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EUA classificam PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas e ampliam tensão diplomática com o Brasil

Governo americano afirma que PCC e CV ameaçam a segurança internacional; especialistas questionam enquadramento como terrorismo.

Por Julia Maraschi

EUA classificam PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas e ampliam tensão diplomática com o Brasil Créditos: Divulgação

O Governo dos Estados Unidos decidiu, nesta quinta-feira (28), a classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, e representa um marco diplomático e jurídico importante nas relações entre Brasil e EUA, por alterar a forma como o crime organizado brasileiro passa a ser tratado internacionalmente.

O anúncio foi feito pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, no qual afirmou que as facções brasileiras estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil” e possuem atuação internacional capaz de ameaçar a segurança dos Estados Unidos. Dentro da política de endurecimento do governo de Donald Trump contra o narcotráfico e organizações criminosas, o PCC e o CV foram colocados em duas categorias da legislação americana: “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTOs) e “Terroristas Globais Especialmente Designados” (SDGTs). 

Embora as facções brasileiras já fossem reconhecidas internacionalmente como grupos criminosos perigosos, a classificação como terroristas possui implicações mais amplas. A medida deve entrar oficialmente em vigor no próximo dia 5 de junho, após notificação formal ao Congresso norte-americano. Na prática, o enquadramento permite ampliar sanções financeiras, congelar ativos, restringir circulação internacional de integrantes e intensificar operações de inteligência contra as organizações. 

Nos últimos anos, a administração republicana passou a defender uma interpretação mais ampla do conceito de terrorismo, aproximando organizações criminosas transnacionais da categoria tradicionalmente atribuída a grupos extremistas de motivação ideológica ou religiosa. Por isso, diplomatas e juristas brasileiros avaliam que o enquadramento seria tecnicamente inadequado dentro da legislação brasileira. 

Impactos Políticos

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou ter solicitado pessoalmente ao presidente Donald Trump que classificasse as facções brasileiras como terroristas durante encontro realizado nesta semana na Casa Branca. Segundo o parlamentar, o pedido foi reforçado em conversa com Marco Rubio um dia antes do anúncio oficial.

Enquanto aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro defendem que a medida representa um endurecimento necessário contra o crime organizado, integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva demonstraram preocupação com possíveis consequências diplomáticas e jurídicas.

A avaliação do governo federal é que a classificação pode abrir precedentes para pressões internacionais mais agressivas sobre o Brasil e ampliar a influência norte-americana em questões de segurança pública nacional.

Especialistas em direito internacional e segurança pública questionam a adequação técnica da medida. Para estudiosos, PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas movidas por interesses econômicos ligados ao tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro, sem motivações ideológicas, religiosas ou separatistas (características associadas ao terrorismo).

Diplomatas brasileiros também argumentam que a legislação nacional não enquadra as facções como grupos terroristas. A Lei Antiterrorismo brasileira prevê atos motivados por xenofobia, discriminação, intolerância religiosa ou razões políticas, o que, segundo especialistas, não corresponde ao perfil das organizações criminosas brasileiras. 

Mudança de Estratégia Internacional

O governo Trump já havia adotado posicionamento semelhante em relação aos cartéis mexicanos, tratados como ameaças diretas à segurança nacional americana devido ao tráfico de drogas para território norte-americano. 

Embora qualquer intervenção militar direta ao Brasil seja considerada improvável por especialistas, integrantes do governo atual avaliam que o enquadramento pode servir como instrumento de pressão diplomática, e ampliar justificativas para operações internacionais de inteligência e monitoramento financeiro. 

A preocupação aumenta diante do histórico de ações unilaterais dos Estados Unidos em países latino-americanos sob argumentos ligados à segurança nacional e combate ao terrorismo. 

Reação do Governo 

Durante visita recente a Washington, Lula apresentou propostas de integração regional no combate ao crime organizado e convidou os Estados Unidos a participarem do Centro de Cooperação Policial Internacional (CCPI), sediado em Manaus. Estratégia tomada pelo governo brasileiro com o objetivo de fortalecimento da cooperação internacional sem abrir espaço para interferência externa. 
 
Além disso, o governo federal também apresentou o plano “Brasil contra o crime organizado”, estruturado em ações de combate financeiro às facções, endurecimento da segurança em presídios, repressão ao tráfico de armas e aumento da capacidade de investigação de homicídios.

Mesmo com divergências sobre a classificação das facções, Brasil e Estados Unidos já mantêm cooperação constante na área de segurança pública. Autoridades dos dois países compartilham informações sobre rotas do tráfico internacional, lavagem de dinheiro e circulação ilegal de armas.

A decisão norte-americana, no entanto, marca uma mudança significativa na forma como o crime organizado brasileiro passa a ser tratado internacionalmente e pode gerar impactos diplomáticos, econômicos e políticos nos próximos meses.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp