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Exames em mulheres, CPFs de mortos e suspeita de superfaturamento: Tribunal aponta rombo milionário na saúde de Fazenda Rio Grande

Relatório preliminar do Tribunal de Contas identifica mais de 5,3 mil irregularidades em contratos sem licitação, incluindo exames de próstata realizados em mulheres e uso de dados de pacientes mortos; prejuízo estimado ultrapassa R$ 800 mil

Por Gazeta do Paraná

Exames em mulheres, CPFs de mortos e suspeita de superfaturamento: Tribunal aponta rombo milionário na saúde de Fazenda Rio Grande Créditos: TCE

Mais um escândalo envolvendo a saúde pública de Fazenda Rio Grande veio à tona. Um relatório preliminar do Tribunal de Contas do Paraná (TCE-PR) revelou uma série de suspeitas de irregularidades em contratos da área da saúde que movimentaram mais de R$ 10 milhões em recursos públicos.

A auditoria aponta indícios de superfaturamento, fraudes em cadastros de pacientes e situações consideradas “clinicamente absurdas”, como a realização de exames de próstata em mulheres.

Na mira dos auditores está um contrato firmado sem licitação entre a prefeitura e a empresa AGP Saúde, responsável pela aplicação de testes domiciliares para identificação de doenças pré-existentes. Segundo o relatório, foram encontradas mais de 5.300 inconsistências nos dados utilizados pela empresa, incluindo o uso de CPFs repetidos em diferentes municípios e até registros vinculados a pacientes mortos.

De acordo com o Tribunal de Contas, as irregularidades podem ter causado prejuízo superior a R$ 800 mil aos cofres públicos.

A auditoria também questiona a efetividade e a utilidade prática dos exames realizados. Conforme o documento, os testes rápidos eram aplicados por funcionários sem habilitação técnica, em ambientes inadequados e sem preparo prévio dos pacientes, o que poderia comprometer a confiabilidade dos resultados.

Entre os casos mais graves apontados pela fiscalização está a realização em massa do exame PSA utilizado para detectar alterações na próstata em mulheres. Uma auditoria interna da própria prefeitura identificou que a empresa realizou 35.918 exames desse tipo em pacientes do sexo feminino.

O relatório classifica a situação como “impertinente” e destaca que mulheres não possuem próstata, tornando o procedimento sem qualquer justificativa clínica.

Outro ponto levantado pelo Tribunal envolve suspeita de superfaturamento. Segundo os auditores, a prefeitura pagou R$ 75 por um questionário com 60 perguntas aplicado aos pacientes. O valor de mercado estimado para o serviço seria de aproximadamente R$ 16, mais de quatro vezes abaixo do valor pago pelo município.

O então prefeito de Fazenda Rio Grande, Marco Marcondes, também é alvo das investigações. Ele foi denunciado pelo Ministério Público pelos crimes de organização criminosa, contratação direta ilegal e peculato desvio de dinheiro público. Marco Marcondes e outras quatro pessoas chegaram a ser presas em outubro do ano passado e foram soltas 15 dias depois.

O ex-prefeito é suspeito de receber propina e participar de um esquema de desvio de recursos da saúde. Atualmente, ele está afastado do cargo e o caso foi encaminhado à Justiça Federal por envolver verbas da União.

A auditoria do Tribunal de Contas foi encaminhada à Prefeitura de Fazenda Rio Grande, que ainda está no prazo para apresentar defesa.

 

O que diz a prefeitura

Em nota, a prefeitura informou que a atual gestão determinou o congelamento de pagamentos e alterações contratuais com a empresa AGP Saúde. O município também anunciou a abertura de uma auditoria interna para buscar o ressarcimento integral aos cofres públicos, além de apurar responsabilidades administrativas e possíveis irregularidades cometidas pelos envolvidos.

Já a defesa de Marco Marcondes afirmou que ainda não teve acesso ao relatório preliminar do Tribunal de Contas nem à auditoria interna da prefeitura. Por isso, segundo os advogados, não é possível fazer uma manifestação conclusiva neste momento.

A defesa declarou ainda estar à disposição para prestar esclarecimentos e colaborar com a apuração “de forma técnica, transparente e isenta”, informou.

 

Histórico de irregularidades

O caso é um desdobramento da Operação Fake Care, deflagrada pelo Ministério Público do Paraná em outubro de 2025 para investigar suspeitas de corrupção e desvio de recursos públicos na saúde de Fazenda Rio Grande como a Gazeta do Paraná vem denunciando.

Na época, o Ministério Público apontou a existência de uma organização criminosa responsável por fraudes em contratos de testagem domiciliar e levantamentos estatísticos, com prejuízo estimado em mais de R$ 10 milhões aos cofres públicos.

A investigação foi conduzida pela Subprocuradoria-Geral de Justiça para Assuntos Jurídicos (SubJur), com apoio do Gaeco. Mandados de prisão preventiva, busca e apreensão e afastamento de funções públicas foram cumpridos em diversos endereços de Curitiba e Fazenda Rio Grande.

Entre os presos durante a operação estavam o então prefeito Marco Marcondes e o auditor do Tribunal de Contas do Paraná, Alberto Martins de Faria.

Também foram investigados Francisco Roberto Barbosa, então secretário municipal da Fazenda; Samuel Antonio da Silva Nunes; e Abrilino Fernandes Gomes, apontados como sócios da empresa envolvida no esquema.

Segundo o MPPR, o grupo favorecia contratos direcionados para prestação de serviços de testes rápidos, permitindo o desvio de recursos públicos e o pagamento de propinas a agentes públicos.

O Ministério Público também apura suspeitas de superfaturamento e lavagem de dinheiro, além da possibilidade de o esquema ter sido replicado em outros municípios.

Em nota, na época, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná informou que o servidor investigado estava afastado desde o início do ano de 2025 em licença não remunerada.

O órgão afirmou ainda que colabora integralmente com o Ministério Público para o esclarecimento dos fatos e que, após a conclusão das investigações, o caso será encaminhado à Corregedoria-Geral para as providências cabíveis.

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