuem valor estratégico. Em período eleitoral, portanto, torna-se relevante saber não apenas o que será adquirido, mas quem poderá consultar essas informações e quais mecanismos existem para manter sua utilização restrita à finalidade institucional.

Os documentos analisados pela Gazeta não apresentam indicação de compartilhamento dos dados com candidatos, partidos ou estruturas de campanha. Da mesma forma, ainda não permitem identificar quais servidores ou gestores poderão acessar as informações, se as consultas ficarão registradas ou quais barreiras técnicas, administrativas ou jurídicas foram estabelecidas para separar a estrutura pública de comunicação de eventuais interesses eleitorais.

 

PGE condicionou

Outro elemento comum aos três processos é a análise realizada pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE). Nas três contratações, a documentação registra que a Procuradoria se manifestou pela “regularidade condicionada” dos pedidos. Depois das análises jurídicas, a Secom complementou os processos e suas unidades técnicas registraram o atendimento das ressalvas.

A expressão não significa que a PGE tenha considerado as contratações irregulares. Indica que a regularidade ficou condicionada ao atendimento de determinações feitas durante a análise. No contrato de audiência, a manifestação consta da Informação nº 284/2026; na contratação de R$ 305 mil, da Informação nº 292/2026; e, no contrato de R$ 154 mil, da Informação nº 293/2026.

 

Transparência

A Gazeta do Paraná busca os contratos nº 7130/2026, 7133/2026 e 7136/2026, além dos respectivos Termos de Referência, para identificar precisamente quais serviços, plataformas, relatórios e informações foram adquiridos. Até esta quarta-feira (26), os instrumentos integrais ainda não estavam disponíveis na base de contratos consultada no Portal da Transparência, cuja última atualização informada ocorreu em 18 de agosto, sete dias antes da assinatura dos documentos.

A diferença temporal impede, neste momento, que a indisponibilidade seja tratada como falha de transparência. Os contratos foram assinados apenas em 25 de agosto e, portanto, posteriormente à última atualização indicada pelo Portal. A reportagem continuará acompanhando a disponibilização dos documentos.

O que está documentalmente demonstrado até agora é que o Governo do Paraná destinou R$ 1.043.641,56 a três serviços complementares de audiência e inteligência de publicidade que estarão vigentes durante o período eleitoral. O alcance exato dessas informações, quem poderá acessá-las e quais controles garantirão sua utilização exclusivamente para a finalidade pública são questões que dependem da divulgação dos contratos completos e dos esclarecimentos da Secretaria de Estado da Comunicação.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp