Falta água, sobra picaretagem
O governador é o responsável. De direito e de fato. Não adianta terceirizar, não adianta empurrar para assessores, para aliados ou para figuras que dizem mandar mais do que ele
Créditos: Imagem gerada por inteligência artificial
O Paraná vive uma calamidade. Não é força de expressão. Falta água em Curitiba, no litoral e em várias regiões do Estado. Falta água nas casas, nos hospitais, nos hotéis, nas empresas. Falta água para quem paga uma conta exorbitante todo mês, muitas vezes sem consumir nada, porque é o ar que gira o hidrômetro. E, diante disso tudo, o governo permanece em silêncio.
O governador é o responsável. De direito e de fato. Não adianta terceirizar, não adianta empurrar para assessores, para aliados ou para figuras que dizem mandar mais do que ele. O Paraná tem governador, e é a ele que cabe explicar o que está acontecendo. Ficar quieto não é opção.
O caso do alargamento da praia de Matinhos é emblemático. Foram 500 milhões de reais pagos pelos paranaenses. Meio bilhão. A obra foi anunciada, celebrada, virou palco de festa. Mas o mar veio e levou. Levou a areia, levou o discurso e escancarou o problema: não havia drenagem adequada. Não havia projeto sério. Houve economia onde não se podia economizar. E quando se economiza em obra pública desse porte, alguém está ganhando do outro lado.
Engenheiros ouvidos apontam o óbvio: sem drenagem, o resultado é esse. E orçamento inflado não é acidente. Em obras grandes, a propina costuma ser grande também. Trinta por cento. É isso que se fala. É isso que se comenta. E é isso que precisa ser investigado. Ou o governo vai fingir que não viu?
Enquanto isso, a Sanepar se tornou símbolo de um modelo que fracassou. Falta água, mas sobra dinheiro para dividendos. Um bilhão e duzentos milhões de reais pagos a acionistas minoritários. Gente que manda há décadas. Gente que não sente sede. Gente que lucra enquanto a população fica sem abastecimento e sem explicação.
Não há recursos para ampliar a rede, dizem. Não há dinheiro para modernizar o sistema, afirmam. Mas sempre há dinheiro para pagar contratos duvidosos, aluguéis de ativos, parcerias mal explicadas e dividendos generosos. A conta fecha para poucos e não para o povo.
Funcionários denunciam. Internautas escrevem. As mensagens chegam todos os dias. O que se lê é grave: o governo do Paraná teria se transformado em um balcão de negócios. Picaretas dilapidando o patrimônio público. Essa não é uma acusação leviana. É um alerta. E alerta exige resposta, não silêncio.
Há contratos que desapareceram. Projetos reaproveitados. Obras mal feitas que continuam sendo pagas mês após mês. Milhões escorrendo enquanto falta água e saneamento básico. E ainda se fala em parcerias público-privadas como se fossem solução, quando parecem apenas privatização disfarçada do que é essencial.
Água não é luxo. Água é saúde. Água é vida. A saúde pública depende diretamente do acesso à água potável. Quando o governo permite que esse serviço se deteriore, algo muito sério está errado.
O Paraná não precisa de palanque, nem de propaganda, nem de vídeos ensaiados. Precisa de investigação. Precisa de transparência. Precisa de uma limpeza profunda. Quem errou tem que ser afastado. Quem roubou tem que responder. Quem se omite tem que explicar.
Porque enquanto picaretas faturam bilhões, o povo fica com o prejuízo. E com sede.
Créditos: Marcos Formighieri
