Estudo aponta que Brasil precisa integrar sistemas para ampliar rastreabilidade da soja e da carne bovina
Levantamento do WRI Brasil conclui que país já possui instrumentos avançados de monitoramento, mas recomenda maior integração para atender às exigências do mercado internacional
Créditos: Fernando Frazão/Agência Brasil
O Brasil já dispõe de uma estrutura avançada para monitorar as cadeias produtivas da soja e da carne bovina, mas ainda precisa integrar os sistemas existentes para ampliar a rastreabilidade socioambiental desses produtos. A conclusão faz parte do estudo "Rastreando a Responsabilidade: fortalecendo o monitoramento do desmatamento nas cadeias de suprimento de soja e carne bovina do Brasil", divulgado nesta terça-feira (28) pela organização ambiental WRI Brasil.
O levantamento analisou 21 iniciativas de monitoramento e rastreabilidade utilizadas nas duas principais cadeias do agronegócio brasileiro, com foco na produção nos biomas Amazônia e Cerrado.
Estudo avaliou 21 iniciativas
Os pesquisadores analisaram dez sistemas voltados à cadeia da soja e 11 relacionados à produção de carne bovina.
Segundo o estudo, esses instrumentos já permitem acompanhar aspectos ambientais e produtivos, mas ainda apresentam diferenças de critérios, bases de dados e metodologias, o que dificulta uma fiscalização integrada e mais eficiente.
A proposta é fortalecer o monitoramento para atender às exigências cada vez maiores dos mercados internacionais em relação à origem sustentável dos produtos agropecuários.
Dez recomendações para aperfeiçoar a rastreabilidade
A partir da análise, o estudo apresenta dez recomendações para aprimorar os mecanismos de controle e orientar futuras políticas públicas.
Entre as principais sugestões estão:
utilizar a propriedade rural como unidade de monitoramento;
ampliar o uso de bases oficiais e dados cientificamente validados;
verificar o cumprimento do Código Florestal Brasileiro e a inexistência de trabalho forçado;
implementar auditorias independentes e ampliar a transparência dos resultados;
expandir o monitoramento para todos os biomas brasileiros;
garantir a identificação de desmatamentos ilegais conforme o marco temporal de 2008;
adotar o compromisso de desmatamento zero após agosto de 2020;
monitorar toda a cadeia produtiva, incluindo fornecedores indiretos;
criar mecanismos para reintegrar fornecedores que regularizem pendências ambientais;
fortalecer a gestão participativa entre governo, setor produtivo e sociedade civil.
Objetivo é ampliar confiança do mercado internacional
De acordo com a diretora do Programa de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil, Mariana Oliveira, a melhoria dos sistemas de rastreabilidade pode contribuir para um modelo de desenvolvimento mais sustentável no campo.
Segundo ela, o fortalecimento dos mecanismos de monitoramento também favorece a atuação de instituições financeiras e investidores, que utilizam informações socioambientais para avaliar riscos antes de conceder financiamentos ou realizar investimentos.
Mariana afirma que a integração das bases de dados pode ampliar a confiança de bancos nacionais e internacionais na produção agropecuária brasileira.
China é apontada como mercado estratégico
O estudo destaca que a China, principal compradora de soja e carne bovina do Brasil, pode ser uma das maiores beneficiadas por um sistema nacional de rastreabilidade mais integrado.
Em 2024, o país asiático importou US$ 44,6 bilhões em produtos desses dois setores.
Segundo os pesquisadores, a harmonização dos critérios técnicos e das bases de dados facilitaria a avaliação dos riscos socioambientais por parte dos países importadores, aumentando a transparência das cadeias produtivas.
Rastreabilidade também pode fortalecer desenvolvimento no campo
Para Mariana Oliveira, a construção de sistemas mais eficientes de rastreabilidade vai além do atendimento às exigências do comércio internacional.
Na avaliação da especialista, a iniciativa pode contribuir para um modelo de desenvolvimento capaz de gerar mais oportunidades, empregos e renda aos produtores rurais, além de estimular investimentos em inovação, mecanização e sustentabilidade.
O estudo também ressalta a importância da cooperação entre o Brasil e grandes mercados consumidores para fortalecer a competitividade do agronegócio brasileiro e ampliar a credibilidade das cadeias produtivas de soja e carne bovina.
